
A crise dos semicondutores voltou, e desta vez com uma causa diferente. Não é uma pandemia a fechar fábricas nem um ciclone a paralisar portos, é a corrida à inteligência artificial a sugar os componentes que toda a indústria tecnológica precisa. Depois de meses em que os preços da RAM e do armazenamento dispararam, a Intel veio agora confirmar o que muitos analistas já suspeitavam, os processadores são o próximo na fila.
O aviso surgiu durante a chamada de resultados do primeiro trimestre de 2026 da Intel. A empresa explicou que a mudança de foco dos centros de dados de IA, que estão a passar da fase de treino para a fase de inferência, vai aumentar consideravelmente a procura de CPUs. A distinção entre as duas fases é importante para perceber o que está a acontecer.
Na fase de treino, os modelos de linguagem são alimentados com enormes quantidades de dados para construir as suas capacidades. É um processo que depende sobretudo de GPUs, por causa da enorme capacidade de processamento paralelo que exigem. A inferência é diferente, é quando o modelo já treinado responde a perguntas dos utilizadores, gera texto, analisa documentos. E essa fase depende muito mais de CPU, especialmente nos chamados sistemas de IA agêntica, onde a intervenção humana é mínima e o modelo executa sequências complexas de tarefas de forma autónoma.
Segundo a Intel, os servidores de IA utilizavam até agora um CPU para cada quatro a oito GPUs. Com a IA agêntica a ganhar terreno, essa proporção está a caminhar para um CPU por GPU, o que significa oito vezes mais processadores numa configuração de topo. O CFO da Intel, David Zinsner, foi direto durante a chamada de resultados: “À medida que se pensa na taxa de crescimento daqui para a frente, [a procura de CPU] vai tornar-se uma parte significativa do [mercado total endereçável] de IA”.
Os efeitos já são visíveis nos números. Os preços dos CPUs de servidor subiram entre 10% e 20% desde março, com os processadores para consumidor a registar aumentos de 5% a 10% no mesmo período. Os analistas antecipam outra ronda de subidas de 8% a 10% na segunda metade de 2026. O CEO Lip-Bu Tan foi ainda mais direto no mesmo evento: “O CPU está a reinserir-se como o alicerce indispensável da era da IA”.
Esta escalada nos CPUs surge num contexto de crise mais ampla que a imprensa especializada começou a apelidar de “RAMmageddon”. Desde o final de 2025, os centros de dados de IA têm absorvido volumes históricos de memória DRAM, deixando os fabricantes de eletrónica de consumo a disputar uma fatia cada vez mais reduzida da produção global. Empresas como a Apple e a Tesla já sinalizaram que esta escassez vai constranger a produção. Tim Cook alertou para a compressão das margens do iPhone, enquanto Elon Musk foi ao ponto de anunciar que a Tesla pode precisar de construir a sua própria fábrica de memória.
Os dados de mercado dão razão ao alarmismo, os centros de dados vão absorver mais de 70% da produção total de chips de memória de alta gama em 2026, e a IDC prevê que o crescimento da oferta de DRAM este ano seja apenas de 16%, muito abaixo da procura.
No mundo dos videojogos, as consequências já são bem visíveis. As consolas PS5 e Xbox Series viram os preços subir em várias regiões, num período em que o histórico da indústria sugeria que os preços deveriam estar a descer. A Nintendo Switch 2 poderá seguir o mesmo caminho, segundo os analistas. E o impacto pode ir muito além do ciclo atual.
A Sony estará segundo rumores a considerar mesmo adiar o lançamento da PlayStation 6 para 2028 ou mesmo 2029, precisamente por causa da instabilidade nos preços dos componentes.
Há alguma esperança a longo prazo, Micron, Samsung e SK Hynix estão a acelerar a construção de novas fábricas. Mas mesmo os mais otimistas admitem que o impacto destas novas capacidades produtivas não se fará sentir antes de 2027 ou 2028, e o presidente da SK Group já avisou que a crise pode prolongar-se até 2030.









