Houve uma altura em que Pragmata parecia condenado ao esquecimento. Anunciado em 2020 com um trailer intrigante, o projeto entrou depois num longo período de adiamentos que levou muitos jogadores a assumir que esta obra nunca viria a ver a luz do dia. Numa indústria onde cancelamentos, reinícios de produção e jogos que desaparecem sem explicação se tornaram cada vez mais frequentes, seria fácil acreditar que este seria apenas mais um desses casos a juntar à lista.

Mas a Capcom tinha outros planos. Em 2025, a editora japonesa voltou a mostrar o jogo ao mundo, revelando que este continuava vivo e em desenvolvimento. Foi um momento importante não só para recuperar a confiança, mas também para lembrar que nem todos os atrasos significam o fim da linha.

O director Cho Yonghee trabalhou como artista em NieR: Automata e em Metal Gear Rising: Revengeance antes de liderar Pragmata.

Agora, com o lançamento finalmente concretizado, Pragmata surge como mais do que meramente um novo título no catálogo da companhia. É também a confirmação de que a empresa japonesa atravessa uma fase invejável, marcada por consistência, ambição e uma rara vontade de arriscar num mercado dominado por fórmulas seguras. Ao apostar numa nova propriedade intelectual desta escala, a produtora reforça a sensação de que se está a afirmar, cada vez mais, como uma das grandes referências da indústria dos videojogos.

A Diana para recompensar os esforços de Hugh surpreende-o com desenhos bastante fofos.

Pragmata inicia com a chegada de uma equipa de investigação ao berço da instalação lunar, enviada para descobrir por que razão os cientistas presentes no local e a própria inteligência artificial IDUS deixaram subitamente de responder às comunicações provenientes da Terra. No entanto, pouco depois da aterragem, torna-se claro que algo correu mal. A situação agrava-se quando um violento sismo atinge a base, provocando a morte de três membros da equipa e deixando Hugh, o protagonista, como o único sobrevivente, ainda que inconsciente.

Para sua sorte, Hugh é encontrado por uma pequena e energética androide da classe Pragmata, a quem decide dar o nome de Diana. Perante um cenário dominado pelo caos, ambos decidem unir forças para tentar restabelecer contacto com a Terra, enquanto enfrentam a hostilidade dos robôs da instalação e a revolta da inteligência artificial IDUS.

Foi interessante acompanhar o crescimento da relação entre Hugh e Diana durante toda a aventura. Apesar de ser uma androide, Diana comporta-se como uma criança humana: inocente, curiosa e sempre ansiosa por descobrir mais sobre o desconhecido, neste caso, sobre o seu companheiro e sobre o planeta Terra. Hugh, também foi bem desenvolvido, revelando gradualmente o seu passado antes desta missão e mostrando um lado protetor que surge naturalmente na relação com a pequena.

Mas é sobretudo nos momentos passados no refúgio que a relação entre os dois ganha maior força. As conversas entre Hugh e Diana ajudam a aprofundar a ligação emocional entre ambos, alternando entre momentos mais sérios e pequenas trocas de humor que tornam a passagem pela Lua mais envolvente. Além disso, ficamos a saber mais pormenores sobre a base lunar e os trabalhadores que lá habitavam através de documentos, emails e hologramas que vamos encontrando pelo caminho.

Em momento algum senti que o enredo poderia estar melhor. Tudo foi bem pensado, estruturado e construído com paixão para nos manter focados e envolvidos até aos créditos finais. Em partes, o ataque por parte da inteligência artificial faz-nos parecer que estamos a rever uma ideologia remasterizada de filmes como Terminator ou até I, Robot, mas na Lua.

Temos inimigos com sistemas de defesa mais complexos de hackear.

As qualidades de Pragmata refletem-se ainda na sua jogabilidade. A Capcom colocou nas nossas mãos um shooter na terceira pessoa que combina sobrevivência com elementos de quebra-cabeças, tudo a funcionar com uma sinergia rara de se ver.

Essa identidade sente-se logo no combate. Antes de podermos causar dano aos inimigos, temos de usar as competências de Diana para aceder ao sistema e fazer hacking às defesas inimigas num género de minijogo. Quando apontamos a arma de Hugh, surge um painel em grelha onde controlamos um cursor até alcançar o núcleo principal do sistema inimigo. Tudo isto acontece em tempo real, com os robôs ainda em movimento e constantemente a atacar, fazendo de cada confronto uma atividade contínua de pressão e raciocínio rápido.

Com a moeda Cabin podemos ter acesso a novos fatos, informações sobre os inimigos, novos nodos e módulos e etc.

No início, fica evidente que estamos diante de uma fase de aprendizagem, com os primeiros robôs a serem relativamente previsíveis, o que nos dá espaço para assimilar este sistema. Com o tempo, a dificuldade vai crescendo, surgindo adversários mais velozes, unidades que disparam lasers e mísseis teleguiados e outros com escudos que impedem que ataquemos as suas fraquezas.

É exatamente este sistema que dá uma singularidade tão particular ao combate. Em Pragmata não se trata de eliminar grupos de inimigos em instantes; cada confronto requer reflexos apurados e a tomada de decisões instintivas. Obviamente que a pontaria se mantém relevante, sobretudo para explorar pontos fracos, mas a componente estratégica é muito superior ao que é habitual neste tipo de jogo.

Não falta variedade de armas: disparos de energia carregados, uma espécie de metralhadora, lança-mísseis, entre outras opções.

Com o avançar da campanha, vamos expandindo o arsenal de Hugh. Para além das armas de ataque especializadas em danos elevados, surgem também alternativas táticas e de defesa bem versáteis. Desde hologramas que distraem os inimigos a projéteis que os arremessam para trás e bombas que se fixam ao corpo e reduzem o tempo de hacking, existem sempre maneiras engenhosas de conseguir um pouco de mais de tempo para ajustar a abordagem e encontrar uma forma eficaz de os eliminar.

O sistema de hacking da Diana evolui de forma semelhante. Os painéis aumentam em dimensão e complexidade, passando a incluir nodos amarelos e módulos que agregam bónus opcionais, como o aumento de dano, a redução da defesa, a aceleração do sobreaquecimento ou mesmo a capacidade de virar os inimigos uns contra os outros. Não basta completar o hack rapidamente; é preciso analisar as opções disponíveis para maximizar os seus efeitos. É uma mecânica fresca, bem implementada e que dá ritmo e personalidade à ação.

Tudo isto é complementado por um sistema de progressão que se gere a partir do hub do jogo: o refúgio. Os recursos que recolhemos ao derrotar inimigos e na exploração servem para melhorar a defesa e a saúde de Hugh, reforçar o dano das armas, aumentar a duração dos propulsores, bem como as capacidades de hacking de Diana, que ajudam a moldar a forma como jogamos. O hub oferece ainda áreas de treino virtuais que depois de finalizadas fornecem boas recompensas, pequenas interações com Diana e a possibilidade de decorar espaços com objetos alusivos ao planeta Terra, entre outras atividades que prolongam o nosso tempo na base lunar.

Um fragmento da cidade de Nova Iorque.

Na exploração, Pragmata pode ter uma estrutura de níveis relativamente linear, mas está longe de se sentir restritivo. Pelo caminho surgem zonas mais amplas, como laboratórios, uma réplica da cidade de Nova Iorque e de outros biomas com diversos recursos por descobrir. Há também paredes holográficas, secções de plataformas e quebra-cabeças ambientais que acrescentam mais substância à exploração. Em várias situações, será preciso procurar novos caminhos, ativar mecanismos ou regressar a áreas anteriores com novas ferramentas de hacking capazes de abrir zonas até então inacessíveis.

A presença de escotilhas de fuga entre áreas reforça ainda mais esta abordagem, incentivando-nos tanto a regressar ao abrigo para recuperar e evoluir, como a revisitar locais já percorridos para resgatar o que ficou para trás. O mapa do jogo é um elemento precioso neste processo, revelando o que falta descobrir e as zonas que permanecem bloqueadas até ao desbloqueio de certas habilidades.

O que se pode dizer é que a sua estrutura resulta muito bem, tornando a experiência genuinamente divertida em todas as suas vertentes, da exploração ao combate. Destacam-se ainda as batalhas contra os bosses, que são alguns dos momentos mais desafiantes do jogo. Alguns destes inimigos são colossais, ao mesmo tempo que testam tudo aquilo que fomos dominando até então. É uma aventura que está constantemente a lançar novas ideias e perigos, evitando a monotonia e impedindo que nos acomodemos à rotina dos confrontos.

Há bosses que metem respeito.

Visualmente, Pragmata brilha pela forma como coloca o seu tom futurista em cada espaço. Os cenários são variados e bem diferente entre si, mas o mais notável é mesmo o detalhe com que tudo foi construído. Há uma atenção enorme ao ambiente, às texturas e à forma como cada espaço conta parte da história sem precisar de palavras. Seja nos corredores tecnológicos da base lunar ou em zonas que replicam ambientes da Terra, o jogo consegue manter sempre uma atmosfera convincente e apelativa.

Os protagonistas e os inimigos merecem o mesmo destaque, com modelos muito bem trabalhados e animações expressivas. Fica claro que a Capcom continua a tirar excelente partido do RE Engine, que volta a demonstrar a sua enorme versatilidade. Há momentos que nos deixam admirados, especialmente quando visitamos uma versão de Nova Iorque parcialmente destruída e marcada por falhas de programação, criando um cenário decadente mas que preserva, ainda assim, o charme tão característico da cidade.

Pragmata ganhou ainda mais simbolismo ao surgir no mesmo período em que a missão Artemis II, concluída com sucesso em abril de 2026, marcou o primeiro voo tripulado à volta da Lua em mais de 50 anos.

Tendo jogado na PlayStation 5, posso dizer que a experiência técnica esteve à altura das expectativas. Tal como aconteceu em Resident Evil Requiem, aqui também não notei problemas relevantes de desempenho. O jogo correu de forma estável ao longo de toda a campanha, sem quebras ou instabilidades, mesmo durante as várias tarefas que decorrem em simultâneo no combate.

O voice acting em inglês adiciona ainda mais impacto emocional à narrativa. O elenco faz um trabalho muito competente ao transmitir a personalidade de cada personagem, em especial Hugh e Diana, cuja relação beneficia bastante da credibilidade das interpretações. Já a banda sonora opta por uma abordagem mais contida. Esta apenas se faz sentir nos momentos mais intensos do jogo; no tempo restante, é quase inexistente, de modo a reforçar a tensão, a solidão da base lunar e os pequenos detalhes ambientais.

O jogo não vive apenas de inimigos mecânicos.

Pragmata é mais uma excelente surpresa da Capcom e deixa claro que a produtora japonesa continua numa fase de grande confiança criativa. Com uma narrativa envolvente, uma dupla carismática, uma jogabilidade cativante e uma componente técnica sólida, o jogo consegue sobressair-se com naturalidade.

É uma experiência memorável que recomendo a todos os fãs de ficção cientifica. Um jogo que arrisca e que reforça a posição da Capcom como uma das produtoras mais promissoras da atualidade.

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