
Durante décadas, o mercado de doujinshi, obras criadas por fãs, muitas vezes de carácter erótico, inspiradas em personagens de jogos e anime, funcionou no Japão numa espécie de zona cinzenta tolerada pelas grandes editoras. A Square Enix foi, historicamente, uma das empresas mais permissivas nesse ecossistema. Essa tolerância parece estar a chegar ao fim.
Nos últimos dias de abril de 2026, relatos vindos do Japão dão conta de uma remoção em massa de doujinshi digitais com personagens da franquia Final Fantasy nas plataformas FANZA e pictSPACE, dois dos maiores mercados de conteúdo adulto para criadores independentes no país. A FANZA, operada pela DMM, é uma das plataformas de referência para a distribuição de doujinshi digitais no mercado japonês.
Um criador, 19 obras removidas
Um dos criadores afetados confirmou publicamente que teve nada menos do que 19 obras retiradas da plataforma sem qualquer aviso prévio, todas elas alvo de reivindicações de direitos de autor por parte da Square Enix.
O que surpreendeu parte da comunidade foi o alvo escolhido. Tifa Lockhart, personagem icónica de Final Fantasy VII, tem sido historicamente uma das figuras mais recorrentes no universo de doujinshi de fãs e a sua presença nestas plataformas raramente tinha sido contestada de forma tão direta.
Embora a Square Enix não tenha emitido qualquer comunicado oficial a explicar a razão ou o âmbito desta operação, observadores da indústria apontam um fator que pode ter acelerado a decisão, a proliferação de obras geradas ou fortemente assistidas por inteligência artificial.
Nos últimos meses, a FANZA já tinha sido obrigada a apertar as suas próprias regras internas relativas a conteúdo criado com IA, limitando os envios a três obras por mês por criador. A velocidade e o volume das remoções agora em curso sugerem, segundo os mesmos observadores, um esforço direcionado especificamente para travar a monetização em larga escala facilitada por ferramentas generativas, um modelo que, na prática, permite produzir e vender dezenas de obras com o mínimo esforço e sem qualquer ligação criativa genuína às personagens.
A Square Enix está, paralelamente, a intensificar a aplicação dos seus direitos de propriedade intelectual noutras frentes. Em março e abril de 2026, a empresa levou a cabo ações legais bem-sucedidas contra criadores de conteúdo japoneses por danos à reputação de funcionários de Final Fantasy XIV.
Square Enix processa criador de vídeos por assédio a funcionários de Final Fantasy XIV
A linha que foi cruzada
O acordo não escrito que durante décadas regulou a relação entre empresas japonesas de entretenimento e o mercado de doujinshi assenta num princípio simples, as obras de fãs sem fins comerciais são toleradas porque funcionam como publicidade orgânica e mantêm as comunidades ativas. O problema começa quando esse conteúdo passa a gerar lucro direto à custa de propriedade intelectual alheia.
A política oficial de utilização de materiais da Square Enix, disponível no site da empresa, é clara: “Não utilize materiais da Square Enix para ganhar dinheiro ou obter qualquer outro benefício financeiro”. O uso comercial nunca foi permitido, simplesmente não era sistematicamente aplicado.
A questão que se coloca agora é se esta mudança de postura é cirúrgica, focada no conteúdo monetizado e gerado por IA, ou se representa o início de uma política muito mais abrangente.
A comunidade dividida
A reação dentro da comunidade otaku foi, no mínimo, heterogénea. Uma parte dos utilizadores lamentou as remoções, questionando também se personagens de outras franquicias da editora, como Wakka de Final Fantasy X, poderão ser as próximas a desaparecer destas plataformas. Outra parte, porém, defendeu abertamente a posição da empresa, argumentando que lucrar sistematicamente com propriedade intelectual alheia era uma linha que tarde ou cedo teria consequências e que o doujinshi gerado por IA em particular distorce profundamente a lógica criativa que sempre legitimou este tipo de trabalho aos olhos da indústria.
As plataformas gratuitas, como o Pixiv, mantêm por enquanto uma enorme quantidade de fan art não monetizado. Não há indicações de que esse território esteja a ser tocado. A distinção entre criar por amor à obra e criar para faturar parece ser, pelo menos por agora, a linha que a Square Enix decidiu defender.









