Sendo aqui honesto convosco, a maioria dos super-heróis da DC Comics nunca me cativou muito. No entanto, sempre houve uma exceção bem clara, Batman. O seu universo, a sua história e a própria dualidade da personagem, entre o homem e o justiceiro que opera nas sombras, sempre foram para mim particularmente interessantes. Consegue haver algo inexplicável no tom mais obscuro e na complexidade de Gotham que acaba por enaltecer Batman entre muitos outros super-heróis.

Já tivemos anteriormente várias interpretações deste universo em formato Lego, cada uma com o seu próprio charme. Agora, a personagem volta a estar na ribalta com LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight, uma proposta que vai mais longe do que as anteriores, apostando numa abordagem mais dinâmica e ambiciosa dentro do estilo habitual da série.

Afinal, o Batman também sabe dar um pezinho de dança.

LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight explora décadas de histórias do morcego numa aventura recheada de humor bem característico dos jogos com o rótulo da Lego. O grande destaque deste jogo está na forma como a TT Games consegue misturar as várias interpretações de Batman à sua maneira, passando pelos filmes clássicos de Tim Burton até às versões mais recentes de Christopher Nolan, sem esquecer as séries e as clássicas bandas desenhadas que deram origem à personagem, criando uma homenagem incrível ao herói e ao seu legado. Por isso, não devem esperar uma adaptação totalmente fiel aos acontecimentos originais, mas sim uma experiência que usa uma mescla do universo do Batman de forma criativa e divertida.

À medida que progredimos nas missões e vamos percorrendo diferentes momentos importantes da jornada do morcego, começamos a desbloquear novas personagens que nos acompanham durante esta viagem. Entre elas estão nomes como Jim Gordon, Catwoman, Robin, Batgirl e várias outras figuras conhecidas de Gotham. Naturalmente, Gotham City continua apinhada de problemas e cabe a Batman e aos seus companheiros enfrentarem os vilões mais conhecidos da série. Joker, Penguin, Bane, Poison Ivy e Mr. Freeze garantem confrontos constantes e situações dignas de cinema, muitas delas completamente turbulentas e fora do habitual.

As histórias mais sombrias do justiceiro da DC continuam intactas, mas LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight nunca perde a leveza e o exagero típico da Lego, algo que acaba por funcionar muito bem para tornar os momentos mais divertidos. O humor é utilizado das mais variadas formas, seja através das animações caricatas, das expressões absurdas das personagens ou da forma como certas cenas são reinterpretadas, como por exemplo a transformação do presidente Harvey Dent em Two Face sendo absurdamente cómica, fazendo-me soltar algumas gargalhadas inesperadas. Tudo encaixa genuinamente bem, as personagens estão bem enquadradas na narrativa, enquanto as cenas de ação foram construídas com um impacto muito semelhante ao dos filmes, sendo um verdadeiro mimo para os fãs.

Quem já passou pelos jogos Batman Arkham vai sentir-se rapidamente familiar com o combate.

Como seria de esperar, outro ponto bem conseguido é o combate. Batman e os seus aliados têm ataques dinâmicos, contra-ataques rápidos, gadgets importantes e ataques finais que encaixam perfeitamente no conceito dos jogos Lego. Durante os combates quase coreografados vamos enchendo uma barra especial que, quando ativada, permite lançar ataques mais poderosos contra os inimigos. O interessante é que também podemos controlar outras personagens para além de Batman, e cada uma delas possui um estilo de luta muito pessoal, bem como gadgets que trazem dinamismo tanto aos combates como à própria exploração.

A Batcave, para além de servir como local para melhorar equipamentos, permite também decorar o espaço com troféus e mobília.

Além das lutas, existem várias secções onde podemos utilizar gadgets para resolver situações estrategicamente. Em algumas zonas, por exemplo, podemos usar os batarangs para distrair ou atordoar inimigos antes de os eliminar silenciosamente. Outras missões focam-se mais na investigação, obrigando-nos a procurar pistas, analisar objetos ou utilizar ferramentas específicas dos heróis que temos em posse para desbloquear caminhos.

Gotham City é um espaço maravilhoso de explorar e oferece uma variedade incrível de tarefas por completar e colecionáveis por encontrar, desde os inigmas do Ridley até aos troféus que temos de destruir. Um dos mais importantes são os WayneTech Chips, precisos para desbloquear melhorias para cada uma das personagens, dando acesso a novas habilidades e até a diferentes formas de utilizar os gadgets.

Gotham City acaba por ser um dos pilares principais do jogo. Em vez de se focar apenas numa interpretação específica da cidade, vemos aqui uma mescla de várias versões de Gotham construídas ao longo dos anos, criando um mapa único recheado de referências que serão imediatamente reconhecidas pelos fãs do justiceiro.

Os enigmas do Riddler oferecem desafios mentais interessantes.

Locais emblemáticos como Ace Chemicals, o Museu Flugenheim ou os jardins botânicos de Gotham estão presentes e oferecem inúmeros segredos, puzzles e atividades secundárias. E claro, sendo Gotham, existem constantemente crimes aleatórios a acontecer pelas ruas da cidade tal como vimos em Batman Arkham Knight. Isto ajuda bastante a fazer com que o mundo pareça sempre vivo, já que há quase sempre qualquer coisa para fazer enquanto navegamos pela cidade.

As variadas formas de explorar Gotham ajudam também a manter tudo mais dinâmico e interessante. Podemos atravessar edifícios com o gancho, planar pelos céus ou simplesmente conduzir várias versões do Batmobile e da Batmota inspiradas em diferentes eras do Batman. Como muitas vezes deixo claro, além da narrativa, a exploração é uma das vertentes que mais valorizo nos videojogos. Por isso, fiquei muito satisfeito com a forma como a TT Games conseguiu tornar LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight constantemente interessante de se explorar. Entre segredos, colecionáveis, atividades secundárias e inúmeras referências, há sempre alguma recompensa à espera de quem decide perder tempo a vaguear pelas ruas escuras da cidade.

As batalhas contra os bosses também foram claramente alguns dos momentos mais memoráveis da experiência. Cada confronto consegue ser criativo e especialmente exagerado, aproveitando muito bem as características únicas de cada vilão. Além disso, o jogo evita tornar estes encontros demasiado simples, já que praticamente todos possuem várias fases durante os confrontos, garantindo constantemente novas surpresas. Infelizmente não consegui experimentar o modo cooperativo, mas no modo para um jogador posso dizer sem problema que este é um dos jogos Lego com que mais me diverti nos últimos tempos.

O Penguin continua a apresentar um dos visuais mais bizarros do universo Batman.

Visualmente, o estúdio britânico mostrou claramente que sabia o que estava a fazer. Acredito genuinamente que tenha existido um longo trabalho de pesquisa para conseguirem chegar a este resultado, porque aquilo que encontramos é uma Gotham City bastante fiel e muito bem construída, fazendo-nos sentir que estamos dentro das várias adaptações que fomos acompanhando ao longo dos anos. A mistura entre o visual Lego e o estilo mais cinematográfico e animado acaba por resultar extremamente bem, dando ao jogo uma identidade visual muito própria e apelativa. As próprias cutscenes apresentam uma qualidade surpreendente, tanto pela realização como pela forma como conseguem equilibrar momentos mais intensos com o humor característico da série.

Mesmo com o constante tom satírico e os momentos mais caricatos, a atmosfera sombria de Gotham está sempre presente. As ruas iluminadas pelos néons, os becos escuros e o ambiente hostil típico da cidade ajudam a manter essa identidade intacta ao longo de toda a aventura, enquanto o humor vai dando leveza e dinamismo à narrativa sem nunca quebrar a imersão. Assim como o trabalho de iluminação e reflexos espalhados pela cidade estão muito bem conseguidos. Apesar disso, temos loadings entre missões que demoram um pouco a carregar mas nada que desfavoreça a experiência.

Este Lego Batman conta mais de 90 fatos inspirados nas várias fases e história das personagens.

A componente sonora está excelente em todos os aspetos. As músicas que acompanham cada cena reforçam tanto os momentos de investigação como as sequências de ação, especialmente porque muitas delas servem como referência a várias obras clássicas dos filmes do Batman. Também o trabalho dos atores de voz merece notoriedade, com algumas interpretações a conseguirem aproximar-se das vozes que já conhecemos, como é por exemplo a semelhança da voz de Oswald Cobblepot, Pinguim, interpretada por Danny DeVito em Batman Returns.

Gotham precisa do Batman!

LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight acaba por ser uma das adaptações mais fascinantes que a TT Games já criou dentro do universo da DC. Nota-se o cuidado colocado na recriação de Gotham City, não só pelo detalhe, mas também pela enorme quantidade de referências espalhadas ao longo da aventura. Desde locais icónicos a personagens clássicas e pequenos pormenores retirados das várias adaptações de Batman, há sempre algo capaz de agradar aos fãs.

A campanha consegue equilibrar muito bem o humor característico da fórmula Lego com o lado mais sombrio do universo Batman, enquanto as missões apresentam uma boa diversidade através da exploração, dos puzzles, das secções de investigação e dos confrontos contra bosses. O combate também demonstra uma evolução interessante relativamente a outros jogos da série, claramente inspirado na Trilogia Batman Arkham.

Juntando tudo isto à forte componente de exploração, à enorme quantidade de conteúdos desbloqueáveis e a uma apresentação audiovisual muito competente, LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight é uma aventura extremamente completa, que aproveita o universo do Cavaleiro das Trevas de forma genuína e com muita personalidade.

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