
Tim Sweeney não é conhecido pela subtileza quando o assunto é a Valve. Mas as suas declarações mais recentes à PC Gamer durante o Unreal Fest Chicago 2026 foram um patamar acima do habitual, o CEO da Epic Games acusou a Valve de “irresponsabilidade” pela política que obriga os estúdios a declarar o uso de inteligência artificial generativa nas páginas dos seus jogos no Steam.
A política em causa existe desde 2024. Na sua versão atual, revista em janeiro de 2026, exige que os criadores declarem quando utilizam IA para gerar conteúdo que chega ao jogador, seja em assets como texturas, música ou vozes, seja em conteúdo gerado em tempo real durante o jogo. Ferramentas de produtividade como assistentes de código ou IA usada apenas em fluxos de trabalho internos deixaram de exigir divulgação após a revisão de janeiro. A declaração aparece na página do jogo no Steam, visível para qualquer pessoa antes de comprar ou adicionar à lista de desejos.
O problema, na ótica de Sweeney, é que essa etiqueta funciona como um alvo. “É uma pena estarmos nesta situação”, disse à PC Gamer. “É uma pena que tantos criadores estejam agora nesta posição. Se queres lançar um jogo e dar-lhe a maior visibilidade possível, tens de o colocar no Steam para as pessoas poderem adicioná-lo à lista de desejos, e se queres que seja jogado no Steam, então tens de receber esta Letra Escarlate de IA no teu produto, e agora há uma comunidade de haters a tentar matar o jogo”.
A expressão “letra escarlate”, referência ao romance de Nathaniel Hawthorne sobre estigma social, resume bem a sua tese, a divulgação não informa, penaliza. “Acho que é verdadeiramente irresponsável da parte da Valve. Não deveriam fazê-lo, porque torna muito, muito, muito mais difícil para um criador ter hipótese de sucesso. Tens de escolher entre não usar ferramentas que te tornam muito mais produtivo, e provavelmente falhar devido à concorrência que as usa”.
O momento das declarações não é coincidência. A Epic acabou de revelar as ambições da Unreal Engine 6, que integra modelos de IA como o Claude e o Gemini diretamente no fluxo de trabalho de desenvolvimento. Durante o Unreal Fest Chicago, a empresa demonstrou como um criador pode, através de uma janela de prompt, solicitar ao Claude que mobilie um apartamento virtual a partir da biblioteca de assets, ou que altere a iluminação de uma cena urbana com base numa fotografia de referência. Quanto maior for a aceitação da IA no desenvolvimento de jogos, mais relevante se torna o motor da Epic, e Sweeney sabe disso.
A Valve, por enquanto, não deu qualquer sinal de que tenciona alterar a política e o aviso continua exatamente onde está.









