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Anime sobre deficiência intelectual gera indignação no Japão antes mesmo de estrear

Produção de anime sobre deficiência intelectual gera pedidos de cancelamento no Japão

Mii-chan and Yamada-san vol 1 cover (1)

Um anúncio feito esta semana no Japão está a dividir opiniões dentro e fora da indústria da animação. Trata-se da adaptação a anime de Mii-chan and Yamada-san, mangá da Kodansha centrado numa jovem com deficiência intelectual que trabalha num clube em Kabukicho, o bairro de diversão noturna de Tóquio. Depois de o projeto ter sido revelado na segunda-feira, com estreia prevista para 2027, multiplicaram-se pedidos de cancelamento e críticas duras à obra, obrigando a comissão de produção a vir a público justificar a decisão de avançar.

Escrita e desenhada por Nene Azuki, a obra acompanha doze meses na vida de Mii-chan, uma nova funcionária de um clube noturno, e de Yamada, a colega mais experiente que tenta protegê-la. Devido à sua condição, Mii-chan não sabe ler e tem comportamentos que fogem às convenções sociais, o que a expõe repetidamente ao ridículo por parte de clientes e colegas de trabalho. Entre as duas personagens forma-se uma relação de proximidade quase codependente, que a história vai conduzindo para um desfecho particularmente violento.

Nene Azuki já explicou anteriormente que quis escrever um drama sobre pessoas com problemas e que escolheu o mundo da noite precisamente por ser um ambiente que se adequava a esse propósito, tendo situado a ação em 2012 por considerar que a falta de sensibilização sobre saúde mental era ainda maior nessa década. Para construir a narrativa, a autora terá pesquisado sobre delinquência juvenil e psicologia, além de ter entrevistado profissionais de organizações de apoio a mulheres ligadas à indústria do sexo.

Publicado desde 2024 na Magazine Pocket, o mangá soma já seis volumes e mais de 2,8 milhões de exemplares em circulação, tendo inclusivamente sido distinguido no ranking masculino do prémio Kono Manga ga Sugoi.

Porque está a gerar tanta polémica

A controvérsia em torno do anime não nasceu do nada. Parte significativa das críticas centra-se na forma como a deficiência é retratada na obra, com vários leitores a considerarem que a narrativa privilegia o choque e o espetáculo em vez de mostrar de forma realista e cuidada a vida de uma pessoa com deficiência intelectual.

Há ainda um fator adicional que tem alimentado o desconforto, à medida que o mangá ganhou popularidade, o nome Mii-chan passou a ser usado por alguns utilizadores nas redes sociais japonesas como forma pejorativa de descrever pessoas percecionadas como não neurotípicas. Este uso da expressão como insulto transformou Mii-chan num termo com conotação sexista e capacitista. Parte da crítica dirigida aos responsáveis pela obra prende-se precisamente com o facto de nunca terem condenado publicamente este tipo de utilização.

A isto soma-se uma coincidência de datas que tornou tudo ainda mais sensível, o anúncio do anime foi feito no mesmo dia em que se assinalava o décimo aniversário dos ataques de Sagamihara, em que um homem matou dezanove pessoas com deficiência numa instituição de cuidados, por acreditar que pessoas nessa condição não deveriam viver. Ainda que tudo indique tratar-se de uma coincidência de calendário, a proximidade entre os dois eventos foi vista por muitos como um sinal de falta de sensibilidade por parte da produção.

A polémica não ficou confinada aos leitores. A animadora e diretora de personagens Terumi Nishii, conhecida pelo trabalho em séries como Death Note, Kimi ni Todoke, Mawaru Penguindrum, JoJo’s Bizarre Adventure: Diamond is Unbreakable e Jujutsu Kaisen, manifestou-se publicamente contra a produção. Numa sequência de publicações na rede social X, Nishii comparou a obra a um antigo espetáculo de feira de aberrações e afirmou não pretender defender esse tipo de representação em nome da liberdade de expressão, tendo ainda declarado desprezo por todos os profissionais envolvidos na adaptação, incluindo colegas de indústria. Nas suas próprias palavras: “Fomentar a discriminação e o bullying não é liberdade de expressão”.

Do outro lado, há também quem defenda a obra e a decisão de a adaptar. Alguns fãs argumentam que o mangá não pode ser responsabilizado pelo uso indevido que terceiros fazem do seu conteúdo ou das suas personagens, e que exigir o cancelamento do projeto equivaleria a uma forma de censura.

A resposta da produção

Perante a dimensão que a polémica atingiu, a comissão de produção do anime emitiu um comunicado oficial:

A comissão de produção leva muito a sério as várias preocupações e opiniões manifestadas na sequência do anúncio desta adaptação a anime. Decidimos adaptar esta obra a anime porque acreditamos que existe um valor significativo em exprimir a história original através deste meio“.

No mesmo comunicado, a produção compromete-se a avançar com cuidado, incluindo a consulta de especialistas na área e a implementação de classificações etárias e avisos de conteúdo adequados, de forma a evitar promover preconceitos ou mal-entendidos.

Já a conta oficial dedicada especificamente ao mangá Mii-chan and Yamada-san publicou uma nota separada, sublinhando que a obra “não foi criada com a intenção de discriminar ou depreciar pessoas com deficiências específicas ou que se encontrem em circunstâncias particulares”.

Apesar de toda a contestação, a produção do anime mantém-se em curso, com estreia prevista para 2027.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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