
Há vinte anos, a 9 de abril de 2006, a Chiba TV transmitia o primeiro episódio de Black Lagoon. Naquele mesmo mês, a TV Tokyo estreava Gintama, outro anime que fez da temporada de primavera de 2006 um momento invulgar na história. Mas Black Lagoon era uma proposta radicalmente diferente, sem magia, sem escola, sem torneios, sem adolescentes com poderes inexplicáveis. Apenas uma embarcação de guerra da Segunda Guerra Mundial, uma cidade fictícia algures na Tailândia e quatro pessoas a fazer trabalhos que a maioria prefere não saber que existem.
O anime é baseado no mangá homónimo de Rei Hiroe, publicado na revista Monthly Sunday Gene-X da Shogakukan desde abril de 2002. A premissa parte de um ponto simples, Rokuro Okajima, quadro médio de uma empresa japonesa, é abandonado pelos seus superiores durante uma operação de entrega que corre mal. Sequestrado pela Lagoon Company, um grupo de piratas mercenários que opera nas águas do Sudeste Asiático, acaba por integrar a tripulação sob o nome de Rock. À sua volta estão Dutch, o líder calculista; Benny, o especialista em sistemas; e Revy, a pistoleira de origem chinesa criada em Nova Iorque que serve de músculo e de consciência moral invertida do grupo.
Produzido pela Madhouse e dirigido por Sunao Katabuchi, o anime transmitiu doze episódios entre abril e junho de 2006, seguidos de uma segunda temporada, Black Lagoon: The Second Barrage, entre outubro e dezembro do mesmo ano, com mais doze episódios. Entre 2010 e 2011 foi ainda lançado um OVA de cinco episódios intitulado Roberta’s Blood Trail, adaptando o arco mais longo e ambicioso do mangá. No total, a adaptação anime conta com vinte e nove episódios.
O que distinguia Black Lagoon do panorama da época era em grande parte estético e tonal. Hiroe citou explicitamente John Woo, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez como influências centrais, bem como o cinema policial de Hong Kong dos anos 80 e 90. Pulp Fiction terá inspirado o equilíbrio entre humor e violência que percorre a série. A cidade fictícia de Roanapur, território neutro gerido por cartéis, máfias russas, tríades e mercenários, funciona como um palco onde as regras habituais do anime simplesmente não se aplicam. Não há redenção garantida, não há hierarquia moral clara, e as personagens que aparentam ser antagonistas são frequentemente as mais humanas da sala.
Katabuchi, que antes de Black Lagoon tinha dirigido o filme familiar Princess Arete, descreveu a transição sem dramatismo, o seu objetivo era sempre criar algo que ressoasse com cada espectador de forma individual, independentemente do género ou da audiência-alvo. Ele e Hiroe encontraram terreno comum num interesse partilhado por Stephen King e pelo horror americano, o que acabou por definir parte da atmosfera mais opressiva da série. Hiroe entregou a adaptação à equipa com confiança, optando por um envolvimento mínimo para não comprometer o seu ritmo de publicação no mangá.
A Revy, personagem que acabaria por se tornar uma das mais reconhecidas do anime de acção, surgiu de uma origem improvável. Hiroe baseou a tatuagem tribal da personagem na que George Clooney usa em From Dusk Till Dawn, o filme de Robert Rodriguez de 1996, por considerar que ficaria bem numa mulher. A personagem cresceu a partir daí. O seu perfil de combate, duas Beretta 92 personalizadas em aço inoxidável, técnica ambidestria, sem hesitação, tornou-se referência no género. Mais do que isso, a escrita da dinâmica entre Revy e Rock, a tensão entre o cinismo absoluto de uma e o idealismo obstinado do outro, é o que sustenta a série emocionalmente para além da acção.
O mangá, no entanto, teve uma história paralela mais difícil. Desde 2010, Rei Hiroe batalha com depressão clínica, condição que levou a série a entrar e sair de hiatos repetidos ao longo de mais de uma década. Em 2025, numa entrevista à Comic Natalie, o autor falou abertamente sobre o tema: “Não sei a razão exacta, mas trabalhar no mangá foi ficando cada vez mais difícil, e ficou cada vez mais difícil organizar os meus pensamentos. Mesmo quando queria começar a próxima tarefa, as minhas mãos paravam”. Hiroe descreveu a situação ao seu editor como “um elástico que tinha sido esticado ao máximo e simplesmente arrebentou”. O mangá continua em publicação intermitente, o 13º volume foi lançado em dezembro de 2023, e novos capítulos surgiram ao longo de 2024 e 2025, mas sem o ritmo que uma série desta dimensão normalmente exigiria.
O arco Roberta’s Blood Trail, que Hiroe considerava uma obra culminante, recebeu reações divididas dos leitores, o que agravou o seu estado. O seu editor, Akinobu Natsume, recordou que Hiroe colocou tudo de si num arco que tentava questionar as suas próprias convicções sobre o bem e o mal, e que parte do público simplesmente não conseguiu acompanhar essa intenção. A série sobreviveu a isso, como sobreviveu a tudo o resto.
Duas décadas depois da estreia do anime, não existe anúncio de nova adaptação anime, e o mangá continua sem data de conclusão prevista. Isso não impediu que Black Lagoon continue a ser descoberto por novas gerações que chegam sem qualquer contexto e ficam. Roanapur não convida. Não precisa.








