Arcos cortados, animação fraca e finais alterados, os casos em que a versão em papel é bem melhor
10Berserk
Berserk é, para muitos, o melhor mangá alguma vez publicado. Com mais de 70 milhões de cópias em circulação, a obra de Kentaro Miura, serializada desde 1989 na revista Young Animal, construiu um universo sombrio e perturbador que influenciou videojogos, literatura e todo um género de fantasia. A razão pela qual nenhuma adaptação anime funcionou tem uma resposta simples: a arte de Miura é inimitável. O seu trabalho a tinta preta e branca, com sombreados densos e uma atenção obsessiva ao detalhe das texturas, carne corrompida, armaduras amassadas, paisagens devastadas, simplesmente não sobrevive à transposição para animação sem perder aquilo que o torna único.
A adaptação de 1997, produzida pela OLM, cobriu apenas o arco da Era de Ouro e fez alguns cortes significativos, nomeadamente o volume 11, onde aparecia Wyald, personagem que foi simplesmente removido. O arco Lost Children, de uma violência e peso psicológico sem paralelo, ficou completamente de fora. A série ficou-se ali, num ponto onde a história mal tinha começado. O arco Hawk of the Millennium Empire, um dos mais elaborados de toda a obra, nunca chegou a ser animado de forma séria.
A adaptação de 2016, produzida pela Liden Films em colaboração com outros estúdios, tentou ir mais longe, mas o CGI escolhido como solução técnica tornou-se o maior problema. Personagens com movimentos mecânicos e artificiais, cenários que pareciam renders de videojogos de segunda linha, e uma direcção de som que a comunidade ridicularizou por anos. Há quem argumente que Berserk nunca terá uma adaptação à altura enquanto não houver um estúdio disposto a tratá-lo com a seriedade que a obra exige, e esse dia ainda não chegou.
9Soul Eater
Soul Eater tem um dos arranques mais fortes da sua geração. O anime de 2008, produzido pela Bones, é visualmente inventivo, o seu estilo art déco distorcido combina bem com a atmosfera da série, e os primeiros arcos são adaptados com fidelidade suficiente para conquistar qualquer espectador. O problema é o que acontece quando o anime começa a ultrapassar o mangá, que ainda estava em publicação na altura, e a equipa de produção decide escrever o seu próprio final.
A partir de certa altura, o anime e o mangá de Atsushi Ohkubo deixam de ter qualquer relação narrativa. Death the Kid, que no mangá cresce para se tornar uma figura de enorme peso dramático, capaz de estabelecer uma trégua entre a DWMA e as bruxas, algo que redefine o equilíbrio de poder de todo o universo da série, no anime nunca chega perto disso. É tratado como personagem secundário quando devia ser um dos pilares da história.
Justin Law é outro exemplo, no anime é um fiel seguidor da DWMA sem grande profundidade; no mangá torna-se um antagonista complexo com uma trajectória que ninguém esperaria. E Crona, talvez a personagem mais perturbadora de toda a série, tem no mangá um arco de sacrifício final que é genuinamente devastante, aprisionar Asura na Lua é um acto com peso real. No anime, a resolução do arco de Crona é apressada e fácil, e trai completamente o que tornava a personagem tão interessante.
8The Promised Neverland
A primeira temporada de The Promised Neverland é um caso exemplar de adaptação bem feita. A CloverWorks pegou no primeiro arco do mangá de Kaiu Shirai e Posuka Demizu e entregou doze episódios tensos, inteligentes e visualmente muito bem conseguidos. A segunda temporada é o oposto de tudo isso, e é difícil de explicar como uma equipa capaz de fazer algo tão bom conseguiu falhar de forma tão total.
O arco Goldy Pond foi simplesmente cortado. Para quem leu o mangá, esta decisão é incompreensível, é considerado por muitos o melhor arco de toda a série, introduz personagens como Lucas que se tornam centrais na narrativa posterior, e representa o momento em que a história dá um salto qualitativo enorme. No anime, essa parte da história não existe.
O regresso de Norman, que no mangá não acontece durante quase cem capítulos após o seu sacrifício, um período de ausência que o torna ainda mais impactante quando finalmente regressa, no anime acontece de forma precipitada, sem o peso emocional que esse momento merecia. E há ainda a questão da arte de Posuka Demizu, que é uma das grandes forças do mangá, detalhada, atmosférica, capaz de criar uma sensação física de perigo nos ambientes. Dessa componente não sobrou nada na adaptação.
7One-Punch Man
Há um antes e um depois na história de One Punch Man enquanto anime. O antes é a primeira temporada, produzida pela Madhouse sob direcção de Shingo Natsume em 2015, uma das temporadas de anime de acção mais bem recebidas da última década, com o combate entre Saitama e Boros a ser ainda hoje citado como referência técnica. O depois é tudo o que veio a seguir, e a história piora a cada capítulo.
A segunda temporada, entregue à J.C. Staff em 2019, já desapontou a maioria dos fãs. A terceira, que estreou em outubro de 2025 após uma espera de seis anos, tornou-se num fenómeno negativo sem precedentes. O episódio 6, intitulado “Motley Heroes”, alcançou uma pontuação de 1,5 no IMDb com mais de 23 mil votos, a pior avaliação de qualquer episódio de anime na história da plataforma. Os fãs apelidaram a temporada de “One-Frame Man”, em referência às longas sequências de imagens estáticas que substituíam animação real. Num episódio, Garou a deslizar por uma colina foi apresentado como uma imagem parada sem qualquer movimento.
O que torna isto mais doloroso é o material que estava a ser adaptado. O arco da Associação de Monstros, central nesta temporada, é amplamente considerado o ponto mais alto do mangá de ONE e Yusuke Murata, um mangá cuja arte é tão intrincada e dinâmica que provavelmente nenhum estúdio conseguiria replicar com fidelidade total. Mas a J.C. Staff, a trabalhar simultaneamente em cinco projectos durante o outono de 2025, nem sequer tentou de forma convincente. O resultado foi o anime mais mal avaliado do ano.
6Tokyo Ghoul
Há uma versão de Tokyo Ghoul em que a adaptação anime correu bem. Essa versão não existe, mas poderia ter existido, a primeira temporada, apesar de alguns cortes e alterações, tinha energia suficiente para manter o interesse. O problema é que o Studio Pierrot nunca teve intenção de ser fiel ao mangá de Sui Ishida a longo prazo, e isso ficou evidente logo na segunda temporada, com o subtítulo de Root A, onde a história original foi abandonada a favor de um enredo inventado pelos próprios diretores.
A adaptação de Tokyo Ghoul:re, a continuação, agravou o problema. A Operação Rushima, o conjunto de eventos que explica a transformação de Kaneki e que fornece o contexto necessário para perceber quem é a personagem no final da série, está completamente ausente do anime. Sem esse contexto, o desenlace não faz sentido, e os espectadores que nunca leram o mangá ficaram com uma conclusão que parece arbitrária.
Há ainda a questão da arte. Ishida é um dos mangaká mais expressivos da sua geração, e os capítulos de :re em particular têm uma qualidade visual e emocional que o anime nunca conseguiu captar. Os momentos de maior intensidade psicológica, que no papel são perturbadores e difíceis de esquecer, na versão animada ficam reduzidos a sequências genéricas de acção.
5The Seven Deadly Sins
As duas primeiras temporadas de The Seven Deadly Sins, produzidas pela A-1 Pictures, são uma adaptação honesta. Não perfeita, mas com energia suficiente e fidelidade razoável ao mangá de Nakaba Suzuki. O problema chegou quando a produção foi transferida para a Studio Deen na terceira temporada, que por sua vez subcontratou parte do trabalho à Marvy Jack. O resultado foi um colapso de qualidade tão abrupto que apanhou os fãs completamente desprevenidos.
O confronto entre Meliodas e Escanor era, para a comunidade, um dos momentos mais aguardados de toda a série. Tinha anos de construção narrativa a alimentá-lo, e no mangá a sua execução é à altura dessa expectativa. No anime, tornou-se num dos momentos mais mal executados de toda a temporada, animação inconsistente, decisões de enquadramento questionáveis, e um impacto emocional que ficou muito aquém do que a cena pedia.
O que o mangá faz bem até ao fim, e que o anime não conseguiu manter, é a consistência. A qualidade visual, o ritmo das batalhas, o peso dado aos momentos de maior carga dramática, tudo isso se mantém até à última página do mangá. Nas últimas temporadas do anime, é difícil reconhecer a mesma série.
4The Flowers of Evil
Este é o caso mais estranho desta lista, porque a adaptação de The Flowers of Evil não falhou por desleixo nem por falta de respeito pela obra original. O próprio Shuzo Oshimi aprovou a técnica de rotoscopia utilizada pelo diretor Hiroshi Nagahama, e há declarações do autor a elogiar a profundidade com que Nagahama compreendeu a história. A decisão foi sincera e deliberada e mesmo assim as coisas correram mal.
O problema é que os leitores do mangá rejeitaram em massa a estética resultante. A rotoscopia criou uma sensação de estranheza que funcionava em teoria, a série é sobre desconforto e alienação, por isso faz sentido, mas na prática afastou o público em vez de o envolver. O anime cobriu apenas o primeiro terço do mangá e terminou a meio de um arco, sem nunca chegar ao acto final da história, que é onde Oshimi realmente vai fundo nas temáticas que tornaram a série famosa.
A versão de Saeki no anime perde a especificidade que a torna tão perturbadora no papel. E a pressão dos leitores foi suficiente para acabar com a produção depois de uma única temporada, deixando a adaptação como um objecto curioso e incompleto, muito aquém do mangá que a inspirou.
3One Piece
É difícil criticar One Piece de forma simples, porque o anime fez coisas que o mangá não consegue fazer, o combate de Luffy contra Lucci em Enies Lobby ou a guerra de Marineford têm uma dimensão diferente em movimento, com música e vozes. Há momentos em que a adaptação eleva o material original, e é justo reconhecê-lo.
Mas o problema crónico do anime de Toei é estrutural e não mostra sinais de resolução. Um capítulo do mangá de Eiichiro Oda demora cerca de quinze minutos a ler e contém o equivalente narrativo de dois ou três episódios de anime. O arco de Dressrosa tem cem capítulos no mangá, o anime esticou-o por cento e dezoito episódios, o que corresponde a quarenta horas de tempo de ecrã. O ritmo é deliberadamente lento, os recaps são constantes, e os arcos de filler acumulam-se ao longo de décadas.
O que o mangá consegue e o anime não replica é a arquitectura visual de Oda, as expressões faciais nos momentos de maior tensão emocional, a forma como os poderes das Akuma no Mi são desenhados em acção, a densidade de informação que cabe numa única página bem composta. Tudo isso fica diluído quando a história precisa de respirar durante semanas para cobrir o que Oda resolveu numa tarde.
2Akame ga Kill!
Akame ga Kill! é um caso único nesta lista porque a diferença entre o anime e o mangá não foi um acidente, foi intencional. O autor Takahiro decidiu dar ao anime um final diferente quando percebeu que a adaptação iria ultrapassar cronologicamente a publicação do mangá. O resultado são duas histórias que divergem a partir de certo ponto e chegam a conclusões completamente distintas.
No manga, Tatsumi sobrevive, transforma-se de forma permanente em dragão e acaba por regressar à sua aldeia. Mine entra em coma durante o clímax e acorda no final, reunindo-se com Tatsumi. Kurome sobrevive e tem um arco de redenção ao lado de Wave que acrescenta profundidade ao encerramento da série. No anime, Tatsumi morre no episódio 23, Mine morre no episódio 21, e Kurome é eliminada de forma abrupta. O anime sacrificou desenvolvimento de personagem e arcos emocionalmente consistentes em troca de momentos de choque imediato.
O mangá termina com uma nota de esperança genuína, os sobreviventes têm finais que parecem merecidos, e a série honra o investimento emocional do leitor. O anime termina de forma muito mais sombria e com muito menos coerência interna.
1Deadman Wonderland
Em 2011, o estúdio Manglobe produziu treze episódios de Deadman Wonderland, o suficiente para cobrir os primeiros cinco volumes de um mangá que se estende por cinquenta e oito capítulos em treze volumes. Na prática, o anime adaptou a introdução de uma história muito mais longa e depois encerrou de forma abrupta, sem resolução e sem qualquer indicação de continuação.
O que ficou de fora é o coração da série. O backstory de Shiro/Wretched Egg, que é a razão pela qual toda a história existe e que recontextualiza tudo o que aconteceu antes,— está completamente ausente. O arco da Rebelião da Scar Chain, que desenvolve a maior parte dos personagens secundários e dá à história o seu peso político e emocional, também não chegou ao ecrã. E a resolução da relação entre Ganta e Shiro, que é literalmente o núcleo de todo o mangá, ficou por contar.
Azami, uma personagem que não aparece no anime, torna-se uma figura central nos arcos posteriores. Quem só viu o anime nem sabe que existe. O resultado é uma série que funciona como um trailer de alta qualidade para um universo que nunca foi verdadeiramente mostrado, e que provavelmente nunca o será.









