
A indústria mangá tem uma face muito menos glamorosa do que aquela que chega aos olhos dos leitores. Por detrás das publicações, há criadores a trabalhar em condições precárias, muitas vezes sem rendimentos suficientes para cobrir as despesas básicas. Foi precisamente isso que Shiten Akiyama, autor do mangá Horizon, revelou no passado dia 18 de abril, numa publicação no X que rapidamente correu o mundo.
Akiyama admitiu que as vendas da sua série estavam tão fracas que mal conseguia pagar um café barato. Sem rodeios e com uma honestidade que poucos ousariam ter, abriu uma página de doações com a esperança de receber algum apoio para continuar a desenhar. O que aconteceu a seguir surpreendeu até o próprio autor.
Quando a comunidade responde
A publicação começou a circular por fóruns e redes sociais dedicados a anime e mangá, especialmente fora do Japão. Leitores de vários países começaram a contribuir, e os valores acumularam-se a uma velocidade que Akiyama claramente não esperava. Pouco depois, o autor anunciou ter recebido mais de 900 mil ienes, cerca de 5 mil dólares, superando em 130% a meta inicial que tinha estabelecido para si próprio.
Mas o número que mais chamou a atenção foi outro, o total arrecadado pelos fãs internacionais ultrapassou aquilo que o autor ganhou com a publicação oficial do primeiro volume de Horizon. Um dado que diz muito sobre como funciona, ou deixa de funcionar, o sistema de compensação para criadores dentro da indústria editorial japonesa.
Numa publicação partilhada no X, Akiyama escreveu:
“Recebemos mais de 900 mil ienes de apoio de fãs estrangeiros. Vejam isto. Independentemente de quanto as pessoas discutam ou se dividam, toda a gente continua a amar o mangá. Esse sentimento é igual em todo o lado. E foi provado não pelas corporações, mas pelos fãs individualmente, através do seu próprio amor e respeito”.
E depois, com um humor que revelou o alívio genuíno que sentia, acrescentou: “Agora então… que tipo de café é que devo ir comprar?”.
We’ve received over ¥900,000 in support from overseas fans.
Look at this.
No matter how much people argue or divide,everyone still loves manga.
That feeling is the same everywhere.And it was proven not by corporations,but by individual fans—through their own love and respect.… pic.twitter.com/F9VQpWrGu5
— 秋山視点|Shiten Akiyama (@shiten_room) April 19, 2026
Um gesto anterior que não foi esquecido
Esta não foi a primeira vez que Akiyama tentou aproximar-se dos leitores internacionais. Em fevereiro de 2026, o autor tinha traduzido e publicado ele próprio os capítulos de Horizon no MangaDex de forma gratuita, querendo que a obra chegasse a quem nunca teria acesso a ela de outra forma. A iniciativa foi recebida com entusiasmo, mas acabou por gerar problemas com a sua editora. Akiyama foi obrigado a apagar o conteúdo, e deixou uma mensagem que muitos não esqueceram:
“Fui forçado a apagar o conteúdo relacionado com ‘esse assunto’. Peço sinceras desculpas a todos os que me apoiaram. Desenho mangá para uma editora japonesa. O meu trabalho pertence-me. No entanto, não posso tratar livremente das minhas próprias criações”.
Foram precisamente esses fãs estrangeiros, que tinham ficado sem acesso à obra por decisão da editora, que desta vez responderam em força. O gesto de generosidade de Akiyama não tinha sido esquecido, e a comunidade encontrou outra forma de retribuir.
O que vem a seguir
Com a pressão financeira imediata aliviada, Akiyama prometeu canalizar toda a energia para melhorar a qualidade de Horizon. Nas suas próprias palavras: “Sinto sinceramente que a minha carteira pode explodir. Tudo o que posso fazer é criar um mangá melhor, mas farei tudo o que estiver ao meu alcance para que isso aconteça. Espero poder dar algo de volta a todos vós”.
Horizon está atualmente disponível para compra na Amazon Japão, com o autor a planear o lançamento de uma tradução oficial para inglês no futuro.
Na descrição de Horizon podemos ler:
Mieko, uma mulher de quase trinta anos exausta pela rotina agitada do dia-a-dia, vê estudantes a aproveitar a juventude e, de repente, recorda os seus próprios tempos de juventude. Impulsionada pelo álcool, veste o uniforme de marinheira e sai para um parque a meio da noite. Lá, ela encontra um jovem incrivelmente perfeito e deslumbrante.









