Quem já viu Death Note do início ao fim, mais do que uma vez, sabe que a fasquia ficou alta e que nem sempre é fácil encontrar algo que ofereça o mesmo nível de tensão. A boa notícia é que o anime tem, há décadas, uma tradição de contar histórias sombrias sem depender de jump scares ou de violência gratuita.
5Psycho-Pass
Psycho-Pass estreou em outubro de 2012, produzido pela Production I.G, com Naoyoshi Shiotani e Katsuyuki Motohiro na direção e Gen Urobuchi no guião. A ação decorre num Japão futurista onde o Sistema Sibyl consegue medir, em tempo real, o estado mental de qualquer cidadão e calcular a probabilidade de este vir a cometer um crime. Só este ponto de partida já é suficiente para arrepiar quem gosta de ficção especulativa, uma sociedade que prende ou elimina pessoas com base naquilo que podem vir a fazer, e não naquilo que já fizeram.
O que torna a série tão marcante não é apenas o conceito, mas a forma como ele é posto em causa ao longo dos 22 episódios da primeira temporada. É aqui que entra Shogo Makishima, um dos antagonistas mais bem escritos do género, capaz de desmontar peça por peça a lógica do sistema com uma frieza quase filosófica. Ao contrário de Light Yagami, que muitas vezes age por impulso e vaidade, Makishima constrói um discurso coerente sobre liberdade, ordem e o preço que a sociedade paga para se sentir segura.
Se Death Note conquistou o público pelo jogo de xadrez entre protagonista e antagonista, Psycho-Pass propõe algo semelhante, mas com um pano de fundo ainda mais inquietante, e se o verdadeiro vilão não for uma pessoa, mas o próprio sistema que todos aceitam sem questionar?
4Death Parade
Lançado em 2015 pela Madhouse, Death Parade parte de uma ideia simples e ao mesmo tempo perturbadora, e se, depois de morrer, não houvesse céu nem inferno, mas apenas um bar chamado Quindecim? Ali, pares de pessoas que morreram exatamente ao mesmo tempo são recebidos pelo enigmático Decim, obrigado a decidir, através de jogos aparentemente inofensivos, se essas almas merecem reencarnar ou desaparecer para sempre num vazio sem retorno.
Com apenas doze episódios, a série consegue o que muitas produções mais longas não alcançam, cada capítulo apresenta, quase sempre, um novo par de personagens e uma nova tragédia pessoal, revelada aos poucos através dos jogos que jogam. É nesse processo que saem à superfície traições, arrependimentos, ciúmes e segredos de família, muitas vezes escondidos atrás de uma vida aparentemente normal.
Há algo profundamente irónico em Death Parade, só depois de mortas é que estas personagens se mostram verdadeiramente como são. Essa mistura de julgamento moral com uma boa dose de mistério faz da série uma prima próxima de Death Note, embora vista por um prisma completamente diferente, mais intimista e menos centrado num único protagonista.
3Monster
Se há um título frequentemente apontado como o “irmão mais velho” de Death Note, esse título é Monster. Baseada no mangá de Naoki Urasawa, a série foi produzida pela Madhouse e emitida entre 2004 e 2005, ao longo de 74 episódios, um número que permite um desenvolvimento de personagens quase incomparável dentro do género.
A história acompanha o Dr. Kenzo Tenma, um neurocirurgião de enorme talento a viver na Alemanha, cuja decisão de salvar a vida de um rapaz chamado Johan, em detrimento de um paciente mais influente, acaba por custar-lhe a carreira. Anos mais tarde, Tenma percebe que esse gesto de bondade teve consequências devastadoras e passa a dedicar a vida a corrigir o erro que, sem saber, ajudou a criar.
O que distingue Monster de tantas outras histórias de perseguição é a ausência quase total de elementos sobrenaturais. O terror aqui nasce inteiramente das pessoas, da manipulação, da frieza calculista e da forma como o passado de cada personagem molda quem se tornam. Johan Liebert é, para muitos fãs, um antagonista ainda mais assustador do que Light Yagami, precisamente por parecer tão comum, tão humano na aparência e tão vazio por dentro. E ao contrário de Light, Tenma nunca deixa de agir segundo os seus princípios, mesmo quando isso o coloca em enorme risco, o que dá à série uma dimensão moral muito mais estável e, ao mesmo tempo, mais dolorosa de acompanhar.
2Paranoia Agent
Antes de se tornar mundialmente conhecido pelos seus filmes, como Perfect Blue ou Paprika, Satoshi Kon assinou também uma única série anime, Paranoia Agent. Produzida pela Madhouse, estreou-se na WOWOW em fevereiro de 2004 e ficou concluída ao fim de 13 episódios, um formato mais curto que Kon aproveitou para experimentar uma estrutura fragmentada e pouco convencional.
A série gira em torno de um alegado agressor conhecido como Lil’ Slugger, que ataca diferentes moradores de Tóquio, deixando sempre a mesma dúvida, ninguém consegue descrever com clareza o seu rosto. Em vez de seguir uma única personagem do início ao fim, cada episódio foca-se numa nova vítima ou testemunha, usando essa estrutura para ir revelando, pouco a pouco, como um simples boato consegue transformar-se num fenómeno de histeria coletiva.
É esse o verdadeiro tema de Paranoia Agent, a pressão social, o esgotamento e a forma como uma comunidade inteira pode fraturar-se psicologicamente sem que exista, de facto, qualquer ameaça sobrenatural por trás. Kon usa o mistério como isco, mas o que fica realmente na memória é o retrato implacável da sociedade japonesa moderna, algo que Death Note apenas sugere de forma mais superficial.
1Attack on Titan
Attack on Titan parte de uma premissa muito diferente das anteriores, mais próxima da fantasia e da ação em grande escala, mas nem por isso deixa de figurar entre os anime mais sombrios já produzidos. O que começa como uma história de sobrevivência contra titãs gigantes transforma-se, ao longo das temporadas, numa reflexão amarga sobre guerra, propaganda e os ciclos de violência que se repetem entre gerações.
A evolução de Eren Yeager é, provavelmente, o melhor exemplo disso. De jovem idealista disposto a lutar pela liberdade da humanidade, a personagem transforma-se lentamente numa figura disposta a tudo, mesmo que isso signifique tornar-se aquilo que sempre combateu. Essa transição é construída com um cuidado que ultrapassa, em muitos aspetos, a evolução de Light Yagami, mais imediata e menos gradual.
À medida que a trama avança, Attack on Titan afasta-se da simples ação e começa a mostrar como o ódio é fabricado e alimentado, sobretudo entre os mais jovens, através de personagens como Erwin Smith ou Gabi. É esse retrato da manipulação ideológica, e não apenas as batalhas espetaculares, que coloca a série ao lado de Death Note na lista dos anime que mais fazem pensar sobre os limites entre certo e errado.









