Se pudesse descrever Crimson Desert numa frase, diria que é uma tentativa de colocar “tudo ao mesmo tempo em todo o lado”. Evidentemente que a Pearl Abyss foi ambiciosa, levando os principais pilares do seu jogo a um nível que poucas vezes vimos em outros produtos do mesmo género. O que o estúdio não adiantou é que a maioria das ideias parecem demasiado complexas, quase como se tivessem feito uma colagem de vários conceitos já conhecidos de títulos como Assassin ‘s Creed, Red Dead Redemption 2 ou mesmo The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom. Ainda assim, é uma jornada notável, com um combate e uma exploração que brilham da melhor forma.
A narrativa de Crimson Desert passa-se no continente de Pywel através dos olhos de Kliff, um guerreiro que lidera o bando de mercenários conhecido como os Greymanes. Depois de ver o seu clã despedaçado e de aparecer inexplicavelmente em Hernand, o seu objetivo começa por perceber o que aconteceu com os seus companheiros e obviamente voltar a encontrá-los para erguer o seu bando. No caminho, vamos dar de caras com outros conflitos, sejam eles políticos ou guerras entre facções, ao mesmo tempo que lutamos contra os inimigos deste mundo.

Independentemente de Kliff ser o fio condutor deste extenso enredo, o jogo permite-nos alternar para outras duas figuras, a jovem Damiane e o Orc Oongka. Esta dinâmica é interessante porque, embora a história principal se mantenha fiel ao percurso do protagonista, estas personagens secundárias trazem novas formas de encarar o combate, a exploração e ainda missões próprias. A história não é propriamente inovadora e, por vezes, deixa-nos um pouco perdidos, mas acaba por engrenar depois de passarmos os primeiros capítulos. Não esperem um argumento premiado ou até mesmo um leque de personagens inesquecíveis. Kliff, por exemplo, parece uma tentativa de recriação de Geralt de Rivia, e mesmo não tendo o carisma do icónico Bruxo, é inevitável não encontrar semelhanças seja a nível de estrutura, resposta às situações e até mesmo do timbre de voz. Ainda assim, o enredo faz o suficiente para nos manter interessados no seu mundo, lendas e nas missões secundárias, que acabam por salvar a experiência narrativa.
Por esta altura, a maioria dos jogadores sabe que o foco da experiência é o sistema de combate, que se apresenta de uma forma incrivelmente robusta. A versatilidade é a palavra de ordem, permitindo abordagens que vão desde o uso de espada e escudo, ideal para quem procura o equilíbrio entre ataque e defesa, até opções muito mais exóticas como lanças, machados ou espadas duplas. Rapidamente percebemos que o jogo vai mais longe neste ponto, entregando uma boa versatilidade na movimentação e nas técnicas que desbloqueamos, juntando manobras de luta livre que, ao princípio podem soar estranhas mas depois tornam-se bastante úteis e divertidas de utilizar.

A profundidade é reforçada pelos elementos mágicos, onde podemos imbuir as armas com poderes elementais ou utilizar a nossa energia para empurrar os inimigos. Mas não se enganem, a agressividade aqui não é tudo. A defesa exige perícia, com desvios e bloqueios que precisam de um timing preciso, sob a pena de esgotarmos a nossa resistência num piscar de olhos e de ficarmos vulneráveis. O combate acaba por espelhar a vontade do jogador, funcionando de forma acessível para quem prefere a simplicidade, mas revelando camadas de complexidade à medida que a nossa mestria evolui.
Originalmente concebido como um MMORPG, Crimson Desert acabou por se tornar num jogo de ação e aventura de mundo aberto focado num único jogador. Esta transição é evidente ao longo da jornada, uma vez que o jogo preserva elementos de design de um mundo persistente. Se, por um lado, isto garante um mundo vibrante, por outro, resulta numa estrutura de missões mais genérica e menos impactante do que seria esperado numa narrativa linear.
Há ainda uma gama incrível de inimigos que proporcionam um desafio generoso, mas a experiência fica ainda mais emocionante contra os bosses, que trazem uma dinâmica muito mais interativa para o combate. No entanto, assim que a nossa personagem atinge um nível de evolução mais avançado, estes confrontos perdem grande parte do seu desafio, o que é uma pena.
A exploração reflete esta mesma complexidade, num mundo vasto que parece interminável. Em Pywel, a escala é impressionante, se um ponto no horizonte é visível, é alcançável. Crimson Desert abraça o fantástico sem medos, combinando estilos como medieval e o futurista de forma audaz. Além disso, a diversidade é constante, com cada região a distinguir-se através das suas espécies, ecossistemas e raças distintas.

A verticalidade é também um dos pilares da jogabilidade, incentivando a escalar montanhas, a entrar e explorar edifícios em ruínas, ou a caminhar por longas florestas. Para navegar neste território sem fim, o jogo oferece um conjunto de ferramentas invejáveis, desde um gancho mágico que nos permite controlar elementos físicos e a possibilidade de voarmos por algum tempo, que evoca uma sensação de liberdade quase heróica. Andar a cavalo é também uma boa opção para descobrirmos as regiões, mas o ponto mais fascinante diria que é mesmo quando nos é permitido domar ursos, lobos ou até dragões como se tivéssemos num Game of Thrones. Para quem prefere algo mais tradicional, existem balões de ar quente e barcos, o que é essencial visto que os pontos de viagem surgem em locais muito específicos.
O único aspecto negativo a apontar na navegação é o timing dos saltos que parecem não corresponder quando carregamos no botão do comando. A sensação que fica é que os controlos precisam de ser melhorados e simplificados, já que isso também se reflete no combate, parecendo que estamos a lidar com um delay constante. Os próprios truques que adquirimos tornam-se difíceis de controlar, cada um tem as suas combinações que nem sempre fica fácil de decorar, parecendo que estamos a jogar um jogo de luta.
Quanto à evolução da personagem, o jogo afasta-se dos sistemas tradicionais de níveis e classes. Em vez disso, a progressão é ditada pelos Artefactos do Abismo, fragmentos que melhoram os atributos base e desbloqueiam novas habilidades de combate e resolução de enigmas. O equipamento também pode ser personalizado através de Abyss Gears e melhorias em ferreiros. Além disso, o jogo incentiva-nos a aprender através da observação; podemos adquirir novas técnicas apenas ao observar os NPCs ou inimigos a lutar.

Algo que também aprecio é a quantidade de tarefas que temos para fazer no mundo, impedindo que o ritmo do jogo se torne monótono. Temos o acampamento dos Greymanes que funciona como o nosso porto de abrigo, evoluindo de uma base simples para uma propriedade completa onde podemos cultivar, cozinhar e decorar. A culinária, em particular, assume um papel vital, sendo a fonte principal de melhorias de atributos e cura. O mundo ainda se sente vivo através da economia e da reputação, podemos recrutar mercenários para missões remotas ou libertar vilas ocupadas por bandidos para reativar mercados e ganhar a confiança da população local. Para descansar das lutas, existe uma panóplia de minijogos que vão desde corridas de cavalos até à pesca e à caça de recompensas. Estamos diante um mundo surpreendentemente vivo, onde há sempre algo para fazer e para descobrir, garantindo que a estadia em Pywel seja longa.
O que realmente impede Crimson Desert de ser um jogo autêntico é o facto de não apresentar um conceito ou mecânicas que sejam verdadeiramente originais, uma vez que quase tudo o que fazemos parece uma adaptação de sistemas que já vimos e experimentamos noutros títulos de sucesso, em vez de nos oferecer algo novo e inovador que lhe desse uma identidade própria e o fizesse destacar-se de alguma forma de tudo o resto.

Na PlayStation 5, o desempenho do título da Pearl Abyss revela-se bastante divisório, apresentando um contraste constante entre o deslumbrante e o frustrante. Por um lado, não faltam momentos de uma beleza visual de tirar o fôlego, com paisagens que nos obrigam a parar para admirar cada pormenor, desde a delicadeza das flores e as partículas a pairar no ar até ao comportamento natural dos animais que povoam o cenário; por outro lado, essa imersão é muitas vezes quebrada por falhas técnicas, como personagens que atravessam paredes, texturas de areia que mais parecem petróleo ou o súbito carregamento de elementos à nossa frente. Mesmo com três vertentes gráficas à escolha, todas elas apresentam problemas, sendo o mais gritante a queda abrupta da fluidez durante os combates mais intensos ou nas cidades de maior dimensão, ainda que seja justo referir que a produtora sul-coreana tem trabalhado arduamente para corrigir estes erros através de atualizações constantes que têm tornado a aventura cada vez mais apelativa.
Para criar as paisagens de Pywel, a equipa inspirou-se em cenários reais, desde as terras altas da Escócia até aos fiordes da Noruega e as regiões áridas de Marrocos.
A banda sonora acabou por não ser um ponto marcante da experiência por me soar demasiado genérica e semelhante a tantas outras, como por exemplo a música de carregamento antes de entrarmos no continente, que soa demasiado idêntica ao tema “Time” de Hans Zimmer do filme Inception de Christopher Nolan. Infelizmente, a falta de convicção do elenco de voz também não ajuda, resultando em diálogos que soam artificiais e sem emoção como se estivessem apenas a cumprir a leitura de um guião sem compreenderem o contexto das cenas.

Não restam dúvidas de que a Pearl Abyss estudou a fundo muitas ideias de sucesso para criar Crimson Desert. É um jogo que acredito que irá moldar os próximos projetos de mundo aberto ao elevar a fasquia do que é um mundo interessante de explorar e um combate intenso e dinâmico. Fica apenas o desejo de que os próximos passos deste género consigam ser mais sólidos no que toca à narrativa, mais originais no que diz respeito a conceitos e, acima de tudo, que apresentem um desempenho técnico mais estável e polido nas consolas do que aquele que encontramos aqui no inicio.







