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Golden Week 2026: o que é, datas e o motivo que para o Japão nesta semana

Porque é que 24 milhões de japoneses fazem as malas todos ao mesmo tempo em maio

Morte no Verão e Outras Histórias de Yukio Mishima capa Portugal Japão (2)

Há um momento todos os anos em que o Japão, conhecido mundialmente pela sua disciplina laboral e pelos seus horários rígidos, decide coletivamente fazer as malas. Esse momento chama-se Golden Week, ou ゴールデンウィーク em japonês, e acontece sempre entre o final de abril e os primeiros dias de maio. Em 2026, o período decorre entre 29 de abril e 6 de maio, com um bloco de cinco feriados consecutivos entre 2 e 6 de maio que permite a muitos trabalhadores encaixar uma pausa longa sem recorrer a muitos dias de férias.

Um nome que nasceu num cinema

Surpreendentemente, a expressão “Golden Week” não tem origem oficial nem governamental. Nasceu em 1951 dentro da indústria cinematográfica. Nesse ano, o filme Jiyū Gakkō registou nas salas de cinema as maiores receitas de sempre naquele período, superando até o Ano Novo e o Obon, as outras duas épocas de maior afluência do calendário japonês. Impressionado com os resultados, Hideo Matsuyama, diretor-geral da Daiei Film Co., batizou o período com o nome “Golden Week“, inspirando-se na expressão radiofónica “golden time”, o equivalente ao horário nobre, a janela com as maiores audiências. O termo colou-se rapidamente ao vocabulário popular e acabou por ser adotado por todos os setores da economia. Hoje em dia, é tão omnipresente que a maior parte dos japoneses refere-se a ele simplesmente como “GW”.

Quatro feriados, quatro histórias

A semana é composta por quatro feriados nacionais, cada um com o seu peso histórico próprio.

O pontapé de saída é dado a 29 de abril com o Showa no hi (Dia da Showa), que assinala o aniversário do imperador Hirohito, que governou o Japão de 1926 até à sua morte em 1989, um período que atravessou a Segunda Guerra Mundial e a reconstrução do país no pós-guerra. Durante anos, esta data foi chamada “Dia da Verdura” em homenagem ao amor do imperador pela natureza, antes de recuperar, em 2007, a sua ligação direta à era Showa.

A 3 de maio celebra-se o Kenpōkinenbi (Dia da Constituição), que assinala a entrada em vigor da constituição japonesa do pós-guerra, em 1947. É o único dia do ano em que o edifício da Dieta Nacional, o parlamento japonês, abre as suas portas ao público.

A 4 de maio é o Midori no hi (Dia do Verde), dedicado à natureza e ao ambiente, uma herança do apreço do imperador Showa pelas plantas e pela vida selvagem.

Por fim, a 5 de maio encerra a semana com o Kodomo no hi (Dia das Crianças), também conhecido como Tango no Sekku (Dia dos Meninos), uma festividade que celebra a saúde e o crescimento dos mais novos. É habitual ver famílias a içar koinobori, as famosas bandeiras em forma de carpa, à entrada das casas, um símbolo de força e determinação.

Quando algum destes feriados cai num domingo, a legislação japonesa prevê que o dia seguinte (segunda-feira) se torne automaticamente feriado compensatório. Em 2026, é precisamente isso que acontece com o Dia da Constituição, estendendo o bloco de descanso até 6 de maio.

The Diary of Ochibi-san anime japão screenshot

Quase 24 milhões de pessoas em movimento

Os números da edição deste ano dão a dimensão do fenómeno. Segundo um inquérito realizado pela agência de viagens JTB Corporation junto de dez mil pessoas, os viajantes domésticos deverão atingir os 23,9 milhões, um aumento de 1,7% face ao ano anterior e um valor que quase iguala os 24 milhões registados em 2019, antes da pandemia.

Mas há uma nuance importante, mais pessoas a viajar não significa necessariamente mais dinheiro a circular. Pelo contrário, é a primeira vez em seis anos que a despesa média por viajante doméstico deverá cair, neste caso 2,1%, para cerca de 46.000 ienes por pessoa. As viagens de uma noite e dois dias são o itinerário mais popular desta edição, com muitos japoneses a optar pelo carro próprio em detrimento do Shinkansen para poupar nas deslocações.

As pressões económicas são o pano de fundo desta contenção. A inflação, a fraqueza continuada do iene e as tensões no Médio Oriente, que fizeram disparar os preços dos combustíveis estão a moldar as escolhas de viagem dos japoneses, que procuram experiências mais próximas de casa e itinerários mais compactos.

Paradoxalmente, quem decide viajar para o estrangeiro está a gastar mais do que nunca. O número de japoneses com destino ao exterior deverá crescer 8,5%, para 572.000 pessoas, com uma despesa média projetada de 329.000 ienes por viajante, o valor mais alto desde 1996. A Coreia do Sul, Taiwan e a China lideram os destinos preferidos, concentrando cerca de 60% de todas as viagens internacionais.

Comboios cheios, aeroportos a rebentar

No terreno, o cenário que se vive nestes dias é de uma intensidade difícil de imaginar para quem nunca o experienciou. Na Estação de Tóquio o ambiente no sábado de arranque foi “inegavelmente festivo, mas visivelmente agitado”, com funcionários a gerir filas e painéis de partida a piscar com destinos que cobriam o país de ponta a ponta. Em Osaka, a Estação de Shin-Osaka viu pessoal adicional a ser destacado para controlar o fluxo de passageiros junto às barreiras.

Não faltaram também perturbações. A JR East confirmou que as operações na linha Yamagata Shinkansen foram afetadas por ventos fortes e pela queda de uma árvore nos carris, um incidente que, numa semana de pico, pode traduzir-se em atrasos em cascata que afetam milhares de passageiros.

Kore Kaite Shine anime pv 1 screenshot japão Tóquio Tokyo

Para além de Tóquio e Quioto

Uma das tendências mais notáveis desta edição é a dispersão geográfica dos viajantes. Dados recentes da Agência de Turismo do Japão, apontam para uma procura crescente por destinos fora da chamada “Rota Dourada”, o circuito clássico que liga Tóquio, Quioto e Osaka. Regiões como Shikoku, Tohoku e Hokkaido estão a atrair cada vez mais visitantes à procura de experiências mais autênticas e menos sobrelotadas.

Esta deslocação em direção ao interior e às zonas rurais alinha-se com a estratégia de longo prazo do governo japonês, que tem investido em infraestruturas de transporte e alojamento fora dos grandes centros para distribuir melhor o impacto do turismo de massa.

Do ponto de vista cultural, a Golden Week não é apenas férias. É também o momento em que florescimentos tardios de cerejeiras ainda podem ser apanhados no norte do país, nas prefeituras de Aomori e Hokkaido, em que festivais como o Hakata Dontaku em Fukuoka (3 e 4 de maio) animam as ruas com desfiles e trajes tradicionais, e em que a temperatura amena e o céu limpo de maio tornam o país particularmente apelativo para quem gosta de estar ao ar livre.

A semana que o Japão inventou para descansar e que nunca mais parou

Há qualquer coisa de singular nesta semana. O Japão é um dos países com mais feriados nacionais do mundo, 16 por ano, mas a sua concentração neste período específico cria um efeito amplificado que não tem paralelo no calendário. Quando a lei de 1948 consolidou os feriados do pós-guerra, ninguém imaginava que a expressão cunhada por um executivo de cinema três anos mais tarde iria atravessar décadas e tornar-se parte da identidade nacional. Hoje, a Golden Week é tanto um estado de espírito como uma data no calendário, o momento em que o Japão, coletivamente, decide que chegou a hora de parar.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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