Há décadas que Hollywood e outros estúdios internacionais tentam transformar animes populares em produções live-action, na expectativa de conquistar tanto os fãs de longa data como novos espectadores. O resultado, porém, raramente corresponde às expectativas.
10Ghost in the Shell
Antes mesmo de estrear, a versão live-action de Ghost in the Shell já enfrentava uma onda de críticas relacionadas com a escolha de Scarlett Johansson para interpretar Motoko Kusanagi, uma personagem originalmente japonesa. Essa polémica acabou por marcar praticamente tudo o resto que se disse sobre o filme, ofuscando qualidades que, de facto, existem.
Do ponto de vista técnico, o filme de 2017 é bastante competente. A direção de fotografia recria com cuidado a estética cyberpunk que tornou o anime original, de Mamoru Oshii, um marco da animação japonesa fora do Japão. Isoladamente, é um exercício visual interessante para quem gosta de ficção científica.
O problema surge quando se olha para as alterações feitas ao enredo apenas para acomodar essa escolha de casting. A identidade da protagonista, um dos temas centrais da obra original, é reescrita de forma a justificar a presença de uma atriz ocidental no papel, o que retira grande parte do peso filosófico que tornou Ghost in the Shell tão relevante entre os fãs de mangá e anime.
9The Next Generation Patlabor
Patlabor é, para muitos fãs de longa data, um dos exemplos mais bem conseguidos de ficção científica com robôs gigantes, precisamente porque nunca deixa a tecnologia sobrepor-se à narrativa. O OVA e a série original constroem um mundo credível, onde os chamados labors existem para explorar temas como a industrialização e o afastamento progressivo do ser humano em relação à natureza.
A tentativa de trazer esse universo para live-action, em The Next Generation Patlabor, esbarrou logo de início num problema de orçamento. Sem verba suficiente para recriar os robôs de forma convincente, a produção optou por praticamente eliminá-los da equação, o que retira à história um dos seus elementos mais reconhecíveis.
Além disso, a unidade policial retratada acaba por se assemelhar mais a uma força militar do que à equipa especializada mostrada no anime, alterando significativamente o tom da narrativa. O resultado não é um desastre absoluto, mas está longe de captar o espírito reflexivo que sempre definiu esta franquia.
8Knights of the Zodiac
Baseado no mangá Saint Seiya, de Masami Kurumada, Knights of the Zodiac chegou aos cinemas em 2023 com Mackenyu no papel principal de Seiya. Desde os primeiros trailers, ficou claro que a produção tentava aproximar-se visualmente do material original, recriando armaduras, poses e até algumas cenas específicas dos primeiros episódios da série.
Essa intenção, no entanto, não foi suficiente para agradar aos fãs mais exigentes. Vários momentos da história e algumas caracterizações das personagens acabam por seguir fórmulas mais típicas do cinema de ação ocidental do que da linguagem própria do shonen japonês, o que retira autenticidade a uma das franquias mais influentes do género.
É uma pena, porque com pequenos ajustes ao guião e à direção, Knights of the Zodiac poderia ter sido uma adaptação memorável. Em vez disso, tornou-se mais um exemplo de como a distância cultural entre o material original e a abordagem de Hollywood pode comprometer um projeto promissor.
7Fist of the North Star
Poucos fãs ocidentais sabem que existe uma versão live-action de Fist of the North Star, lançada em 1995, muito antes de o anime se tornar popular no Ocidente através de canais como o Toonami. Curiosamente, a produção teve direito a uma dobragem japonesa com as vozes originais da série, um pormenor que revela o investimento inicial feito no projeto.
A premissa de adaptar esta obra para live-action até fazia sentido, já que Fist of the North Star sempre se inspirou fortemente na estética pós-apocalíptica da saga Mad Max. Contudo, o orçamento reduzido e o calendário de produção apertado impediram que essa ideia se traduzisse num resultado à altura.
O filme tenta adaptar o primeiro arco da história, mas fá-lo de forma apressada e visualmente limitada. Ainda assim, continua a ser uma curiosidade para quem quiser ver Malcolm McDowell no papel do mestre de Kenshiro.
6Death Note
Em 2017, a Netflix apostou na popularidade de Death Note para lançar a sua própria versão live-action, contando com um elenco de peso composto por LaKeith Stanfield, Willem Dafoe e Margaret Qualley. Foi a primeira adaptação do mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata produzida integralmente no Ocidente.
Para quem nunca teve contacto com o mangá ou com o anime, o filme funciona relativamente bem como um thriller de entretenimento rápido, com um elenco competente e uma estética visual cuidada. É precisamente esse público, sem qualquer referência prévia, que tende a sair mais satisfeito da experiência.
Já para os fãs da obra original, a experiência é bem diferente. As personagens sofrem alterações profundas na sua construção psicológica, e o desfecho da história afasta-se quase por completo daquilo que acontece no mangá e no anime. Tratando-se de uma das obras mais fáceis de recomendar a quem está a começar a explorar este universo, a distância desta adaptação face ao original torna-a uma escolha pouco indicada até para esse público.
5G-Saviour
G-Saviour é, para a maioria dos fãs de Gundam, um capítulo praticamente esquecido da franquia, apesar de representar, tecnicamente, o ponto mais avançado da cronologia Universal Century alguma vez explorado num projeto audiovisual. Pensado inicialmente para celebrar o vigésimo aniversário da saga, este filme representou uma das primeiras tentativas da Bandai de conquistar audiências fora do Japão.
O maior problema de G-Saviour está na sua própria identidade. A escrita afasta-se significativamente daquilo que os fãs esperam de um projeto Gundam, e essa distância é agravada por um detalhe fundamental, os robôs gigantes, elemento central de toda a franquia, têm uma presença surpreendentemente reduzida ao longo da história.
O resultado é um filme que, mesmo tendo o nome Gundam associado, dificilmente é reconhecido como parte legítima do universo por grande parte dos fãs mais fiéis à saga original.
4Black Butler
Durante o final da década de 2000, o anime Black Butler tornou-se um dos grandes sucessos do género, numa altura em que histórias ambientadas em mansões vitorianas, com mordomos e criadas, estavam particularmente em voga. A história seguia Ciel Phantomhive, um jovem que resolve crimes em Londres com a ajuda de Sebastian Michaelis, um poderoso demónio disfarçado de mordomo.
Em 2014, o estúdio japonês responsável pela adaptação live-action optou por uma abordagem completamente diferente da esperada. Sebastian Michaelis continua presente, mas a ação passa a decorrer em 2020 e segue um descendente da família Phantomhive, afastando-se por completo do enredo original do mangá.
O problema não está tanto na qualidade técnica da produção, mas na forma como foi apresentada ao público, em vez de ser assumida como uma espécie de sequela ou spin-off, foi vendida como uma adaptação direta da obra, gerando expectativas que nunca foram cumpridas junto dos fãs mais fiéis.
3Dragon Ball Evolution
Talvez dececionante não seja a palavra mais correta para descrever Dragon Ball Evolution, uma vez que praticamente ninguém esperava que o filme fosse bom. Ainda assim, é surpreendente que tenha avançado para produção nas condições em que avançou, já que a franquia Dragon Ball, na altura, ainda não tinha no Ocidente o mesmo peso comercial que tem atualmente.
Lançado em 2009, o filme sofre de um orçamento manifestamente insuficiente para recriar o universo criado por Akira Toriyama. Mas os problemas vão muito além do dinheiro disponível, colocar Goku a frequentar o liceu, a ser vítima de bullying e a viver numa ambientação contemporânea são decisões criativas difíceis de justificar para quem conhece a obra original.
Um dos poucos aspetos positivos associados a este projeto acabou por surgir anos mais tarde, quando James Marsters, ator que interpretou o vilão Piccolo neste filme, deu voz ao Fused Zamasu em Dragon Ball Super, numa espécie de gesto de reconciliação com os fãs da franquia.
2Cowboy Bebop
Durante anos, Cowboy Bebop foi apontado por muitos fãs como a franquia perfeita para uma adaptação live-action. Ao contrário de outros animes com elementos fantásticos difíceis de recriar, trata-se de uma narrativa relativamente contida em termos de efeitos especiais, ambientada no espaço mas construída à volta de personagens e diálogos.
A Netflix apostou fortemente nessa premissa, reunindo um elenco bem recebido pelos fãs, com John Cho no papel de Spike Spiegel, Mustafa Shakir como Jet Black e Daniella Pineda como Faye Valentine. A série estreou a 19 de novembro de 2021, com dez episódios, e contou até com a participação de Yoko Kanno, compositora da banda sonora original, na criação da música da nova versão.
Apesar de todo esse investimento, a série nunca conseguiu captar a atmosfera que tornou Cowboy Bebop um marco do género. A necessidade de esticar cada episódio para caber no formato habitual da Netflix acabou por tornar o ritmo da história mais lento e menos envolvente do que no anime original. Menos de um mês depois da estreia, a Netflix cancelou a produção, citando uma audiência baixa face ao elevado custo de produção.
1Yu Yu Hakusho
Poucas adaptações geraram tanta expectativa inicial e tanta desilusão final como a versão live-action de Yu Yu Hakusho. Quando o projeto foi anunciado, a reação dos fãs foi de ceticismo quase imediato, algo comum sempre que se fala em trazer um clássico do género shonen para live-action.
Curiosamente, os primeiros materiais divulgados surpreenderam pela positiva. O casting e os figurinos revelaram-se surpreendentemente fiéis ao espírito do mangá e do anime, o que fez crescer alguma esperança entre os fãs mais céticos.
Essa esperança, no entanto, não durou muito. Em vez de distribuir o material da primeira metade da história por duas temporadas, como seria expectável dada a quantidade de conteúdo a adaptar, a produção decidiu comprimir tudo numa única temporada, prejudicando o desenvolvimento das personagens e o ritmo da narrativa. A isso soma-se um visual pouco conseguido para o Younger Toguro, um dos antagonistas mais icónicos da obra, o que acabou por transformar um projeto promissor numa das maiores dececões recentes para os fãs deste shonen.









