Depois de vários anos afastada dos holofotes, a lendária série de jogos de luta, DEAD OR ALIVE está finalmente de regresso com DEAD OR ALIVE 6 Last Round, a edição definitiva do sexto capítulo que pretende revitalizar uma das séries de luta 3D mais influentes da indústria. No entanto, esta nova versão não altera significativamente o núcleo da experiência original, basicamente atua como uma edição melhorada que reúne quase todos os conteúdos lançados para o jogo original de 2019.
Desde que a série criada pelo falecido “mestre” Tomonobu Itagaki fez a sua estreia nas arcadas em 1996, e posteriormente na SEGA Saturn, que construiu uma identidade muito própria dentro do género dos jogos de luta. Enquanto séries como TEKKEN e Virtua Fighter apostavam numa abordagem mais tradicional ao combate tridimensional, DEAD OR ALIVE destacou-se pela sensualidade das suas lutadoras, pela velocidade dos confrontos, pela importância dos contra-ataques e pela utilização estratégica dos cenários. As famosas Danger Zones, paredes destruíveis, quedas entre níveis, atropelamentos e outros elementos interativos, extremamente dolorosos, transformaram cada arena numa arma adicional que obrigou os jogadores a dominar não só os movimentos das personagens, como também o próprio espaço de combate.
No centro da gameplay continua a estar o icónico sistema triangular da série. Os golpes físicos vencem os arremessos, os arremessos superam os Holds, e os Holds anulam os golpes. Esta mecânica cria uma constante batalha psicológica entre os dois jogadores, na qual a capacidade de ler o adversário é tão importante quanto a execução de combos poderosos e vistosos. Ao contrário de muitos jogos de luta modernos, onde a pressão ofensiva domina frequentemente o ritmo dos combates, os jogos DEAD OR ALIVE recompensam fortemente a antecipação e a resposta no momento certo. Na sua essência continua a ser um dos jogos de luta mais frenéticos e intensos da atualidade.
Embora mantenha intactas as bases introduzidas em DEAD OR ALIVE 6, esta nova edição melhora alguns aspectos técnicos. A Team Ninja adicionou suporte para tecnologias de SuperSampling, melhorias na iluminação, novos shaders para as personagens e animações ligeiramente mais fluidas. Contudo, os jogadores competitivos continuarão a sentir a ausência de taxas de actualização superiores a 60 FPS. Muitos considerarão que 60 FPS são suficientes, mas num jogo onde as janelas de reacção, especialmente para os Holds, são tão importantes, uma maior fluidez traduz-se numa leitura mais clara das animações, timings mais consistentes e menor latência visual. Estes factores são fundamentais para a execução de punishers, whiffs, juggles e contra-ataques com precisão. Suspeito que os 60 FPS estejam profundamente integrados na estrutura das animações e que um aumento da taxa de actualização pudesse comprometer o funcionamento original do jogo.

Outro legado preservado em DEAD OR ALIVE 6 Last Round são as Fatal Rushes, uma mecânica que permite executar sequências automáticas de combos para jogadores menos experientes, e a Break Gauge, responsável pelos Break Blows e Break Holds. Estes sistemas foram inicialmente alvo de controvérsia entre os veteranos da comunidade competitiva, por serem considerados como atalhos. Contudo, ao longo dos anos acabaram por se integrar-naturalmente no metajogo, e ofereceram novas possibilidades estratégicas que não comprometeram totalmente a profundidade característica da série.
A Team Ninja aproveitou igualmente esta edição para melhorar diversos sistemas relacionados com a experiência online. O modo espectador foi refinado para apoiar torneios e transmissões competitivas, uma área cada vez mais relevante no género dos jogos de luta. Embora não tenha sido possível testar esta componente, a produção afirmou que o matchmaking foi reformulado para proporcionar maior estabilidade nos Ranked e Casual Matches, enquanto a infraestrutura de rede recebeu optimizações destinadas a reduzir o input lag e melhorar a sincronização entre jogadores. Julgo que ainda não estamos perante a implementação completa de um sistema rollback, mas foi referido que parte destas alterações servirá de base tecnológica para o futuro DEAD OR ALIVE 7. Neste sentido, DEAD OR ALIVE 6 Last Round também funciona como um verdadeiro campo de testes para as funcionalidades online do próximo capítulo, que está a ser desenvolvido de raiz para plataformas modernas. Para todos os públicos, a lista de lutadores foi expandida. O jogo inclui 29 personagens jogáveis e reuniu todas as personagens base de DEAD OR ALIVE 6 e várias anteriormente disponibilizadas através de DLC, que incluem Rachel e Momiji, vindas da série Ninja Gaiden. Para quem não possuía estes conteúdos adicionais, esta é uma das maiores vantagens desta edição, uma vez que a compra individual destas personagens ultrapassa largamente o preço do próprio jogo.
O elenco continua a apresentar uma das selecções mais variadas do género de luta 3D, ao reunir ninjas, wrestlers profissionais, especialistas em artes marciais militares e lutadores acrobáticos. Existem arquétipos para praticamente todos os estilos de jogo, desde personagens centradas em stances, grapplers e rushdown. Como se trata de um jogo profundamente focado no combate corpo a corpo, não existem verdadeiros zoners, embora lutadoras como Nyotengu permitam setups para esse efeito.
Contudo, nem todas as notícias são positivas. As personagens convidadas Mai Shiranui e Kula Diamond, oriundas da série The King of Fighters da SNK Corporation, não estão incluídas nesta edição. Alegadamente, continuam disponíveis no jogo nos modos versus controladas pelo CPU e em compra em separado, uma vez que permanecem visíveis na loja integrada do jogo, que ao aceder a cada redirecciona os jogadores para a Steam. Esta ausência deixa certamente um sabor amargo para muitos fãs que esperavam encontrar todas as personagens DLC reunidas numa edição definitiva.

Tal como aconteceu com DEAD OR ALIVE 5 esta versão conta também com uma edição “free-to-play” intitulada DEAD OR ALIVE 6 Last Round: Core Fighters. À semelhança do modelo anterior, permite experimentar o sistema de combate sem qualquer investimento inicial, ao oferecer uma selecção reduzida de personagens e acesso aos principais modos de jogo. Trata-se de uma estratégia claramente orientada para aumentar a base de jogadores e gerar interesse casual e competitivo antes da chegada de DEAD OR ALIVE 7. As principais diferenças entre uma edição “Completa” e Core Fighters continuam a estar relacionadas com o acesso ao elenco. Embora personagens como Kasumi, Marie Rose e NiCO estejam disponíveis gratuitamente, lutadores populares como Hitomi, Ayane e Bass (o nosso Hulkster) exigem a compra de licenças individuais para cada. Segundo a Team Ninja, esta abordagem pretende posicionar Core Fighters como uma porta de entrada acessível para novos jogadores enquanto possibilita experimentar as mecânicas fundamentais antes um investimento no pacote completo.
Os novos conteúdos seguem a mesma filosofia. Os cinco fatos exclusivos introduzidos em DEAD OR ALIVE 6 Last Round estão incluídos na edição Standard, mas os utilizadores de Core Fighters terão de os adquirir separadamente. O mesmo acontece com o modo História, cujo acesso requer a compra de uma chave de desbloqueio específica. Apesar destas limitações, a Team Ninja teve o cuidado de não restringir os elementos mais importantes de um jogo de luta. Os modos Arcade, Survival, Versus, Training e Ranked Online permanecem disponíveis para todos os jogadores e permitem aprender combos, estudar frame data, praticar matchups e até participar em Ranked Matches sem custos adicionais. Adicionalmente, várias funcionalidades secundárias estão acessíveis em ambas as versões. O modo DOA Quest, o renovado Photo Mode, o Theater Mode, a biblioteca musical e os lobbies online podem ser utilizados por todos os jogadores. Apenas algumas opções cosméticas mais avançadas, tais como determinadas personalizações visuais e alterações de cor de cabelo, permanecem exclusivas na edição completa. O renovado Photo Mode é, aliás, uma das novidades mais interessantes desta edição. Muito mais robusto do que um simples modo de fotografia, permite posicionar personagens livremente, alterar expressões faciais, ajustar a iluminação, criar cenas cinematográficas personalizadas e capturar imagens em alta resolução. Trata-se de uma funcionalidade claramente direccionada para criadores de conteúdo e fotógrafos virtuais.

Posso também confirmar que os jogadores que possuam a versão original de DEAD OR ALIVE 6 poderão transferir os seus conteúdos e progresso para DEAD OR ALIVE 6 Last Round, nomeadamente, os fatos adicionais, bilhetes premium e dados salvos, tais como os Combo Challenges ou as estrelas obtidas na realização de condições no modo DOA Quest. No entanto, os achievements terão de ser desbloqueados novamente, apesar de serem exatamente os mesmos… com uma melhor resolução nos ícones.
Visualmente, DEAD OR ALIVE 6 Last Round continua a destacar-se pela elevada qualidade das suas animações, pelas transições extremamente fluidas entre golpes e pela forma dinâmica como os cenários interagem com a ação. O sistema de perigos ambientais e as tradicionais transições entre áreas mantêm-se como alguns dos elementos mais distintivos da série que contribuem para um ritmo de combate mais cinematográfico e espetacular do que o oferecido por muitos dos seus concorrentes.
Contudo, trata-se de um título originalmente desenvolvido para a geração anterior de consolas, algo que começa a ser percetível em determinados aspetos visuais. Apesar das melhorias introduzidas nesta edição, algumas texturas revelam sinais da passagem do tempo, sobretudo nos inúmeros fatos disponíveis para cada personagem, onde a qualidade dos materiais e dos detalhes nem sempre acompanha padrões visuais mais modernos. Como é tradição nesta série, temos uma enorme variedade de fatos cosméticos para o elenco. Esta é, sem dúvida, uma das imagens de marca de DEAD OR ALIVE, e um dos seus aspetos mais controversos. Ao longo dos anos, os conteúdos adicionais dedicados aos fatos chegaram frequentemente a ultrapassar, em valor acumulado o preço do próprio jogo e reforçaram a aposta da produção no apelo estético das personagens femininas e nos elementos de fanservice.

Esta estratégia comercial acabou por contribuir para uma perceção pública que, por vezes, relegou para segundo plano as qualidades do sistema de combate. Muitos jogadores e entusiastas do género defendem que DEAD OR ALIVE nunca recebeu o reconhecimento na FGC que merecia precisamente porque a discussão em torno da série esteve demasiadas vezes centrada na sua vertente mais sensual, em detrimento da profundidade mecânica, acessibilidade e qualidade técnica que sempre caracterizaram os seus combates.
Na sua época, a Team Ninja procurou reposicionar a série DEAD OR ALIVE como uma referência competitiva dentro do seu género ao tentar reduzir a dependência do fanservice que sempre caracterizou a série day one, este elemento até se subdesenvolveu para o spin-off DEAD OR ALIVE Xtreme Volleyball. No entanto, a forte resistência da comunidade mais tradicional acabou por impedir uma mudança mais profunda de identidade. Mesmo assim muitos jogadores recordar-se-ão certamente do slogan “I Am a Fighter”, utilizado na campanha promocional de DEAD OR ALIVE 5 para a PlayStation 3 e XBOX 360, que procurava destacar a profundidade técnica do sistema de combate e a vertente competitiva da série. Numa tentativa de modernizar a série para o hardware atual, a KOEI Tecmo e a Team Ninja implementaram o motor gráfico OBORO em pelo menos um dos cenários disponíveis, numa decisão que poderá servir como demonstração tecnológica do que poderemos encontrar em DEAD OR ALIVE 7. Contudo, a sensação que fica é a de uma implementação incompleta, uma vez que a renovação visual não se estende de forma consistente ao restante conteúdo do jogo.
A seguir uma prática já habitual da editora no PC, o leque de opções gráficas continua relativamente limitado. Para além do suporte para tecnologias de supersampling e de reconstrução de imagem, tais como a AMD FSR 2 e NVIDIA DLSS, os utilizadores encontram apenas definições básicas relacionadas com a qualidade das sombras, texturas e resolução de renderização. No entanto, graças à reduzida exigência técnica do motor e uma boa otimização no geral, o jogo apresenta um desempenho bastante sólido em hardware moderno, nunca oscilou dos 60 FPS a 4K na nossa configuração, e garanto que funcionará sem dificuldades quer em outras builds modernas, mesmo com uns anos em cima, como em dispositivos portáteis de gaming que incluem as primeiras gerações da Steam Deck e a da ROG Ally.

No campo sonoro, DEAD OR ALIVE 6: Last Round mantém as vozes originais em japonês para preservar a identidade da série e as interpretações que os fãs conhecem desde DEAD OR ALIVE 2 na SEGA Dreamcast em 2000. A banda sonora, os efeitos sonoros e a restante componente áudio permanecem igualmente inalterados face à versão lançada em 2019, julgo que aqui era interessante a inclusão de remasterizações dos temas originais ou uma banda sonora completamente diferente para distinguir o jogo original desta nova versão.

DEAD OR ALIVE 6: Last Round representa um passo importante na revitalização de uma série que, durante vários anos, permaneceu na sombra dos seus principais concorrentes do género. Ao modernizar a componente técnica, reforçar a infraestrutura online, expandir as opções de personalização e facilitar o acesso a novos jogadores através do modelo Core Fighters, a Team Ninja demonstra a intenção de reposicionar a série no panorama competitivo atual e preparar o terreno para DEAD OR ALIVE 7.
Contudo, para os jogadores que já possuem a versão original de DEAD OR ALIVE 6, os argumentos para justificar esta atualização poderão revelar-se menos convincentes. Apesar das melhorias introduzidas, esta edição funciona mais como uma consolidação e aperfeiçoamento da versão existente do que como uma transformação significativa da fórmula. Neste sentido, DEAD OR ALIVE 6 Last Round assume sobretudo o papel de uma ponte de transição que considero necessária para garantir que a série continua a evoluir e a manter-se viva num mercado cada vez mais exigente.
Para novos jogadores, a recomendação é bastante mais simples, especialmente graças à disponibilidade de uma versão gratuita robusta e acessível. Embora não represente uma revolução, DEAD OR ALIVE 6: Last Round representa uma evolução que consegue minimamente cumprir a missão de preservar o legado criado por Itagaki e levar a série para um futuro mais promissor.










