Chainsaw Man, criado por Tatsuki Fujimoto, tornou-se rapidamente uma referência quando se fala em violência extrema dentro do mangá e do anime. Ainda assim, ir mais longe do que Chainsaw Man não é impossível, e a prova disso está em várias produções com já algumas décadas.
5Berserk
Boa parte da força de Berserk vem diretamente do trabalho minucioso de Kentaro Miura no mangá original, um nível de detalhe que nem todas as adaptações anime conseguiram captar da mesma forma. A versão de 1997, com 25 episódios, é geralmente apontada como a que melhor conseguiu transmitir o peso e a crueldade do universo criado por Miura, acompanhando Guts, um espadachim solitário movido por vingança após uma traição devastadora.
O mundo medieval de Berserk dá constantemente a sensação de estar controlado por forças demoníacas, como se o destino de Guts já estivesse traçado desde o início. Há momentos em que tudo parece apontar para que a sua jornada seja inútil e que a morte seja inevitável. Mesmo assim, Guts nunca desiste, e é precisamente nesses momentos mais baixos que acaba por ganhar um novo propósito, sobretudo depois de encontrar pessoas que realmente se importam com ele.
É também a forma como as ameaças vão escalando que torna Berserk particularmente pesado. Começa com humanos moralmente confusos, passa por demónios mais comuns e chega aos Apóstolos do God Hand, onde o poder corrompido de Griffith ganha contornos quase cósmicos. Essa escala de horror amplifica ainda mais a violência da série.
Há uma falta de esperança e de imparcialidade no universo de Berserk que Chainsaw Man, mesmo nos seus momentos mais sombrios, nunca chega a atingir da mesma forma. Em Chainsaw Man há sempre algum espaço para humor, ternura ou pequenas vitórias, enquanto em Berserk esse alívio é muito mais escasso, o que acaba por tornar o seu peso emocional ainda mais difícil de carregar.
4Gantz
O subgénero de jogos mortais tem ganhado cada vez mais espaço no mangá e no anime ao longo das últimas décadas, e Gantz, criado por Hiroya Oku, continua a ser um dos exemplos mais marcantes deste tipo de história. A premissa é simples mas perturbadora, pessoas que já morreram são forçadas a participar num jogo macabro, onde precisam de caçar e eliminar alienígenas usando armamento avançado.
Kei e Masaru, dois jovens comuns, são lançados de forma abrupta para este mundo, lutando por pontos sempre que regressam após a sua própria morte. O que torna Gantz tão eficaz é a forma como tudo está calculado ao detalhe, combinando ação extrema, ficção científica e horror psicológico de uma forma que raramente dá ao espectador qualquer sensação de segurança.
Não existe praticamente nenhuma proteção de enredo para os personagens, e essa sensação de que qualquer um pode morrer em qualquer momento é tão aterrorizadora quanto a própria violência gráfica. Esta imprevisibilidade é, em grande parte, o que faz com que cada confronto pareça genuinamente perigoso, mesmo quando se trata de personagens que o público já acompanha há vários episódios.
Os designs dos alienígenas, profundamente perturbadores, tornaram-se também um dos elementos mais lembrados da série. Pode ser difícil superar os designs dos demónios em Chainsaw Man, mas os alienígenas de Gantz conseguem transmitir uma sensação de estranheza igualmente arrepiante, dentro de um mundo bastante mais opressivo e nilista, onde praticamente tudo parece existir apenas para causar dor.
3Genocyber
Existem animes de ação que constroem momentos pontuais de grande violência, mesmo que o resto da história não seja particularmente pesado. Depois há produções como Genocyber, criadas especificamente para empurrar limites e mostrar ao público algo que nunca tinham visto antes. Neste caso, trata-se de um clássico body horror cyberpunk centrado nos piores traços da humanidade e na sua tendência autodestrutiva.
É precisamente por isso que faz sentido que um anime sobre a loucura e a destruição humana queira chocar visualmente quem o assiste. Genocyber, lançado em cinco episódios em meados dos anos 90, segue duas irmãs com poderes psíquicos transformadas em armas por uma corporação corrupta. O resultado dessa experiência é a própria Genocyber, uma criação monstruosa responsável por uma sucessão de violência praticamente sem limites.
Estas cenas brutais e os elementos de body horror andam de mãos dadas com uma sensação constante de desespero. Tudo no mundo de Genocyber parece indicar que qualquer forma de normalidade é impossível, e essa atmosfera opressiva acompanha o espectador do início ao fim, sem grandes momentos de alívio.
As transformações marcadas por body horror remetem facilmente para as transformações dos demónios em Chainsaw Man, mas o sofrimento das duas irmãs gémeas, e a forma como a sua inocência é completamente destruída ao longo da história, acaba por ser ainda mais difícil de digerir do que muitas das histórias de fundo apresentadas em Chainsaw Man.
2Devil Lady
Devilman, de Go Nagai, é um dos primeiros grandes exemplos de um shonen a explorar fantasia sombria e narrativas apocalípticas. Ao longo dos anos, surgiram várias obras, derivações e até crossovers ligados a este universo. Devil Lady, também conhecida como Devilman Lady, funciona como continuação direta da história original e é particularmente intensa para um anime do final dos anos 90, transferindo a transformação maligna para Jun Fudo, uma modelo.
A série constrói-se sobre as bases criadas por Devilman, mas em muitos aspetos consegue ir ainda mais além, em grande parte devido à complexidade de Jun e à dualidade fascinante entre a sua vida como modelo e o seu papel como uma espécie de agente sombria de justiça. A violência presente em Devil Lady é, naturalmente, intensa, sobretudo nos massacres provocados por diferentes demónios ao longo da história.
O que torna esta série especialmente pesada, no entanto, é a sua visão profundamente nilista, que apresenta os humanos como criaturas tão cruéis e paranoicas quanto qualquer demónio. Esta ideia atravessa toda a obra e ajuda a explicar porque é que, mesmo nos momentos mais calmos, existe sempre uma sensação de tensão e desconfiança.
Devilman sempre foi uma franquia sobre a natureza cíclica e inevitável da violência, algo que a humanidade parece destinada a repetir, e Devil Lady reforça essa ideia ao construir um final tão violento que faria hesitar até os caçadores de demónios de Chainsaw Man. Mesmo sendo uma versão já mais contida do que o mangá original, deixa o espectador num lugar bastante mais desconfortável do que aquele que Chainsaw Man costuma explorar.
1Doomed Megalopolis
Doomed Megalopolis é um OVA de fantasia sombria, produzido pela Madhouse, com quatro episódios lançados entre 1991 e 1992. A produção combina fantasia, trauma psicológico e ocultismo com factos reais da história japonesa, criando algo bastante mais ambicioso do que o habitual para a época, e que ainda hoje faz lembrar alguns dos confrontos mais marcantes de Chainsaw Man e de Jujutsu Kaisen.
A história centra-se num confronto espiritual que tem lugar em Tóquio no início do século XX, transformando a cidade num cenário distópico repleto de monstros, assassinos, feiticeiros e criaturas apocalípticas. Não há grande contenção quando se trata de cenas brutais e do número de vítimas que vão surgindo ao longo dos quatro episódios, com a tensão a manter-se praticamente constante.
Há também algo particularmente perturbador na forma como a série usa o ocultismo como resposta direta ao imperialismo japonês, chegando a sugerir que alguns dos maiores desastres naturais reais do país, como o grande terramoto de Tóquio de 1923, teriam origem em atividade oculta. Esta mistura entre história real e fantasia sombria dá à obra um peso bastante diferente do habitual.
Doomed Megalopolis percorre território muito semelhante ao de Chainsaw Man, mas consegue ir ainda mais longe, deixando quem assiste num lugar bastante mais sombrio do que aquele a que a maioria dos animes de hoje em dia se atreve a chegar.








