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Aniplex pondera recorrer à inteligência artificial, mas só sob uma condição do novo presidente

Aniplex revela estratégia global e posição sobre inteligência artificial

Aniplex logo

O novo presidente da Aniplex, Shu Nishimoto, quebrou finalmente o silêncio sobre um dos temas mais delicados da indústria anime nos últimos anos, o papel da inteligência artificial na produção de conteúdos. Em declarações à revista norte-americana Variety, na sua primeira entrevista alargada desde que assumiu o cargo, Nishimoto deixou claro que a empresa não fecha a porta à tecnologia, mas apenas se esta servir os próprios criadores.

Segundo o responsável, a prioridade da produtora continua a ser o trabalho conjunto com diretores, animadores e demais profissionais envolvidos nas suas produções. “A prioridade máxima da Aniplex é criar obras em conjunto com os criadores, incluindo os animadores. Se a inteligência artificial puder ter um impacto positivo no trabalho dos criadores, ou contribuir para o desenvolvimento do processo criativo, estaríamos abertos a considerar cuidadosamente a sua utilização”, afirmou à Variety.

Identidade japonesa acima da expansão internacional

Nishimoto assumiu a presidência da Aniplex em abril, depois de ter passado por várias funções dentro do grupo Sony desde que ali entrou em 2009, incluindo a liderança da Aniplex of America entre 2017 e o seu regresso ao Japão. Na conversa com a Variety, garantiu que a chegada a novos públicos internacionais não implicará alterações à identidade criativa das produções da empresa.

O responsável descreve o anime como um meio narrativo original, moldado pela tradição japonesa de contar histórias, pela direção visual e pelo contexto cultural do país. Para Nishimoto, o objetivo passa por reforçar essa singularidade em vez de a diluir para agradar a mercados fora do Japão: “é importante preservar a essência da criatividade japonesa e entregar o seu apelo de forma mais profunda aos fãs em cada região”.

Mercado externo já vale mais de metade da indústria

Os números ajudam a explicar a importância que a Aniplex atribui à sua estratégia internacional. De acordo com Nishimoto, os mercados fora do Japão representam atualmente mais de metade dos cerca de 4 biliões de ienes (aproximadamente 25 mil milhões de dólares) que movem a indústria japonesa de anime. Para continuar a crescer nesse território, a empresa pretende expandir cada uma das suas propriedades intelectuais através de múltiplos formatos, entre filmes, plataformas de streaming, videojogos, merchandising, eventos ao vivo e exposições, sempre em articulação com parceiros regionais.

Neste contexto, Nishimoto destacou o valor do ecossistema da Sony, apontando a Crunchyroll como um parceiro essencial, cujo alcance global e conhecimento das audiências ajudam a moldar a estratégia internacional da Aniplex. Segundo o próprio, a colaboração entre as diferentes empresas da Sony permite tratar as suas propriedades intelectuais como marcas globais de longo prazo, em vez de sucessos pontuais.

O presidente teve ainda palavras de reconhecimento para a A-1 Pictures e a CloverWorks, os dois estúdios de animação detidos pela Aniplex, considerando que ambos evoluíram para estúdios capazes de produzir anime de grande qualidade para audiências em todo o mundo. Os resultados financeiros mais recentes das duas empresas, no entanto, contam histórias bem diferentes, enquanto a A-1 Pictures, responsável por Solo Leveling, regressou aos lucros no último ano fiscal, a CloverWorks voltou a registar prejuízo, o segundo consecutivo.

A expansão da Aniplex já se tinha traduzido, ainda este ano, na aquisição da produtora EGG FIRM, responsável por séries como Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation e Is It Wrong to Try to Pick Up Girls in a Dungeon?, que passam agora a fazer parte do portefólio do grupo.

Uma posição mais cautelosa do que a da Crunchyroll

As declarações de Nishimoto surgem numa altura em que outras empresas ligadas ao universo Sony têm sido confrontadas com perguntas semelhantes. O diretor executivo da Crunchyroll, Rahul Purini, já tinha assumido publicamente que a plataforma deixa a decisão sobre o uso de tecnologia ao critério dos criadores, mas exclui por completo a inteligência artificial dos seus próprios processos de legendagem e dobragem.

Questionado sobre a dificuldade de gerir este tema, Purini foi direto: “Diria que não é assim tão difícil! Somos muito claros quanto ao que faremos e ao que não faremos. Sempre dissemos que a autenticidade do criador é algo muito importante para nós. Queremos garantir que os criadores possam contar as histórias da forma como as querem contar, seja qual for a tecnologia que queiram usar, mas a intenção é do criador”. Sobre a posição da própria Crunchyroll, acrescentou: “Eles é que contam a história, e nós queremos ser autênticos em relação à sua narrativa, e é por isso que não estamos a usar inteligência artificial no nosso processo criativo – seja nas legendas, seja na dobragem”.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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