Há uma receita que praticamente todas as histórias de super-heróis seguem à risca: alguém forte protege os fracos, um vilão ameaça tudo o que existe, e nunca há grandes dúvidas sobre quem está do lado certo. Funciona há décadas, mas o anime raramente se contenta em repetir essa fórmula sem lhe tocar. Muitas séries anime preferem virar o conceito do avesso, perguntando o que sobra de um herói quando lhe tiram a fama, o glamour ou até o próprio sentido de missão.
10One-Punch Man
A ideia central de One-Punch Man cabe numa única piada, mas é dessa piada que nasce quase tudo o resto. Saitama consegue derrotar qualquer adversário com um único murro, o que devia bastar para o tornar o herói mais celebrado do planeta. Só que o efeito é o oposto: sem desafios à altura, ele vive entediado, um pouco à parte do mundo, incapaz de sentir o entusiasmo que via os outros heróis sentirem no meio de uma batalha.
É uma inversão curiosa do percurso clássico do género. Em vez de treinar até alcançar o limite máximo das suas capacidades, Saitama já ultrapassou esse limite antes de a história sequer começar, o que o obriga a procurar sentido em qualquer coisa que não seja força bruta.
Ao mesmo tempo, a série usa esse contraste para ridicularizar o sistema de heróis que existe à sua volta. A Associação de Heróis organiza tudo por rankings, patrocínios e popularidade nas redes, transformando o ato de salvar vidas numa espécie de carreira burocrática. Há personagens genuinamente preocupadas em proteger pessoas, mas também há quem esteja ali apenas pelo estatuto social. Basta Saitama aparecer para que toda essa hierarquia cuidadosamente construída pareça, de repente, ridícula.
9Zetman
Zetman não perde tempo a mostrar o quanto pode ser desconfortável ter um dom que ninguém pediu. Jin Kanzaki vive num mundo dominado por medo e violência, constantemente arrastado para conflitos que ultrapassam largamente a sua vontade de ficar de fora. O seu poder não lhe abre portas nem lhe dá um propósito claro, torna apenas a sua vida mais complicada e mais perigosa do que já era.
Essa premissa contraria diretamente um dos pilares mais comuns do género dos super-heróis, a ideia de que possuir poderes equivale a encontrar um caminho e um objetivo na vida. Aqui, o dom é praticamente um fardo.
Há também um jogo interessante entre parecer justo e ser justo. A sociedade retratada em Zetman prefere heróis apresentáveis, fáceis de vender ao público e de enquadrar numa narrativa simples. A narrativa, no entanto, teima em mostrar o oposto, a justiça pode ser feia, moralmente confusa, e alguém pode enfrentar monstros sem deixar nunca de ser tratado como um deles.
8Tiger & Bunny
Em Tiger & Bunny, salvar vidas é só metade do trabalho. A outra metade consiste em usar patrocínios estampados no fato, acumular pontos num sistema de classificação televisivo e garantir que cada resgate rende boa audiência. É um mundo onde o heroísmo se tornou, literalmente, um produto televisivo, com câmaras a acompanhar cada movimento dos protagonistas.
O que torna a premissa tão eficaz é que o perigo continua a ser real. As pessoas continuam a precisar de ajuda genuína, mesmo que cada resgate seja também um episódio de entretenimento a ser consumido por milhões de espectadores.
Kotetsu, o protagonista, encarna essa tensão melhor do que ninguém. É alguém que quer mesmo ajudar as pessoas, mas trabalha dentro de uma indústria que costuma valorizar mais a imagem transmitida do que a bondade por trás dela. Esse choque entre a vontade sincera de fazer o bem e um sistema obcecado com audiências é o motor que sustenta toda a série, e é também aquilo que a torna uma das críticas mais afiadas ao mundo dos super-heróis moderno.
7Gatchaman Crowds
Gatchaman Crowds propõe uma ideia pouco habitual no género, e se o herói não precisasse de estar sozinho, isolado, acima de todos os outros? Em vez de seguir a fórmula do protagonista solitário com fato, base secreta e uma missão pessoal, a série mistura tecnologia, redes sociais e ação coletiva para mostrar que proteger o mundo pode ser um esforço partilhado por muita gente ao mesmo tempo.
Hajime Ichinose é a peça que faz tudo funcionar. É uma personagem imprevisível, otimista e curiosamente pouco convencional para uma protagonista de anime de ação. Em vez de resolver conflitos à base de socos, prefere questionar, envolver outras pessoas e desafiar a própria ideia de que só alguns escolhidos podem ser heróis.
O resultado é uma série que transforma o heroísmo de dever privado em conversa pública, onde a força de uma comunidade organizada pesa tanto, ou mais, do que qualquer super-poder individual.
6Mob Psycho 100
Poucos animes têm um protagonista tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão pouco interessado em parecer especial. Shigeo Kageyama, conhecido como Mob, tem um poder psíquico capaz de arrasar praticamente tudo à sua volta caso perca o controlo das próprias emoções. Uma boa parte das histórias de heróis transformaria isso numa arma narrativa óbvia, fazendo dele o escolhido destinado a salvar ou a destruir tudo.
Mob Psycho 100 recusa esse caminho fácil. Em vez disso, trata o poder como uma fonte constante de ansiedade. Quanto mais Mob reprime aquilo que sente, maior é o risco de tudo explodir, o que transforma a gestão emocional numa tarefa tão ou mais importante do que qualquer batalha física.
É por isso que a série acaba por falar mais sobre crescimento pessoal do que sobre super-poderes. O que realmente importa não é a força de Mob, mas a forma como ele aprende a lidar com a própria vulnerabilidade, algo raramente valorizado em protagonistas do género.
5Charlotte
Em Charlotte, ganhar um superpoder está longe de ser um convite a uma vida extraordinária. Yuu Otosaka consegue tomar temporariamente o controlo do corpo de outra pessoa, mas só durante alguns segundos, o que torna a sua habilidade tão útil quanto frustrante. Outros colegas têm capacidades igualmente limitadas, quase sempre acompanhadas de consequências dolorosas.
Essa escolha narrativa distancia-se claramente da fantasia clássica de poder como dádiva. Aqui, os dons parecem mais ferramentas mal calibradas, entregues a adolescentes que ainda estão a tentar perceber a própria vida, quanto mais salvar a de outras pessoas.
Essa fragilidade é, aliás, o que torna Charlotte tão diferente de séries de super-heróis convencionais. Os protagonistas não estão a caminho de se tornarem salvadores do mundo. Muitos deles ainda estão a tentar sobreviver ao próprio dia a dia, o que dá à série um tom mais próximo do drama adolescente do que da fantasia heróica tradicional.
4Concrete Revolutio
Poucas séries conseguem juntar tantas ideias diferentes como Concrete Revolutio, que mistura super-humanos, robôs gigantes, extraterrestres e magical girls no mesmo universo. A diferença é que a série não usa essa mistura apenas para efeitos visuais. Usa-a para questionar quem tem autoridade para decidir quais destes seres são heróis e quais são ameaças a eliminar.
Essa pergunta atravessa toda a narrativa e nunca recebe uma resposta simples. O mundo retratado é dominado por medo público, agências governamentais pouco transparentes e grupos que tentam controlar seres que mal compreendem.
Ao tratar os super-humanos como um problema social e não apenas como uma curiosidade fantástica, Concrete Revolutio mostra como o rótulo de herói pode mudar consoante os interesses de quem o atribui. O poder, aqui, é sempre político, mesmo quando é apresentado como puro entretenimento de ação.
3Samurai Flamenco
Masayoshi Hazama não tem super-poderes, treino especial ou qualquer vantagem sobre um cidadão comum. Tem apenas uma vontade quase teimosa de ser herói, alimentada por uma fé desmesurada na justiça. É esse contraste, entre um ideal enorme e meios praticamente inexistentes, que dá à série o seu tom inicial, meio cómico, meio comovente.
Com o avançar dos episódios, porém, Samurai Flamenco muda de género várias vezes, passando de uma comédia sobre um herói amador para algo cada vez mais estranho e mais espetacular. É uma transformação deliberadamente exagerada, quase como se a série estivesse a testar até onde consegue esticar a paciência do espectador sem perder o fio à meada.
O que mantém tudo coeso é justamente aquilo que parecia mais frágil no início, a crença sincera de Masayoshi na justiça. Por trás de todo o caos, a série mantém um certo respeito pelo género que está a satirizar, o que a torna simultaneamente uma paródia e uma homenagem ao universo dos super-heróis.
2Go! Go! Loser Ranger!
À primeira vista, os Dragon Keepers parecem exatamente aquilo que qualquer fã de séries tokusatsu esperaria de uma equipa heróica: coloridos, carismáticos e sempre prontos a vencer o vilão da semana. O problema é que, nesta história, os vilões já perderam a guerra há muito tempo, e são forçados a continuar a desempenhar esse papel apenas para que os Dragon Keepers mantenham a sua imagem pública impecável.
É uma reviravolta que muda por completo a perspetiva do espectador. De repente, os heróis deixam de ser figuras a admirar e passam a representar um sistema construído sobre encenação e controlo.
Fighter D, um dos supostos vilões, é quem carrega o peso emocional dessa denúncia. Farto de servir de adereço num espetáculo que não escolheu, a sua luta deixa de ser apenas física e passa a ser uma tentativa de desmontar uma narrativa que todos à sua volta aceitaram sem questionar.
1My Hero Academia
À primeira vista, My Hero Academia parece um dos retratos mais otimistas que o género alguma vez produziu. Crianças frequentam uma escola especializada para aprender a controlar os seus quirks e, um dia, tornarem-se heróis profissionais reconhecidos por toda a sociedade. Tudo parece indicar um mundo onde o heroísmo finalmente encontrou uma estrutura estável e justa.
Mas essa estrutura começa a mostrar rachas assim que se olha com mais atenção. Ser herói não depende apenas de coragem ou de força, depende também de popularidade, de patrocínios e de uma pressão constante para manter uma boa imagem pública, algo que a série não hesita em expor através das dificuldades emocionais de personagens como Izuku ou Shoto.
Por outro lado, muitos dos vilões da série não nasceram maus, tornaram-se assim depois de a sociedade decidir ignorá-los. My Hero Academia não chega a defender que os heróis sejam inúteis, a maioria deles quer mesmo ajudar. O que a série demonstra, com bastante clareza, é que mesmo um sistema bem-intencionado pode acabar por falhar precisamente às pessoas que devia proteger.









