
Satya Nadella, CEO da Microsoft, admitiu publicamente que o YouTube gera mais receita com os jogos da Xbox do que a própria empresa que os produz. A declaração foi feita durante uma gravação do podcast Hard Fork, do The New York Times, realizada numa sessão ao vivo em São Francisco e não passou despercebida.
“O desafio que temos é que não temos monetizado esse entretenimento. Pelo contrário, temo-lo estado a subsidiar. Na verdade, há mais monetização dos jogos da Xbox a acontecer no YouTube do que na Microsoft”, afirmou Nadella, acompanhando as palavras com uma gargalhada. A frase resume bem o problema estrutural que a divisão de gaming da empresa enfrenta há anos.
As declarações surgem numa semana particularmente difícil para a Xbox. Poucos dias antes, Asha Sharma, a nova CEO da Xbox, que assumiu o cargo em fevereiro após a saída de Phil Spencer, enviou um memorando interno aos funcionários que acabou por ser publicado no Xbox Wire. O diagnóstico era duro, excluindo a aquisição da Activision Blizzard King, a divisão gastou mais de 20 mil milhões de dólares em conteúdos, plataforma e subsídios de hardware ao longo de cinco anos, enquanto a receita anual caiu quase 500 milhões de dólares no mesmo período. A margem de rentabilidade interna está agora nos 3%.
Sharma e o responsável de conteúdos Matt Booty foram diretos: “Assim não pode continuar”.
Vinte e cinco anos de investimento sem retorno
Nadella reconheceu o historial longo da divisão sem o usar como desculpa. “Este é o 25.º ano da Xbox, e estamos muito entusiasmados com o progresso que fizemos”, disse. “Os jogos, de forma curiosa, são mais antigos na Microsoft do que o próprio Windows e o Office. A primeira aplicação que construímos foi o Flight Simulator”.
Mas o tom mudou rapidamente. “O desafio agora para nós é pensar em como inovar tanto no hardware como nos jogos de uma forma economicamente viável”, acrescentou. E foi preciso: “Ninguém pode acusar a Microsoft de não ter investido nos últimos 25 anos. E agora temos de transformar isto numa empresa sustentável que entregue o que é, no fundo, uma das melhores fontes de entretenimento que existe”.
Para o CEO, a aposta futura não passa por abandonar o que a Xbox representa. “Queremos fazer o que é verdadeiramente o nosso trabalho, que é construir grandes jogos e grande hardware. Mas temos de o fazer de forma economicamente sustentável”, sublinhou.
A crise do hardware e o Project Helix
Um dos tópicos mais prementes é a escalada dos custos de componentes. Sharma revelou no memorando que os preços dos componentes de armazenamento para consolas mais do que duplicaram desde que assumiu funções em fevereiro, e que se prevê que cheguem a ser cinco vezes mais caros do que eram dois anos antes, na época festiva de 2027. A memória seguiu uma trajetória semelhante, num fenómeno que alguns já apelidaram de “RAMmageddon”, impulsionado pela procura massiva de chips para centros de dados de inteligência artificial.
Nadella considerou que a subida dos preços dos semicondutores é um problema temporário. “A escassez de semicondutores e de memória está a ter um impacto enorme na eletrónica de consumo”, disse. “Isso é algo temporário que penso que vamos ultrapassar. Não vai ser permanente”.
O que preocupa mais o CEO é a questão estrutural, qual é o modelo da Xbox daqui para a frente? A próxima consola da Microsoft, com o nome de código Project Helix, foi apresentada no GDC 2026 como uma máquina de alta gama desenvolvida em parceria com a AMD, capaz de correr tanto jogos Xbox como jogos de PC. No entanto, face à crise de componentes, Sharma admitiu estar a explorar “modelos de negócio radicalmente diferentes” para tornar a consola mais acessível, chegando a sugerir que poderão surgir ainda este ano opções que o mercado “nunca esperaria”.
Nadella enquadrou a questão de forma mais ampla, defendendo que PC, consola e mobile têm todos o seu lugar. “As pessoas jogam em todo o lado. Por isso, temos de juntar tudo isso mantendo-nos fiéis ao que sempre fizemos”.
Na mesma semana em que Nadella falou no Hard Fork, a Bloomberg noticiou que a Xbox está a preparar despedimentos significativos para julho, logo após o fecho do ano fiscal da Microsoft, a 30 de junho. A dimensão exata dos cortes não foi confirmada, mas os relatórios apontam também para reduções nos orçamentos de marketing e outras áreas operacionais. A possibilidade de encerramento de estúdios não foi descartada.







