InícioAnime10 animes recentes que te vão destruir emocionalmente

10 animes recentes que te vão destruir emocionalmente

Existe uma diferença entre um anime triste e um anime que parte alguma coisa dentro de nós. Os primeiros fazem chorar numa cena e depois seguem em frente. Os segundos ficam, instalam-se, aparecem na cabeça dias depois enquanto se está a fazer outra coisa qualquer.

10
Cyberpunk: Edgerunners

Quando o Studio Trigger lançou Cyberpunk: Edgerunners em setembro de 2022, a série chegou quase sem aviso, dez episódios na Netflix, baseados num videojogo, feitos pela equipa por trás de Kill la Kill. Não parecia, à partida, o tipo de coisa que deixa marcas. E depois deixou.

O que o Trigger fez com Night City foi pegar numa estética que normalmente serve para glorificar o excesso, néon, violência, corpos modificados, velocidade, e usá-la para contar uma história sobre o custo de querer ser mais do que o sistema permite. David Martinez não é um herói. É um miúdo que perdeu a mãe, que não tem dinheiro, que encontra em Lucy e nos edgerunners uma espécie de família improvisada, e que vai cedendo pedaço a pedaço de si próprio à cidade até não sobrar nada para ceder.

A relação entre David e Lucy é o coração da série, e é construída com uma ternura que contrasta propositadamente com a brutalidade de tudo o resto. Cada momento quieto entre os dois, uma conversa no telhado, um plano de fuga para a Lua, funciona como promessa que a série vai cumprindo da pior maneira possível. Edgerunners não surpreende com o seu final. Anuncia-o desde o primeiro episódio. E faz doer na mesma.

9
To Your Eternity

To Your Eternity 3 main visual 2 (1)

To Your Eternity, estreada em 2021 pelo estúdio Brain’s Base, é talvez o anime mais deliberadamente cruel desta lista. Yoshitoki Oima, a mesma autora de A Silent Voice, construiu aqui uma estrutura que funciona como armadilha, apresenta uma personagem, dá-lhe tempo suficiente para que o espectador se importe, e depois retira-a. E faz isso vezes suficientes para que, a certa altura, o espectador saiba o que está a acontecer e não consiga fazer nada com esse conhecimento.

Fushi, a entidade imortal que aprende a existir ao assumir a forma dos que morre à sua volta, é uma das premissas mais originais do anime recente. Mas o que a série faz com essa premissa é mais interessante do que o conceito em si, não usa a imortalidade como poder, mas como uma forma de tornar o luto permanente. Fushi não perde as pessoas definitivamente, carrega-as consigo, nas formas que pode assumir, nas memórias que acumula. O que significa que nunca pode deixar de as perder.

O arco inicial com o rapaz sem nome é um golpe de precisão. A série dá-nos tempo suficiente para sentir a amizade antes de a terminar, e faz isso com uma economia de meios que torna tudo mais difícil de aguentar. Não há música dramática a avisar que algo importante vai acontecer. Simplesmente acontece.

8
86: Eighty-Six

86 Eighty-Six anime visual

86: Eighty-Six chegou em abril de 2021 pela A-1 Pictures e instalou-se de forma silenciosa como uma das séries de ficção científica mais rigorosas dos últimos anos. A premissa é uma armadilha inteligente, a República de San Magnolia declara publicamente que a sua guerra é travada por drones autónomos, sem baixas humanas. A realidade é que os chamados Eighty-Six, discriminados pela sua etnia, pilotam essas máquinas como carne para canhão, invisíveis para a consciência coletiva de um Estado que precisa de acreditar na sua própria propaganda.

O que torna 86 genuinamente difícil de ver não é a violência dos combates, é a normalidade com que o sistema funciona. Ninguém na República é monstruoso de forma óbvia. São pessoas que escolheram não saber, que encontraram formas de justificar o que sabem no fundo que é injustificável, e que continuam as suas vidas confortáveis enquanto crianças morrem em máquinas de guerra a poucos quilómetros de distância.

Lena e Shin comunicam por rádio através de uma distância que é ao mesmo tempo geográfica e de classe, e é nessas conversas que a série encontra o seu núcleo emocional. Ele já não espera sobreviver. Ela ainda não percebeu completamente o que isso significa. O processo pelo qual Lena passa, de ignorância bem-intencionada a confronto com a realidade, é desconfortável de uma forma muito específica, porque o espectador já sabe o que ela ainda está a aprender.

7
Attack on Titan: The Final Chapters

Attack on Titan

Poucos finais de série carregavam tanto peso acumulado como os capítulos finais de Attack on Titan. O estúdio MAPPA tinha a tarefa impossível de fechar uma história que tinha redefinido o que o anime de ação podia ser, e o resultado foi, dependendo de quem se pergunte, uma obra-prima ou uma deceção. O que ninguém consegue negar é que o final é emocionalmente devastador de uma forma que não tem paralelo recente.

Ver Eren a desencadear o Rumbling é um dos momentos mais esmagadores do anime moderno, e não porque seja inesperado. É esmagador porque a série passou anos a construir empatia por um personagem que chegou a este ponto de forma completamente compreensível, o que é muito diferente de justificável. Isayama não pediu ao espectador que concordasse com Eren. Pediu que o entendesse. E isso é muito mais perturbador.

O peso emocional do final recai sobre Mikasa de uma forma que a série preparou durante anos sem que se percebesse completamente para quê. A decisão que lhe é pedida não é a de matar um vilão, é a de dar fim a alguém que amou genuinamente, com quem partilhou uma infância, que a salvou e a aprisionou ao mesmo tempo. O lenço e a árvore que fecham a história são uma das imagens mais melancólicas que o anime produziu nos últimos anos.

6
Oshi no Ko

Oshi no Ko 3 anime visual

Oshi no Ko estreou em abril de 2023 pelo estúdio Doga Kobo com um primeiro episódio de noventa minutos que se tornou num dos momentos mais comentados do ano no mundo do anime. A série começa como uma fantasia de ídolos e vira-se do avesso de forma violenta logo nas primeiras cenas, estabelecendo que o que vai contar não é uma história de brilho e fama, mas uma história sobre o que esse brilho esconde e o que custa.

O que Oshi no Ko disseca ao longo das suas temporadas é a forma como a indústria do entretenimento japonês transforma pessoas em produtos. Não de forma abstrata ou metafórica, de forma muito concreta, mostrando os mecanismos, os contratos, os gestores, os fãs que constroem parasocialmente uma intimidade que nunca existiu, a pressão para manter uma persona mesmo quando tudo por dentro está a desmoronar. Ai Hoshino é a figura central desta dinâmica, mas a série tem o cuidado de mostrar que ela não é uma exceção, é um exemplo de um sistema que funciona assim para toda a gente.

A sombra da morte de Ai paira sobre cada episódio seguinte. Aqua cresce com memórias de uma vida anterior e uma obsessão que vai consumindo a sua capacidade de simplesmente existir. E o mais perturbador é que a série mostra como o amor também pode ser uma forma de destruição, a de um fã que amou tanto que decidiu que ninguém mais tinha direito a tê-la.

5
Frieren: Beyond Journey’s End

visual Temporada 2 de Frieren (1)

Frieren: Beyond Journey’s End estreou em setembro de 2023 pelo estúdio Madhouse com um episódio especial de duas horas e tornou-se rapidamente numa das séries mais celebradas dos últimos anos. O elogio chegou de todos os lados, e na maior parte dos casos usava as mesmas palavras, lento, bonito, contemplativo. O que essas palavras não capturam é o quanto a série consegue doer de forma completamente silenciosa.

A ideia central de Frieren é que o tempo passa de formas diferentes para pessoas diferentes, e que a imortalidade não é um dom, é uma forma de defasamento permanente. Frieren esteve ali. Passou décadas com Himmel e com os outros. E não se apercebeu, enquanto estavam vivos, de quanto isso importava. Só percebe depois, quando já não há nada a fazer com essa perceção além de a carregar.

O que a série acumula com paciência extraordinária são pormenores, uma estátua numa praça, uma memória de esperar estrelas cadentes durante horas, um feitiço pequeno que Himmel pediu que ela procurasse. Não são grandes momentos dramáticos. São os restos de uma presença que a série vai reconstituindo episódio a episódio, até que o espectador percebe que está a lamentar alguém que nunca conheceu. Frieren faz isso repetidamente, e fica mais eficaz cada vez que repete.

4
Vinland Saga — segunda temporada

A segunda temporada de Vinland Saga, produzida pelo estúdio MAPPA e emitida entre janeiro e junho de 2023, é provavelmente o arco de redenção mais honesto que o anime produziu nos últimos anos, e é honesto precisamente porque recusa ser inspirador da forma habitual. Não há um momento em que Thorfinn se levanta, olha para o horizonte e decide ser melhor. Há trabalho, há silêncio, há dias em que não consegue e outros em que quase consegue.

A decisão de colocar o protagonista de Vinland Saga, um personagem construído ao longo de uma temporada inteira em torno da vingança e da violência, numa quinta de escravos, sem armas, sem propósito, sem inimigos para matar, foi uma das apostas criativas mais ousadas do anime recente. E funcionou porque a série teve coragem de não a sabotar com ação ou com revelações dramáticas. Thorfinn está vazio. A série fica ali com ele no vazio.

Einar existe para mostrar o contraste, uma pessoa que passou por coisas igualmente terríveis e que manteve algo que Thorfinn perdeu. A amizade que se constrói entre os dois é o centro emocional da temporada, e é construída com a lentidão de quem sabe que apressar seria desonesto. A misericórdia, aqui, não é uma conclusão. É um processo.

3
Chainsaw Man

Chainsaw Man endings

Chainsaw Man chegou em outubro de 2022 adaptado pelo estúdio MAPPA e passa os primeiros episódios a fazer-se passar por outra coisa, uma série de ação shonen barulhenta, violenta, cheia de humor físico e fanservice. E é isso, em parte. Mas é também uma série sobre o que acontece a uma pessoa que cresceu sem nunca receber o mínimo, e que por isso não sabe distinguir afeto genuíno de manipulação.

Denji quer coisas tão pequenas que chegam a ser dolorosas de ver. Quer comer bem. Quer dormir sem preocupações. Quer que alguém lhe toque sem razão prática. É essa escala de desejos que define o personagem, e que torna a figura de Makima tão eficaz e tão perturbadora. Ela não engana Denji com promessas grandiosas. Engana-o com exatamente o que ele mais precisa, medido à conta-gotas, suficiente para manter a dependência sem nunca resolver a fome.

Os momentos do apartamento partilhado com Aki e Power são o coração emocional da série, e a câmara trata-os com um cuidado que contrasta com o caos de tudo o resto. São cenas domésticas, triviais, sobre três pessoas igualmente partidas que formam uma família por acidente. Chainsaw Man sabe que o espectador sabe o que está a acontecer. E usa isso.

2
Fruits Basket: The Final

Fruits Basket: The Final encerrou em 2021 uma história que a geração anterior de fãs tinha crescido a amar, e fê-lo com uma honestidade sobre o abuso e a recuperação que o anime raramente permite. A maldição dos Sohma não é uma metáfora decorativa, é uma estrutura de controlo, de vergonha imposta, de identidade construída.

O que a temporada final recusa fazer é tratar a quebra da maldição como uma solução. As personagens continuam a carregar o que lhes aconteceu. Kyo sabe que o amor de Tohru é real, e mesmo assim leva episódios a aceitar que merece recebê-lo, não por dramatismo narrativo, mas porque é assim que funciona quando alguém foi sistematicamente ensinado a acreditar que é um fardo. Yuki tem o seu próprio processo, diferente, igualmente honesto.

O arco de Akito é talvez o mais complexo da temporada, a série poderia tê-la usado apenas como antagonista a ser derrotada, e em vez disso escolheu mostrar como alguém se torna aquilo em que Akito se tornou. Não para absolver. Para explicar. E essa distinção importa muito.

1
Kotaro Lives Alone

Kotaro Lives Alone, adaptada pela Liden Films em 2022, chega embrulhada numa premissa que parece comédia, um menino de quatro anos que vive sozinho, fala de forma arcaica como personagem de drama de samurais e insiste em ser completamente autossuficiente. Os primeiros episódios deixam o humor funcionar. E depois a série começa, muito lentamente, a mostrar de onde vem tudo aquilo.

Cada comportamento de Kotaro que parecia quirk cómico tem uma origem. Os lenços que guarda no nariz antes de adormecer existem porque os produtos de limpeza que enchiam a casa onde vivia antes provocavam-lhe reações. A forma como interpreta qualquer gentileza como algo suspeito, como preparação para abandono, como armadilha, é o resultado de ter aprendido muito cedo que os adultos não ficam. A independência radical de Kotaro não é precocidade encantadora. É uma estratégia de sobrevivência.

O que a série faz de mais difícil é não resolver isso. Os vizinhos tentam dar-lhe momentos de infância normal, refeições, celebrações, companhia, e ele aprende a recebê-los. Mas a preparação para o abandono continua presente, porque algumas coisas não se desfazem com boas intenções. Kotaro Lives Alone é uma série pequena que faz uma coisa muito grande, trata uma criança como alguém que já foi danificado, e respeita-o o suficiente para não fingir que a narrativa o pode consertar.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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