Quem acompanha o percurso da Yacht Club Games sabe que o estúdio tem uma paixão gigantesca pela pixel art, algo que se tornou a sua imagem de marca desde os primeiros videojogos. Depois do sucesso de Shovel Knight, seria natural esperar que a equipa continuasse a apostar nessa série. Porém, o estúdio decidiu arriscar em algo diferente.
Em vez de se agarrar ao que era previsível, depois de 6 anos, trouxeram-nos Mina the Hollower, uma aventura mais sombria e misteriosa que consegue proporcionar aquela sensação nostálgica já tão característica das suas produções.
Nesta jornada a protagonista Mina é chamada à ilha de Tenebrous depois de um pedido de auxílio do Barão Lionel. À chegada, percebe que a situação está longe de estar controlada. Os geradores responsáveis por proteger a ilha deixaram de funcionar, o que deu origem a um território infestado por todo o tipo de criaturas hostis. Depois de uma breve introdução, a cidade de Ossex torna-se o seu principal ponto de referência, servindo de base para uma aventura que a leva a percorrer cada canto da ilha à procura de um jeito de restaurar os seis geradores.

Não é uma história com grande impacto, mas à medida que exploramos e conhecemos os estranhos habitantes da ilha vamos descobrimos mais sobre os acontecimentos e o que se está a passar realmente. A missão de reparação acaba por nos levar a desvendar outros mistérios, enquanto as tarefas secundárias ajudam a dar mais substância à narrativa.
Assim que começamos a jogar vemos que Mina the Hollower foi beber de clássicos do Game Boy Color, como The Legend of Zelda e Dragon Quest, adotando uma perspetiva vista de cima para baixo com foco na exploração e na ação e aventura. No entanto, percebe-se que a produtora não quis ficar por aí. Existem também fortes influências do género soulslike, especialmente no modo como o jogo lida com a exploração, desafio e a morte.
A ilha de Tenebrous não perdoa aos jogadores mais descuidados. Os inimigos tendem a castigar movimentos não planeados com facilidade e, quando morremos, perdemos os pontos de experiência acumulados até conseguirmos regressar ao local para os recuperar. Isto não quer dizer que o jogo se torne excessivamente punitivo. O desafio está presente, mas com a finalidade de incentivar a observação e a aprendizagem dos padrões dos inimigos, em vez de insistir em atacarmos sem antes pensar.
E esse pormenor nota-se quando Mina the Hollower nos faz sentir que realmente estamos a aventurar-nos pelo desconhecido. Em vez de apontar o caminho, prefere confiar na nossa orientação. Somos encorajados a falar com os habitantes, a memorizar os locais por onde passamos e a explorar por iniciativa própria. É uma ideologia que nos envolve inteiramente com o mundo do jogo e que torna cada descoberta mais compensadora.

Mina não é só uma cientista de renome, mas também uma aventureira extremamente habilidosa em combate. A princípio contamos apenas com uma arma, mas à medida que apalpamos terreno vamos desbloqueando novas opções que vão de um caixão, martelo e até duas adagas. A minha arma de eleição foi a Nightstar, que me fez lembrar a lendária Vampire Killer. Rápida e ideal para quem gosta de manter a distância dos inimigos, como eu, acabou por se tornar a minha companheira de eleição durante grande parte da aventura.
Além disso, encontramos armas secundárias que lembram alguns itens de Castlevania, funcionando como ferramentas que são perfeitas para auxiliar em combate. Entre machados arremessáveis, facas giratórias e outros equipamentos criativos, como um chapéu que permite planar ou bloquear ataques, temos sempre algo novo a descobrir e a experimentar.
Mina the Hollower é o maior jogo do estúdio até à data, ultrapassando em dimensão de todo o conteúdo de Shovel Knight: Treasure Trove.
Mas o que mais impressiona mesmo é a capacidade de Mina se deslocar por momentos debaixo do solo. Esta habilidade é altamente versátil e é sem dúvida a aptidão principal da nossa protagonista. Com ela, por exemplo, podemos evitar ataques e ultrapassar obstáculos ambientais. É uma mecânica simples na teoria, mas que o jogo explora de forma única durante toda a aventura.
Entre novas armas, novos inimigos e segredos por descobrir, há sempre algo aliciante à espera na próxima área. A exploração é constantemente recompensada e nunca sentimos que estamos a perder tempo a conhecer melhor a ilha. Pelo contrário, muitos dos momentos mais interessantes surgem justamente desses pequenos desvios.

Outro aspeto a destacar é a forma como o mundo se vai interligando. À medida que exploramos, desbloqueamos atalhos e passagens que nos levam de volta a locais visitados várias horas antes. Essa sensação de perceber como cada área está ligada às restantes reforça a identidade da ilha e torna a exploração ainda mais acessível e gratificante.
Há também uma grande variedade de inimigos, ambientes naturais hostis, bosses aterrorizantes e encontros inesperados com personagens cheias de personalidade e excentricidades. É parte desta diversidade que mantém a aventura fresca ao longo de dezenas de horas.
A própria progressão da personagem foi pensada para se encaixar naturalmente à estrutura do jogo. À medida que exploramos vamos melhorar os seus atributos através dos ossos obtidos nos cenários ou a derrotar inimigos, adquirir novas ferramentas e a encontrar itens que adicionam efeitos especiais a Mina, como a possibilidade de ressuscitar após uma derrota ou aumentar o número de frascos de vida disponíveis. Não é um sistema que se diga inovador, mas entrega variedade suficiente para adaptar a experiência ao estilo de cada um.

Se houve algo que senti falta durante a minha passagem por Tenebrous foi a ausência de um sistema de marcação no mapa. Ao termos um mundo relativamente aberto e abundantes de segredos, dei por mim a tentar lembrar onde tinha visto determinados caminhos bloqueados ou zonas que mereciam uma nova visita. Acabei por recorrer a um caderno para tomar notas, algo que até aprecio, mas a ideia de adicionar marcadores não era mau pensado.
A própria liberdade pode igualmente dividir opiniões. O mundo de Mina the Hollower está cheio de surpresas e é verdadeiramente interessante de explorar, mas cada bioma apresenta graus de dificuldade diferentes. Como o jogo não nos diz para onde devemos ir, aconteceu-me algumas vezes entrar em zonas para as quais ainda não estava devidamente preparado. Para alguns jogadores isto fará parte da diversão e da descoberta, mas para outros, pode não ser muito agradável.

Cada vez mais vemos produtoras a recuperar o charme visual dos videojogos clássicos, e em Mina the Hollower o que não falta é precisamente esse encanto. Inspirado na estética 8-bits dos jogos do Game Boy Color, o título apresenta uma estética fantástica que consegue nos fazer viajar no tempo, sem abdicar do toque moderno da Yacht Club Games. É um universo simultaneamente vivo e sombrio, onde dá gosto contemplar a forma como cada ambiente e personagens foram construídos frame por frame. É um excelente título para nos acompanhar na Nintendo Switch 2, sobretudo devido à sua portabilidade e a sua leveza gráfica que garante um desempenho excelente na consola.
Por detrás da sua aparência retro esconde-se uma história inspirada principalmente em Chrono Trigger e na literatura gótica de Frankenstein, o que ajuda a explicar o tom soturno da aventura.
A própria banda sonora, criada por Jake Kaufman, colaborador habitual da Yacht Club Games, combina perfeitamente com o que vemos e sentimos, alcançando músicas em chiptune bem ritmadas que trazem uma energia contagiante para a ação.
Mina the Hollower despertou a minha curiosidade desde os primeiros anúncios e tinha praticamente a certeza de que seria um jogo ao meu gosto. Felizmente, não só correspondeu às expectativas como conseguiu surpreender-me. A sua jogabilidade exigente, mas recompensadora, alia-se a um mundo visualmente apelativo e cheio de personalidade, que desperta constantemente a vontade de descobrir o que se esconde para lá da próxima área.
Não é um jogo pensado para quem procura uma experiência descontraída e mais acessível, mas acredito que irá conquistar os jogadores que apreciam exploração, desafio e um design mais clássico. Acima de tudo, é mais uma demonstração do talento da Yacht Club Games para recuperar a magia dos jogos retro em pixel art sem deixar de criar um produto com identidade própria.











