Alguma vez imaginaram como seria se a Walt Disney decidisse criar um videojogo inspirado nas suas animações mais retro a preto e branco? Algo simultaneamente invulgar, mas carregado daquele humor sarcástico e expressivo tão característico dos Cartoons da altura.

A verdade é que não foi a própria a seguir esse caminho, mas sim a produtora independente Fumi Games, que deu vida a MOUSE: P.I. for Hire, fazendo nascer uma obra fora do habitual. Trata-se de um shooter na primeira pessoa, num mundo povoado por ratos, que funde uma estética inspirada nos desenhos animados da década de 1930, criando uma identidade muito peculiar e difícil de ignorar.

A narrativa tem destes momentos bizarros.

A narrativa de Mouse: P.I. For Hire segue o protagonista Jack Pepper, um detetive privado conhecido da cidade de Mouseburg. A história arranca com o desaparecimento de um mágico e antigo amigo de Jack, servindo de ponto de partida para uma série de casos que se vão desenrolando e interligando ao longo da aventura.

Aquilo que parece ser um mistério isolado transforma-se numa teia complexa, levando-nos a investigar uma seita, uma elite mafiosa e até um cientista excêntrico acompanhado pelo seu inseparável Igorrr, uma evidente piscadela de olho ao arquétipo do assistente de cientista louco. À medida que o enredo cresce, constrói-se uma rede de conspirações e interesses cruzados que, apesar de nunca se afastar do tom leve e caricatural, consegue manter-nos investidos.

A narrativa foi nitidamente concebida para acompanhar de perto a jogabilidade, mas isso não quer dizer que tenha sido deixada para segundo plano. Há cuidado e criatividade na escrita, com diálogos inteligentes, repletos de trocadilhos e daquele humor noir tão característico. As personagens, mesmo as que surgem por pouco tempo, deixam a sua marca e possuem uma identidade muito pessoal, seja pela forma como se exprimem ou pelo papel que desempenham. Entre figuras caricatas como o bizarro já mencionado Igorrr ou o jovial político Cornelius Stilton, constantemente atrapalhado pela sua gaguez, há vários momentos memoráveis. No entanto, Jack Pepper é a estrela do jogo. O carisma da personagem baseia-se no típico detetive dos anos 30, elevado pela excelente interpretação de Troy Baker (Death Stranding e The Last of Us), que lhe confere humor, subtileza e aquele timbre de voz clássico de um homem (neste caso, rato) moldado pelas dificuldades da vida.

Não faltam ambientes distintos e bem desenhados.

Olhando para a jogabilidade, o combate e exploração andam de mãos dadas. A movimentação é rápida e extremamente responsiva, com a esquiva a ser imprescindível para manter o ritmo e incentivar ao movimento constante. A isto juntam-se habilidades de travessia como o salto duplo e o uso da cauda para planar ou interagir com pontos específicos dos cenários, o que não só torna a exploração mais interessante como acrescenta verticalidade ao combate, permitindo abordagens mais criativas.

O equipamento do nosso detetive também não desilude. Começamos com uma pistola “Micer”, mas rapidamente passamos para armas mais potentes como a espingarda, a irreverente metralhadora “James Gun” e outras opções mais extravagantes, como a Desvanecedor, capaz de derreter inimigos com a sua tinta ácida. No entanto, não se trata apenas de disparar indiscriminadamente para avançar de sala em sala. A limitação de munições deixa claro que é necessário alternar constantemente entre armas, o que acaba por incentivar a experimentar o potencial de cada uma. Ainda assim, em situações mais caóticas, a potência da espingarda torna-se difícil de ignorar. Em paralelo, podemos usar os bidões espalhados pelos cenários contra os inimigos para poupar munições.

A exploração torna-se ainda mais interessante graças à quantidade de segredos por descobrir, desde cofres com dinheiro a colecionáveis como bonecos e cartas de basebol.

Quanto aos inimigos, o jogo consegue manter os confrontos emocionantes através do ritmo e da forma como estes vão variando de ambiente para ambiente. Encontramos diferentes tipos de adversários, desde mafiosos a robôs com armas de longo alcance ou comportamentos mais agressivos que, combinados em grupo, criam situações bem caóticas. Aproveito para dizer que a dificuldade no modo padrão é até bem equilibrada. Não é um jogo complicado, mas também não se torna aborrecido ou automático. Há momentos mais fervorosos, especialmente quando somos cercados por vários inimigos, mas no geral privilegia a diversão em vez de desafio extremo.

O crocodilo deu luta, com os seus minions e a sua metralhadora.

Para relaxar um pouco da ação constante, temos acesso ao hub do jogo. Esta zona da cidade alberga o escritório de Jack, onde podemos falar com NPCs, receber missões secundárias, comprar itens e organizar as pistas no quadro de investigação. É aqui que podemos melhorar o arsenal, desde que encontremos os diagramas espalhados pelas zonas de investigação. Já o sistema de lockpicking realça-se pela simplicidade e controlo agradável, funcionando como um minijogo onde usamos a cauda para ativar os pinos de uma fechadura.

Sem surpresa, o aspecto mais destacável de Mouse: P.I. For Hire é a sua espantosa direção artística. O jogo aposta num estilo “rubber hose” a preto e branco, que dá vida ao seu mundo de um modo muito particular. Tudo foi pensado para fortalecer a coerência estética da experiência, desde a construção dos cenários até à forma como as personagens se expressam e se movem.

A própria animação está repleta de personalidade em praticamente todos os elementos. Os cenários não são totalmente estáticos, apresentando pequenos detalhes em movimento que lhes dão carisma, enquanto as personagens realçam-se pelo exagero expressivo. Isto cria um mundo constantemente dinâmico, mesmo nos momentos em que não há ação direta no ecrã.

Um pormenor particularmente interessante é a maneira como as armas são integradas nesta linguagem visual. Estas possuem animações únicas e uma presença caricatural enquanto nos movemos e disparamos, acrescentando ainda mais identidade tanto ao combate como à exploração.

O único problema que encontrei no jogo está relacionado com a performance. Nos modos gráfico e de desempenho, na PlayStation 5 revela alguma instabilidade, com pequenos soluços a surgirem durante os movimentos mais rápidos ou em combates intensos com disparos contínuos.

Mais uma das bizarrices interessantes do jogo.

O som desempenha também um papel fundamental para tornar tudo mais imersivo. O impacto dos tiros e da pancadaria contribui para a sensação de estarmos dentro de um verdadeiro cartoon. Uma banda sonora com evidentes referências ao jazz, acrescenta ritmo às investigações e encaixa perfeitamente com atmosfera e a temática do jogo.

Vamos descobrindo mais sobre o mundo do jogo através de documentos espalhados pelos níveis e de jornais que relatam acontecimentos e casos locais.

Já é óbvio que o impacto de Mouse: P.I. For Hire se faz sentir. A Fumi Games conseguiu criar uma experiência estonteante, com combates envolventes e um enredo bem estruturado, tudo isto aliado a um estilo artístico que ainda hoje permanece intemporal.
Não esquecerei tão cedo as histórias e as personagens da cidade de Mouseburg e estarei atento ao próximo passo desta equipa, na esperança de que o seu futuro seja tão ‘apetitoso’ como o queijo de primeira que nos serviram neste videojogo.

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