
Há conversas que começam como debates e acabam como algo muito mais pesado. Foi o que aconteceu esta semana com Kei Urana, a autora por trás do mangá Gachiakuta, uma obra serializada na Weekly Shōnen Magazine da Kodansha desde 2022, com uma adaptação para série anime produzida pelo estúdio Bones que estreou em 2025.
Na segunda-feira, 20 de abril, Urana publicou uma série de mensagens no X em inglês, dirigidas diretamente à sua audiência internacional. O ponto de partida foi a pirataria, um tema em que a mangaká já tinha posições conhecidas, mas o comunicado acabou por ir muito além disso.
O que distingue a declaração de Urana de um simples desabafo é o cuidado que a antecedeu. A autora revelou ter passado os dias anteriores a investigar as condições económicas e de acesso ao mangá em vários países, antes de se pronunciar publicamente.
Nas suas palavras: “Passei os últimos dias a investigar as circunstâncias em diferentes países, incluindo situações financeiras. Percebo que para muitas pessoas, os sites piratas são a única forma de ler mangá. Percebo também que os preços podem ser mais elevados no estrangeiro”.
Esta abertura não é apenas retórica. Urana reconhece abertamente que o acesso legal ao mangá é genuinamente difícil para muitos leitores fora do Japão, seja por questões de preço, de disponibilidade ou de ambas. Mas esse reconhecimento não anula a sua posição: “Se não falarmos agora, o valor do mangá japonês e das obras criativas, construído através dos sacrifícios e esforços incansáveis de quem veio antes de nós, será desperdiçado”.
I’ve spent the past few days researching the circumstances in different countries, including financial situations.
I understand that for many people, pirate sites are the only way they can read manga.
I also understand that prices can be higher overseas.
I’ve even seen people…— 裏那圭◾️KEI URANA (@KEI_URANA) April 20, 2026
O problema com o “grátis”
Um dos argumentos mais usados para justificar a pirataria é o de que ler ilegalmente não prejudica as vendas, e que, pelo contrário, funciona como “promoção gratuita”. Urana rejeitou essa lógica sem rodeios.
“Também vi pessoas dizer ‘ler de graça não prejudica as vendas’. Isso não é verdade. O ‘grátis’ desvaloriza as coisas. Quando as pessoas se habituam a obter algo de graça, deixam de procurar as versões legítimas”.
Os números do setor dão peso a esta preocupação. De acordo com dados divulgados em janeiro de 2026 pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, o país terá perdido cerca de 38 mil milhões de dólares em receitas devido à pirataria de anime e mangá, um valor que inclui países como Vietnam, França, Brasil, Estados Unidos e China.
Ainda assim, Urana não se fica pela crítica. Confirmou que, em conjunto com o artista de graffiti Ando Hideyoshi, que colabora nas ilustrações de Gachiakuta, e com as editoras, estão a desenvolver alternativas para que leitores sem acesso ou sem meios possam chegar ao mangá de forma legal. Sem revelar detalhes, pediu paciência: “Estamos a trabalhar nisso. As editoras também estão a fazer esforços”.
Insultos e uma resposta de Hiroshima
O que se seguiu à primeira mensagem de Urana foi o lado menos nobre da internet. A mangaká revelou ter recebido acusações de racismo, dirigidas tanto a ela como a Ando Hideyoshi, e insultos ao Japão, alguns com referências diretas e explícitas aos bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki.
A resposta de Urana foi, por isso, muito pessoal. A autora é natural da prefeitura de Hiroshima, e foi a partir daí que escolheu falar.
Explicou que os sobreviventes e os adultos que a rodearam na infância nunca lhe ensinaram a odiar nem a guardar rancor, pelo contrário, transmitiram-lhe um princípio que resume em “não repetir”. Uma mensagem que, vinda de alguém crescida naquela cidade, tem um peso específico que vai além do debate sobre pirataria.
Com o mesmo espírito com que procurou entender as circunstâncias económicas dos leitores internacionais, Urana pediu reciprocidade, que esses mesmos leitores façam um esforço por compreender a perspetiva e a cultura dos criadores japoneses.
A postura de Urana não surgiu do nada. A autora tem um historial de confrontos com parte da sua audiência ocidental, nomeadamente em questões como a identidade de género de personagens e o que considera violações às condições legais de uso da sua obra. Semanas antes deste comunicado, já tinha respondido a um fã que lhe perguntou se era aceitável ler Gachiakuta pirateado no Discord com uma resposta direta: “Isso é ilegal!”.









