
O Japão aprovou um plano de ação nacional para tentar inverter o que os dados mostram com crueza, em 2025, 538 estudantes do ensino básico, secundário e universitário tiraram a própria vida, o número mais elevado desde que os registos começaram a ser feitos, em 1980. A decisão saiu da sexta reunião do Conselho para a Promoção de Políticas para a Infância, presidida pela primeira-ministra Sanae Takaichi a 9 de junho, em Tóquio.
O contexto torna a notícia ainda mais desconcertante, o Japão registou em 2024 o segundo número global mais baixo de suicídios desde 1978, com 20.320 mortes totais, uma descida de 1.517 face ao ano anterior. Ao mesmo tempo, os suicídios entre estudantes do ensino básico e secundário atingiram recordes sucessivos. São duas realidades que coexistem sem se anularem, e que revelam algo de particular sobre as pressões que recaem sobre os jovens japoneses, problemas escolares, conflitos com pares e ansiedade em relação ao futuro profissional lideram as causas identificadas.
Takaichi foi direta na reunião: “O suicídio infantil e juvenil é um problema grave que deve ser levado muito a sério”. É uma afirmação que reconhece, implicitamente, que a resposta do Estado tem estado aquém do necessário.
Entre as medidas aprovadas estão a criação de conselhos de prevenção nos governos regionais, onde diferentes instituições possam coordenar o apoio a jovens em risco, e o reforço da colaboração entre escolas e serviços médicos, algo que investigadores vinham a reclamar há anos. Um estudo publicado na revista científica Humanities and Social Sciences Communications já tinha identificado esta articulação como essencial, apontando para o excesso de trabalho dos professores e os elevados níveis de stress no sistema educativo como obstáculos concretos à sua implementação.
O plano vai mais longe ao incluir o uso de inteligência artificial para identificar sinais de risco de suicídio, uma aposta que o Japão tem vindo a desenvolver noutros contextos, como a deteção de comportamentos suspeitos em estações de metro e espaços públicos. A Agência para as Crianças e Famílias pediu aos governos locais que criem conselhos específicos, onde as instituições de prevenção do suicídio possam partilhar informação proveniente de escolas e serviços médicos, facilitando uma intervenção mais precoce.
Do lado das empresas, o governo quer criar incentivos para que apoiem ativamente os trabalhadores no cuidado dos filhos e promovam serviços de suporte familiar, reconhecendo que a pressão laboral dos pais tem um impacto direto no bem-estar das crianças. O ministro da Infância, Hitoshi Kikawada, afirmou que as medidas deverão entrar em vigor “antes do final do ano”, com a cooperação entre os vários ministérios e organismos envolvidos.
Não é a primeira vez que Tóquio tenta agir. Em 2023, o governo aprovou um plano de emergência de reforço da prevenção do suicídio entre crianças, e a Agência para as Crianças e Famílias lançou campanhas para incentivar os jovens a pedir ajuda a adultos. A OMS destacou em 2024 que, entre 2006 e 2022, a taxa global de suicídio no Japão caiu mais de 35%, fruto das políticas nacionais implementadas desde a aprovação da Lei Básica de Prevenção do Suicídio. Mas essa tendência positiva não chegou aos mais novos.
O que muda desta vez é a escala da resposta, e talvez a urgência. O número de 538 mortes em 2025 é incontornável, e o facto de o governo ter convocado uma reunião específica sobre o tema, com a presença da chefe do executivo, sugere que a pressão política para resultados concretos é agora maior do que nunca.









