
Akane Shimizu, autora e ilustradora do mangá Cells at Work! (Hataraku Saibou), tornou públicas, entre 1 e 3 de julho, uma série de mensagens na rede social X onde descreveu anos de assédio moral, negligência editorial e pressão psicológica por parte da Kodansha durante a serialização da obra. O relato levou a editora japonesa a emitir um pedido de desculpas formal e motivou vários outros mangakás a partilharem experiências semelhantes com as respetivas equipas editoriais.
O que Akane Shimizu denunciou
Segundo o relato da autora, os problemas remontam a 2014, altura em que Cells at Work começou a ser preparado para publicação na revista Monthly Shonen Sirius. Shimizu conta que o editor responsável, identificado apenas como “Sr. A”, lhe garantiu que a obra teria acompanhamento médico especializado, algo essencial para uma história centrada na anatomia e no funcionamento do corpo humano.
Essa supervisão, segundo a autora, nunca chegou a ser implementada de forma consistente. Quando o primeiro volume saiu em 2015, continha imprecisões médicas e não indicava qualquer supervisor. Os leitores acabaram por criticar a falta de rigor científico, responsabilizando diretamente Shimizu por erros que, segundo ela, deveriam ter sido corrigidos pela editora antes da publicação.
Perante os pedidos repetidos de melhoria, a autora afirma ter recebido respostas desvalorizadas do seu editor, que lhe terá dito, segundo o mesmo relato: “É só um mangá, por isso não há problema em ser impreciso”. Sem apoio da editora, Shimizu passou a comprar, do próprio bolso, livros de referência médica para tentar garantir algum rigor à narrativa.
A situação relativa aos assistentes de produção seguiu um caminho parecido. Shimizu alega que nunca lhe foram disponibilizados assistentes profissionais, algo habitual para autores já publicados, sendo obrigada a recorrer a antigos colegas sem experiência, alguns dos quais recusavam tarefas fundamentais do processo de produção. O resultado foram noites em claro sucessivas para cumprir prazos.
A autora insistiu junto da editora sobre estas condições de trabalho, terá sido acusada de estar sempre a “culpar os outros”, numa altura em que a pressão a levou a ponderar atirar-se para a linha de um comboio. Pedidos de melhoria feitos em 2017 e, mais tarde, em 2018, pouco antes da estreia do anime, tiveram promessas de mudança que, segundo Shimizu, nunca se concretizaram.
Estas circunstâncias, associadas a abusos financeiros e sexuais sofridos por parte de um familiar próximo, contribuíram para que a autora desenvolvesse depressão, tricotilomania e perturbação de stress pós-traumático ao longo do período de publicação, chegando a atravessar pensamentos suicidas, conforme já tinha sido avançado num desabafo anterior.
A questão dos créditos em obras derivadas
Outro dos pontos levantados por Shimizu prende-se com a forma como o seu nome foi tratado em projetos posteriores ao fim da serialização, que terminou em 2021. Depois de pedir, em 2023, para encerrar a relação com o departamento editorial responsável, a autora descobriu que a menção “autora original” numa obra derivada tinha sido substituída por “colaboração”, sem o seu consentimento.
Já em 2026, Shimizu apercebeu-se de que o seu nome tinha sido completamente removido da edição de 2019 do guia ilustrado de Cells at Work, sendo o crédito atribuído ao departamento editorial da revista Sirius, tanto na capa como na ficha técnica. Questionada a editora sobre o motivo, a resposta interna terá sido, segundo Shimizu: “Como estava sempre insatisfeita com a supervisão médica, retirámos o seu nome para evitar problemas caso o conteúdo tivesse erros”.
A resposta da Kodansha
Face à repercussão gerada pelas publicações de Shimizu, a Kodansha respondeu publicamente a 3 de julho com um comunicado de desculpas. Segundo o texto, divulgado no site oficial da editora, “apesar dos pedidos repetidos da Sra. Shimizu para melhorar o seu ambiente de trabalho durante a serialização, não conseguimos estabelecer um sistema adequado de supervisão médica nem proporcionar um ambiente de criação apropriado, incluindo a organização de assistentes”.
A editora reconheceu ainda falhas na gestão dos créditos em spin-offs e materiais relacionados com o anime, admitindo que “o envolvimento da autora nestes projetos, incluindo a adaptação em live-action, não foi devidamente acordado com antecedência”, o que lhe terá causado, nas palavras da própria Kodansha, “um peso considerável e um forte desgaste emocional”.
Em resposta ao comunicado, Akane Shimizu confirmou nas redes sociais ter recebido uma carta formal de desculpas da editora, acrescentando que os spin-offs, colaborações, obras licenciadas e novos projetos em curso só avançam atualmente após a sua aprovação pessoal, e que construiu uma relação positiva com o editor que a acompanha neste momento. A autora não esclareceu se o antigo editor responsável pelas alegações continua a trabalhar na Kodansha.
Outros mangakás juntam-se ao desabafo
O caso de Shimizu abriu espaço para que outros autores partilhassem experiências semelhantes, segundo p jornal japonês Sponichi Anex:
- Kayatamaru, autora de The Girl, the Shovel, and the Evil Eye, revelou ter passado mais de um ano sem receber os direitos de autor referentes a vendas internacionais de e-books, sem qualquer pedido de desculpas por parte da equipa editorial. A autora afirma ainda que as suas preocupações com a própria saúde foram ignoradas, o que resultou numa pausa forçada de seis meses depois de o seu peso ter atingido valores considerados de risco de vida. Kayatamaru mantém-se atualmente medicada.
- Izuko Fujiya, conhecida pelo mangá Slime Slayer: From Zero to Black Steel King, explicou pela primeira vez por que motivo a sua série Sayonara no Parade, publicada na Monthly Shonen Sirius, ficou incompleta. Segundo a autora, conflitos com a equipa editorial entre 2016 e 2019 tornaram impossível continuar a obra, tanto a nível emocional como pelas condições de trabalho.
- Q-ta Minami reagiu ao caso com uma mensagem direta: “Costumava resignar-me à ideia de que era tratado assim porque não era um autor de sucesso e que era simplesmente assim que as coisas funcionavam. Mas se até a Shimizu continuou a ser tão mal tratada pelo seu editor depois de alcançar tanto sucesso, então realmente não há esperança. O facto de ela ainda estar viva e a continuar a criar mangá é um milagre”.
- Meiji Merou, autor de Magical Girl and Narco Wars, publicada na Jump+, contou ter sido repetidamente informado por antigos editores de que era inferior a outros autores e de que “acabaria por ser um fracassado”, acrescentando: “havia uma tendência, na altura, para tentar moldar os autores à força e encurralá-los emocionalmente”.
Izuko Fujiya manifestou ainda a esperança de que o testemunho de Shimizu contribua para melhorar, de forma efetiva, a forma como os mangakás são tratados pelas editoras japonesas.
Neste momento, Akane Shimizu mantém conversações diretas com a Kodansha para resolver as questões pendentes relacionadas com o seu percurso na editora, tendo já esclarecido as situações relativas aos créditos nas obras derivadas da franquia.









