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Xbox em crise: nova CEO admite que “isto não pode continuar” e prepara cortes

Xbox Reset: Asha Sharma e Matt Booty publicam memorando a admitir crise na divisão gaming da Microsoft

Dia da Internet Segura press xbox comando

A Microsoft passou os últimos anos a investir muito na divisão Xbox, e agora a conta chegou. Num memorando enviado aos funcionários e publicado publicamente no Xbox Wire, a nova CEO da Microsoft Gaming, Asha Sharma, e o responsável pelos estúdios Xbox, Matt Booty, fizeram aquilo que raramente se vê em comunicados corporativos: admitiram, sem rodeios, que a estratégia dos últimos anos falhou.

O documento, intitulado “Next 100 Days: Xbox Reset“, chega precisamente 100 dias após Sharma ter substituído Phil Spencer, que se reformou em fevereiro depois de 38 anos na Microsoft. Na altura, a nova CEO prometeu perceber o que tornava a Xbox especial antes de mexer em qualquer coisa. O que percebeu, ao que tudo indica, não foi animador.

Os números que ninguém queria ver

A fotografia financeira que o memorando pinta é difícil de ignorar. A divisão Xbox vai terminar o ano fiscal, que fecha a 30 de junho, com uma margem de lucro de apenas 3%, abaixo do ano anterior e muito longe dos 30% que a Microsoft procura transversalmente. Sharma e Booty explicam como se chegou aqui, excluindo a aquisição da Activision Blizzard King por 69 mil milhões de dólares, a Xbox gastou mais de 20 mil milhões de dólares em conteúdos, investimentos em plataformas e subsídios de hardware nos últimos cinco anos. O resultado? As receitas anuais caíram quase 500 milhões de dólares nesse mesmo período.

Daqui para a frente, isto não pode continuar“, escreveram Sharma e Booty no memorando.

A contradição que emerge daqui é quase irónica, a Xbox investiu massivamente em aquisições e infraestrutura de plataforma, mas ao mesmo tempo, como o memorando admite, não financiou adequadamente as suas próprias franquias de peso. É uma equação impossível, e os resultados mostram-se há anos na forma de uma sucessão de despedimentos em estúdios e cancelamentos de jogos que saíram de Redmond com regularidade perturbadora.

Um problema de hardware que vai além do preço dos componentes

O memorando também aborda a situação do hardware, e fá-lo de forma pouco tranquilizadora. Como o resto da indústria, a Xbox está a lidar com a subida de preços de RAM e armazenamento. Mas Sharma e Booty admitem que a divisão foi afetada de forma desproporcionada relativamente a concorrentes, por decisões tomadas ao longo dos últimos cinco anos na cadeia de fornecimento, sem especificarem quais.

O memorando é direto: “Estamos numa crise de componentes de hardware”. O paradoxo atual é estranho, depois de anos a ver as vendas de consolas em queda, a Xbox diz agora que não consegue produzir tantas consolas quantas os consumidores querem comprar. Seja como for, mais aumentos de preços parecem inevitáveis.

Project Helix e o modelo de negócio que ainda não existe

É neste contexto que o futuro da consola de próxima geração da Xbox, o Project Helix, se torna ainda mais incerto. O dispositivo, anunciado no início de 2026 e detalhado na GDC, é uma proposta híbrida que pretende correr tanto jogos de Xbox como de PC, com hardware AMD de última geração. Os kits de desenvolvimento para estúdios estão previstos para 2027, e um lançamento para o público antes do final desse ano parece otimista.

O que o memorando revela agora é que a Microsoft ainda não tem definido o modelo de negócio para o Project Helix, e que vai explorar “parcerias para o hardware”. A menção a parcerias externas levanta questões, a Xbox já emprestou a sua marca à Asus para a ROG Xbox Ally. Será que o Project Helix vai seguir um modelo semelhante ao das Steam Machines da Valve, com diferentes fabricantes a lançar versões próprias do hardware a vários preços?

Exclusivos de volta, Game Pass a recuperar, mas o contexto complica tudo

O memorando não é integralmente negativo. Sharma e Booty listam progressos reais, mais atualizações de plataforma nos primeiros 100 dias do que em todo o ano anterior, o Game Pass a crescer novamente após mais de oito meses de queda, e o regresso dos exclusivos com Gears of War: E-Day em 2026 e Clockwork Revolution em 2027.

A mudança de tom em relação aos exclusivos é significativa. Há dois anos, a Microsoft apostava abertamente na estratégia multi-plataforma, levando jogos first-party à PS5 e ao PC simultaneamente. Agora o memorando declara que “uma linha consistente de exclusivos de primeira e terceira parte é crítica para o nosso sucesso”, uma inversão praticamente completa do discurso anterior.

O Game Pass, que chegou a parecer a aposta mais sólida da divisão, sofreu com os aumentos massivos de preços do ano passado, perdendo milhões de subscritores. A recuperação recente é positiva, mas acontece num contexto em que o serviço parece ter crescido durante anos sobretudo por ter cobrado demasiado pouco pelo acesso aos jogos da própria Microsoft.

Despedimentos à vista depois de 30 de junho

O memorando não menciona despedimentos. Mas a Bloomberg reportou que Sharma está a planear cortes significativos em toda a divisão Xbox a partir de julho, assim que o ano fiscal fechar. Os orçamentos de marketing e de outros departamentos também vão sofrer reduções consideráveis. O número exato de pessoas afetadas não foi divulgado.

É a mesma dinâmica que se repetiu nos últimos anos na indústria, as decisões estratégicas tomadas no topo são pagas pelos trabalhadores que as implementaram. A diferença, desta vez, é que a liderança admite explicitamente que as decisões foram erradas.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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