
O final de Attack on Titan (Shingeki no Kyojin) nunca deixou ninguém indiferente. Desde que o mangá chegou ao fim em 2021, e o anime concluiu o seu percurso em 2023, o desfecho de Eren Yeager tem sido dos temas mais discutidos na comunidade. Agora, quem veio alimentar a conversa foi o próprio autor, Hajime Isayama, e fê-lo de uma forma bem direta.
O que disse Isayama e onde o disse
As declarações surgem no contexto de uma atualização à exposição permanente de Attack on Titan no Museu de HITA, situado em Hita City, na Prefeitura de Oita, a cidade natal do autor. A 24 de abril, a exposição foi renovada pela primeira vez em três anos, com a adição de 26 páginas originais do mangá, selecionadas pessoalmente por Isayama e acompanhadas de comentários seus em quatro idiomas.
Num desses painéis, Isayama escreveu sobre Eren de uma forma que poucos esperavam:
“Eren tornou-se um protagonista que cometeu um massacre em grande escala raramente visto noutras obras de ficção. Contudo, ‘Attack on Titan’ havia muito que deixara de ser apenas meu, e Eren tornou-se uma personagem amada por muitos leitores. No final, sem me comprometer totalmente a retratá-lo como uma figura detestável, acabei por o retratar com uma certa proximidade e simpatia. Como resultado, sinto que permanece um sentido de falta de sinceridade no desfecho da história, pelo menos na minha própria avaliação”.
A citação é reveladora precisamente porque não chega de uma entrevista promovida ou de uma declaração de relações públicas. Está escrita num museu, em painéis físicos, para quem se desloca até Hita, o que lhe confere um peso diferente.
A ideia original e o que mudou pelo caminho
Desde o início, o plano de Isayama passava por construir uma narrativa onde a vítima se transforma no agressor. Eren era esse veículo, um protagonista que, ao longo de centenas de capítulos, acumula razões para agir e acaba por se tornar responsável por um dos maiores massacres da ficção recente.
O problema, na perspetiva do próprio autor, está no que aconteceu entre a conceção e a execução. Isayama admitiu que a sua imaturidade enquanto jovem de pouco mais de vinte anos ficou incorporada na personagem e que, com o tempo, a ligação que desenvolveu com Eren impediu-o de o retratar com a frieza que a história exigia. À medida que o mangá crescia e a base de fãs se alargava, Eren deixou de ser uma personagem exclusivamente sua. Tornou-se algo partilhado, amado, e isso teve consequências na forma como o desfecho foi escrito.
Não é a primeira vez que Isayama se mostra crítico em relação às suas próprias escolhas. Em 2021, após a publicação do capítulo final, revelou que pretendia acrescentar páginas adicionais a uma reedição especial por ter ficado limitado a 51 páginas pela editora, e chegou a admitir, numa entrevista de 2023, que chegou a ponderar alterar o final. O que é novo aqui é a palavra que escolheu: “falta de sinceridade”. É uma autocrítica mais direta do que o habitual.
A reação da comunidade
As declarações chegaram rapidamente à comunidade internacional e reacenderam um debate que, na verdade, nunca tinha fechado completamente. Para alguns fãs, as palavras de Isayama funcionam como uma validação de algo que já sentiam, que o tratamento final de Eren foi demasiado condescendente para uma personagem que, pela lógica interna da história, deveria ter sido retratada de forma mais implacável.
Outros veem o assunto de outra perspetiva. O facto de Eren ter continuado a ser uma figura tridimensional até ao fim, com personagens a lamentarem quem ele foi, mesmo enquanto o combatiam, é, para muitos, um dos pontos fortes do desfecho. A ambiguidade moral foi intencional, e a simpatia que Isayama sentiu pode ter sido, também, uma vantagem criativa.
O que fica claro é que Attack on Titan continua a gerar conversas genuínas, e que o seu autor não tem receio de falar sobre o final que escolheu para a sua obra. Com mais de 100 milhões de cópias em circulação em todo o mundo, o mangá há muito que ultrapassou o estatuto de fenómeno de nicho e o peso dessas expectativas, como o próprio Isayama deixa entender, fez-se sentir até à última página.









