Há algo de particularmente inquietante num anime de escola que decide abandonar os romances adolescentes e os clubes extracurriculares para mergulhar em território verdadeiramente sombrio.
10Death Note
Existe uma razão pela qual Death Note continua a ser um dos anime mais discutidos e recomendados mais de duas décadas depois da sua estreia. A série, que começou como adaptação do mangá de Tsugumi Ohba em 2006 pelo estúdio Madhouse, faz algo que pouquíssimas obras de ficção conseguem, coloca o espectador do lado de um assassino em série e mantém-no lá durante 37 episódios.
Light Yagami é um estudante do ensino secundário inteligente, disciplinado e completamente convencido da sua própria superioridade moral. Quando encontra um caderno sobrenatural capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito nele, não hesita muito tempo. A lógica inicial até parece razoável, eliminar criminosos perigosos, mas rapidamente se percebe que o verdadeiro problema não é o caderno. É Light.
O que torna Death Note genuinamente perturbador é a frieza com que o protagonista sacrifica amigos, família e qualquer pessoa que se ponha no seu caminho. Não há remorso, não há hesitação real. Há apenas o cálculo frio de quem acredita ser um deus. O jogo psicológico com o detetive L, que ocorre em grande parte em salas de aula, bibliotecas e corredores escolares, é simultaneamente fascinante e sufocante. E quando tudo termina, é difícil não ficar perturbado com o facto de, durante tanto tempo, se ter estado a torcer por ele.
9Devilman Crybaby
Devilman Crybaby chegou à Netflix em janeiro de 2018 e provocou uma reação imediata e polarizadora. Baseada no mangá histórico de Go Nagai dos anos 70, esta adaptação dirigida por Masaaki Yuasa é uma das obras mais corajosas e devastadoras que o anime produziu nos últimos anos.
A série começa num ambiente escolar reconhecível, Akira Fudo é um adolescente sensível e empático, e o seu melhor amigo Ryo Asuka é brilhante mas distante. Há festas, há corridas de atletismo, há a textura normal da adolescência. É tudo deliberado. Yuasa constrói esse mundo para o destruir completamente.
Quando Akira se funde com um demónio para combater a invasão demoníaca que ameaça a humanidade, o que se segue é uma espiral imparável em direção ao abismo. As pessoas voltam-se umas contra as outras com uma brutalidade que vai muito além da violência física, há uma dimensão de paranoia social e de ódio coletivo que ressoa de forma incómoda com dinâmicas do mundo real. Cada relação construída ao longo da série termina em tragédia. A esperança não é apenas frustrada, é sistematicamente eliminada. O episódio final é um dos mais silenciosamente esmagadores de toda a história do anime.
8Another
Another é o tipo de série que faz com que olhar para uma escada ou para um guarda-chuva nunca seja exatamente a mesma coisa. Baseada na novel de Yukito Ayatsuji e adaptada em 2012 pelo estúdio PA Works, a série instala-se numa escola secundária provinciana e cria ali uma atmosfera de doom que raramente é igualada.
O estudante transferido Koichi Sakakibara chega à turma 3 do 3.º ano da escola Yomiyama North e percebe de imediato que há algo de profundamente errado. Os colegas evitam um assunto em particular, ninguém fala claramente sobre o que acontece naquela turma, e a misteriosa Mei Misaki parece existir numa espécie de limbo social que ninguém quer explicar.
A maldição que assola a turma é simples na sua premissa mas brutal na execução, todos os meses, alguém relacionado com a turma morre de forma violenta e aparentemente acidental. A série usa essa estrutura para construir uma tensão crescente que não permite momentos de respiro. O que distingue Another de muitos outros horror anime é a forma como transforma os espaços mais banais, corredores, salas de aula, a enfermaria da escola, em lugares carregados de ameaça. Cada cena pode ser a última de alguém, e o espectador sabe disso.
7Boogiepop Phantom
Boogiepop Phantom é provavelmente o título desta lista que menos pessoas conhecem, mas que mais profundamente perturba quem o vê. Lançado em 2000, anos antes de muitos dos outros títulos aqui presentes, o anime antecipou uma abordagem ao horror psicológico que só se tornaria mais comum muito mais tarde.
A série passa-se numa cidade anónima depois de uma coluna de luz misteriosa ter aparecido no céu, desencadeando uma onda de eventos sobrenaturais em redor de uma escola secundária. Os estudantes começam a desaparecer. Outros desenvolvem poderes estranhos que os afastam da realidade. A figura conhecida como Boogiepop, que se manifesta dentro do corpo de uma estudante, circula pelos mesmos corredores, observando tudo.
O que torna a série verdadeiramente singular é a forma como está construída, episódios fragmentados, perspetivas múltiplas que se contradizem, uma narrativa que deliberadamente recusa a clareza. É uma experiência que se parece muito com estar dentro de uma mente que está a desmoronar. A alienação social dos jovens, os medos que ninguém consegue verbalizar, os desejos que não encontram forma de se expressar, tudo isso encontra em Boogiepop Phantom uma representação que é simultaneamente abstrata e visceral.
6Parasyte: The Maxim
Parasyte: The Maxim tem uma das premissas mais desconfortáveis do anime de escola, e se o monstro fosses tu? Ou pelo menos, parte de ti?
Adaptada do mangá de Hitoshi Iwaaki e estreada em 2014, a série acompanha Shinichi Izumi, um estudante do ensino secundário cuja vida muda radicalmente quando um parasita alienígena falha ao tentar invadir o seu cérebro e fica preso na mão direita. Enquanto outros humanos são completamente substituídos pelos parasitas, que depois vivem entre a população, alimentando-se de outros humanos, Shinichi mantém a sua mente mas partilha o corpo com uma entidade completamente diferente.
O horror da série não está principalmente nas cenas de violência, que são muitas e gráficas. Está na forma como Shinichi vai mudando. À medida que enfrenta situações cada vez mais extremas, a sua empatia vai-se erodindo. Torna-se mais eficiente, mais calculista, mais frio. A escola, os amigos, os laços afetivos que o definem como pessoa, tudo vai ficando mais distante. A série usa o corpo como metáfora para questionar o que constitui realmente a identidade humana, e faz isso de um forma que não oferece respostas fáceis.
5Corpse Party: Tortured Souls
Corpse Party: Tortured Souls não é uma série para quem procura subtileza. Baseada no videojogo do mesmo nome e lançada em 2013, é uma das obras mais explicitamente brutais desta lista, e é precisamente essa brutalidade sem ornamentos que a torna tão marcante.
Um grupo de estudantes realiza um ritual de amizade depois das aulas e é transportado para a Escola Primária Heavenly Host, uma escola demolida que existe numa dimensão paralela. Lá dentro, os espíritos de crianças assassinadas há décadas torturam todos os que ficam presos, e a única forma de sair é descobrir a verdade sobre o que aconteceu naquele lugar.
O que a série faz com especial eficácia é subverter completamente a ideia de escola primária como espaço de inocência. Os corredores coloridos, as salas de aula com desenhos nas paredes, o pátio de recreio, tudo isso está lá, mas corrompido de uma forma que provoca um desconforto específico que o horror em cenários genéricos raramente consegue. A maioria dos personagens não sobrevive, e os que sobrevivem ficam irremediavelmente marcados. Não há redenção aqui. Só consequências.
4Mirai Nikki
Mirai Nikki, adaptado do mangá de Sakae Esuno e lançado em 2011, é muitas coisas ao mesmo tempo, um thriller de sobrevivência, uma história de amor doentia, uma crítica ao isolamento social dos adolescentes. O resultado é uma série que é difícil de classificar com uma única etiqueta, o que é talvez a maior prova da sua qualidade.
Yukiteru Amano é um estudante solitário cujo único “amigo” é um diário imaginário onde regista tudo o que observa. Quando esse diário se torna real e começa a prever o futuro, Yukiteru descobre que foi colocado num jogo de morte com mais onze participantes, cada um com o seu próprio diário profético. O último a sobreviver torna-se o próximo deus do tempo e do espaço.
Neste contexto extremo, surge Yuno Gasai, colega de escola de Yukiteru e uma das personagens mais complexas e perturbadoras de todo o anime. A sua obsessão por Yukiteru é total e violenta, mas a série dedica tempo suficiente à origem dessa obsessão para que o espectador compreenda, mesmo sem justificar. O que torna Mirai Nikki genuinamente sombrio não é a contagem de mortes, é o retrato de duas pessoas profundamente danificadas a tentarem sobreviver num mundo que nunca foi particularmente gentil com nenhuma delas.
3Kakegurui
Kakegurui usa uma escola de elite como palco para um dos retratos mais cínicos da hierarquia social adolescente que o anime já produziu. Na Hyakkaou Private Academy, os alunos não são avaliados pelo desempenho académico, são avaliados pela capacidade de ganhar em jogos de aposta de alto risco. Quem ganha acumula poder e status; quem perde é humilhado, explorado e forçado a servir os mais poderosos como “animal de estimação”.
A chegada da estudante transferida Yumeko Jabami muda tudo, não porque ela queira derrubar o sistema, mas porque o jogo em si a intoxica. Yumeko não aposta para ganhar. Aposta pelo prazer físico e quase erótico da incerteza. É uma protagonista que o espectador não consegue bem decidir se admira ou teme.
O que distingue Kakegurui de outros anime com premissas semelhantes é a recusa em moralizar. A série não condena o sistema, retrata-o com uma energia quase celebratória que força o espectador a interrogar as suas próprias reações. A violência aqui é psicológica e económica, mas não é menos real. E a escola, com a sua arquitetura imponente e os seus rituais de dominação, funciona como um microcosmo inquietantemente plausível do mundo adulto que aguarda lá fora.
2Danganronpa: The Animation
Danganronpa: The Animation adapta o videojogo de 2010 da Spike Chunsoft e coloca uma questão simples e terrível, até onde consegues chegar para sobreviver, sabendo que a única saída implica a morte de alguém em quem confias?
Makoto Naegi é aceite na Hope’s Peak Academy, uma escola de elite que admite apenas os jovens mais talentosos do país em cada área. Desde o melhor atleta ao melhor músico, cada estudante representa o pico do potencial humano. Quando chegam, descobrem que estão presos. O único caminho para a liberdade é matar um colega e sobreviver ao julgamento coletivo que se segue, onde os restantes estudantes tentam descobrir quem foi o assassino. Se acertarem, só o culpado é executado. Se errarem, todos morrem menos o assassino.
Monokuma, o urso robótico que controla a academia, é um dos vilões mais eficazmente perturbadores do anime moderno, precisamente porque o seu sadismo é apresentado com uma jovialidade permanente. A série usa a estrutura do julgamento, que ocorre numa sala de aula estilizada, para explorar como o desespero corrói a confiança e a solidariedade. Cada morte é um luto real, e cada julgamento é uma forma de violência coletiva que deixa marcas em toda a gente.
1Blood-C
Blood-C, coprodução dos estúdios Production I.G e SHAFT lançada em 2011, é o exemplo mais calculado desta lista em termos de subversão de expectativas. Os primeiros episódios são deliberadamente mundanos, Saya Kisaragi é uma estudante feliz, um pouco desastrada, rodeada de amigos simpáticos e de um ambiente escolar quase idílico. As cenas de escola têm a textura de um slice-of-life completamente inofensivo.
E depois a série começa a revelar o que está por baixo.
As criaturas que Saya combate à noite, os Elder Bairns, tornam-se progressivamente mais violentas nas suas ações, e as mortes que a série mostra não poupam ninguém. Grupos inteiros de estudantes são massacrados em sequências que não concedem ao espectador a distância emocional habitual do anime de ação. Mas o verdadeiro golpe da série é a revelação de que a vida escolar de Saya, os amigos, as rotinas, a própria identidade que ela acredita ter, tudo foi construído. Nada do que ela pensava que era real, era. Essa descoberta transforma Blood-C de um horror de ação intenso numa exploração perturbadora sobre memória, manipulação e o que significa confiar em alguém.








