Há séries que chegam com tudo na primeira temporada e depois ficam aquém nas seguintes. Estas são as que ficaram presas nesse padrão.
10The Seven Deadly Sins
Quando The Seven Deadly Sins estreou, parecia que havia finalmente um novo shonen de fantasia com potencial para se tornar num clássico. O elenco era imediatamente cativante, cada personagem com uma identidade forte e um papel claro na dinâmica do grupo, a progressão de poder funcionava, e a série tinha uma energia que justificava o estatuto que rapidamente ganhou. Meliodas, Elizabeth, Ban, King, eram personagens que ficavam na memória ao fim de poucos episódios.
A partir da segunda temporada, algo começou a falhar. A série dependia muito do espetáculo das batalhas, e foi precisamente aí que a execução começou a perder consistência, tanto em termos de animação como na forma como os confrontos eram construídos e resolvidos. O problema não era apenas visual, a escrita também foi perdendo coesão, e a identidade clara que distinguia a primeira temporada foi ficando mais difusa. Hoje, é comum ver a primeira temporada recomendada isoladamente, como a única que representa realmente o que a série podia ter sido.
9Aldnoah.Zero
A primeira temporada de Aldnoah.Zero fez aquilo que poucas séries mecha conseguem: construiu tensão política genuína sem sacrificar a ação. A premissa de um conflito entre a Terra e uma civilização marciana estabelecida na Lua tinha substância, e os confrontos eram suficientemente estratégicos para não parecerem apenas espetáculo vazio. O final do décimo segundo episódio, um dos finais de temporada mais discutidos do ano em que saiu, deixou a sensação de que a série estava disposta a arriscar.
Esse risco acabou por não ser bem aproveitado na segunda temporada. Muito do que a primeira temporada tinha construído cuidadosamente, a ambiguidade das motivações, a tensão entre personagens, a sensação de que qualquer coisa podia acontecer, foi perdendo força à medida que os episódios avançavam. As decisões narrativas que deveriam ser ousadas acabaram por dececionar, e a série chegou ao fim sem o peso que a sua estreia prometia. É um dos casos em que a memória da primeira temporada é deliberadamente separada de tudo o que veio a seguir.
8The Devil Is a Part-Timer!
Há uma arte específica em fazer uma comédia de premissa absurda funcionar de forma sustentada, e a primeira temporada de The Devil Is a Part-Timer conseguiu-o quase sem esforço aparente. A ideia de um senhor do mal transportado para o Japão contemporâneo e obrigado a trabalhar num fast food era ridícula no melhor sentido e o que tornava os episódios eficazes não era tanto a situação em si, mas a forma como os personagens reagiam a ela com uma seriedade que tornava tudo mais engraçado. O grupo funcionava como uma pequena família disfuncional, e havia uma coesão no humor que raramente se vê neste género.
A série ficou anos sem continuação, e quando voltou em 2022, a receção foi muito diferente. O problema não era apenas a distância temporal, era que o tom tinha mudado, os momentos cómicos não tinham a mesma precisão, e a direção narrativa tomou um caminho que nem todos os fãs da série original acompanharam com o mesmo entusiasmo. O que a primeira temporada fez parecer natural revelou-se, na prática, um equilíbrio muito difícil de replicar.
7Log Horizon
Log Horizon foi durante algum tempo o contra-argumento favorito às críticas ao subgénero isekai. Numa altura em que a fórmula estava a começar a parecer cansada, chegou uma série que tratava o mundo do jogo com seriedade, havia economia, política, questões de governação, e um protagonista inteligente que resolvia problemas através de estratégia em vez de poder bruto. Shiroe não era o típico herói de isekai, e isso fazia toda a diferença. A primeira temporada tinha um ritmo que funcionava, e a construção do mundo era suficientemente detalhada para sustentar o interesse além da ação.
As temporadas seguintes foram perdendo essa qualidade de forma gradual. O ritmo tornou-se irregular, alguns arcos não tiveram o mesmo impacto, e a série começou a parecer menos focada. A premissa continuava a ter potencial, mas a execução não entregou o mesmo nível de rigor e satisfação narrativa. Log Horizon continua a ser recomendada, mas com a ressalva de que a primeira temporada é a que realmente justifica a atenção.
6Sword Art Online
Há séries que definem um momento no tempo, e Sword Art Online foi isso mesmo no início da década de 2010. A premissa do arco de Aincrad, pessoas presas num MMORPG onde morrer dentro do jogo significava morrer na realidade, era simples poderosa, e a série soube explorar o peso emocional desse cenário. As relações que se desenvolveram debaixo dessa pressão tinham uma urgência que prendia, e Kirito e Asuna tornaram-se em duas das personagens mais reconhecíveis do anime desse período.
O problema é que Sword Art Online depois do arco de Aincrad nunca voltou ao mesmo nível de foco e impacto emocional. O arco de Fairy Dance chegou com uma premissa diferente e uma mudança de tom que alienou parte da audiência. As temporadas seguintes tiveram os seus defensores, mas raramente houve consenso de que alguma delas igualava o que a série tinha feito na primeira temporada. É um dos casos em que o impacto cultural de uma série está quase inteiramente ancorado naquilo que a lançou, e não no que construiu depois.
5Black Butler
Black Butler tem uma presença de marca que vai muito além das temporadas do anime, o mangá continua, a estética é inconfundível, e a combinação de humor negro com atmosfera vitoriana criou uma identidade que resistiu ao tempo. O problema é que o anime nunca foi particularmente consistente como experiência de temporada completa, em parte porque a primeira e segunda temporadas se desviaram do material original de formas que nem sempre serviram a história.
Book of Circus, exibida em 2014, é a exceção que confirma a regra. Ao adaptar fielmente o arco do circo do mangá, a série encontrou o equilíbrio certo entre a atmosfera sombria, o mistério e a tensão emocional que definem Black Butler no seu melhor. É mais focada, mais coesa, e o ritmo não dá espaço a que a série perca o fio. Para muitos fãs, é a única temporada que eles recomendariam sem qualquer reserva e a que representa genuinamente o potencial da franquia no formato anime.
4Tokyo Ghoul
A primeira temporada de Tokyo Ghoul foi lançada em 2014 num momento em que o anime sombrio e psicológico estava a ganhar tração no mainstream, na esteira de Attack on Titan. A série soube aproveitar esse contexto, a transformação de Kaneki era simultaneamente uma crise de identidade, uma degradação física e uma lição brutal sobre a fragilidade da normalidade. Era opressivo da forma certa, e o tema da música de abertura, Unravel, de TK dos Ling Tosite Sigure, tornou-se um dos mais partilhados de toda a cultura anime.
A segunda temporada, Tokyo Ghoul √A, escolheu um caminho diferente, em vez de adaptar o mangá, optou por uma história original com contribuição do próprio autor Sui Ishida. O resultado foi uma temporada que confundiu espectadores do anime e frustrou leitores do mangá em simultâneo, personagens com motivações alteradas, arcos inteiros ignorados, e uma narrativa que deixou o enredo “incoerente e mal desenvolvido”. A decisão de Kaneki se juntar à Aogiri, por exemplo, acontece sem o contexto que a tornava compreensível no mangá. Tokyo Ghoul:re tentou retomar o fio canónico, mas sem nunca explicar a transição da segunda temporada, criando uma confusão que afastou parte da audiência de vez.
3Psycho-Pass
Psycho-Pass chegou em 2012 como um dos thrillers de ficção científica mais bem construídos do anime. O sistema Sibyl, uma tecnologia que avalia o potencial criminal de cada indivíduo e determina o seu grau de liberdade em sociedade, era uma premissa suficientemente plausível para ser perturbante, e a série não desperdiçou esse potencial. A escrita era rigorosa, as questões morais eram colocadas com precisão, e havia uma tensão constante que não colapsava. Shogo Makishima, o antagonista da primeira temporada, é ainda hoje uma das figuras mais bem escritas do género, um homem que acredita genuinamente que o livre-arbítrio é mais valioso do que a segurança, e que a série trata com seriedade suficiente para tornar o debate real.
As temporadas seguintes e os filmes continuaram a explorar o universo, mas raramente com a mesma coesão. A primeira temporada tinha um argumento completo, uma pergunta e uma resposta sobre o que significa viver numa sociedade que remove o risco à custa da autonomia. O que veio depois era construído sobre esse universo, mas sem o mesmo grau de inevitabilidade narrativa. Continua a ser uma franquia que vale a pena acompanhar, mas a primeira temporada é aquela que se recomenda como essencial.
2One-Punch Man
O que o estúdio Madhouse fez com a primeira temporada de One-Punch Man em 2015 é ainda hoje estudado como exemplo de adaptação excecional. A série de Shingo Natsume reuniu um conjunto de animadores de elite, muitos deles freelancers que se juntaram especificamente para trabalhar com ele, e o resultado foi uma temporada com sequências de ação que pareciam impossíveis para um formato televisivo. A sátira ao género de super-heróis funcionava, a comédia funcionava, e as batalhas tinham um peso visual que poucos anime conseguiram igualar. O combate entre Saitama e Boros continua a ser citado como um dos melhores alguma vez animados.
Quando chegou a segunda temporada, em 2019, a Madhouse já não estava no projeto. Natsume tinha saído para outros trabalhos, e com ele foram muitos dos animadores que tinham feito a magia da primeira temporada. A J.C.Staff assumiu a produção, com um estúdio que nesse mesmo ano estava a gerir oito projetos em simultâneo. O resultado foi imediatamente visível, animação mais plana, enquadramentos genéricos, batalhas sem o mesmo impacto cinético. A história mantinha qualidade, o arco da Associação de Monstros é um dos melhores do mangá, mas a execução não estava à altura. A terceira temporada, estreada em outubro de 2025, repetiu o mesmo problema. Natsume, numa entrevista ao Anime Festa, foi direto: “Pessoalmente, é claro que queria fazer [a segunda temporada]. Mas isso não foi possível apesar de mim. Não consigo fazer tudo o que queria fazer. Mas desejava que o J.C. Staff tivesse feito muito mais com a série”.
1The Promised Neverland
Poucos casos na história recente do anime ilustram melhor o abismo entre potencial e execução do que The Promised Neverland. A primeira temporada, em 2019, foi um thriller que sabia exactamente o que estava a fazer em cada momento. A tensão era construída com paciência, os personagens, Emma, Norman e Ray, tinham uma inteligência que os tornava cativantes sem os tornar inverosímeis, e a relação com Isabella funcionava como um espelho perturbante do mundo exterior à Grace Field House. Era uma série em que cada sorriso podia ser uma armadilha.
A segunda temporada chegou em 2021 com um problema estrutural grave, o estúdio CloverWorks decidiu comprimir mais de cem capítulos do mangá em onze episódios, saltando arcos inteiros, incluindo o arco Goldy Pond, considerado por muitos o melhor do mangá, e eliminando personagens que eram fundamentais para a coerência do que viria a seguir. O regresso de Norman, que no mangá era construído ao longo de quase oitenta capítulos de ausência, aconteceu a meio da temporada sem o peso emocional necessário. A série também enfrentava um contexto complicado, o escritor Kaiu Shirai encerrou o mangá mais cedo do que o previsto por razões de saúde, e o estúdio optou por criar um final original que foi amplamente considerado inferior ao do mangá. O episódio final acabou em grande parte como um compilado de imagens, com arcos inteiros resolvidos em segundos. A queda foi tão abrupta que hoje a série é frequentemente recomendada com uma instrução clara: vê a primeira temporada e depois lê o mangá a partir do capítulo 38.









