
Mais de um ano depois de Airi Sato ter sido morta à facada enquanto transmitia em direto pelas ruas de Tóquio, a justiça japonesa fixou finalmente a pena do homem responsável pelo crime. Kenichi Takano, de 44 anos, foi condenado a 16 anos de prisão pelo Tribunal Distrital de Tóquio, esta quarta-feira, dia 15 de julho, depois de ter sido considerado culpado de homicídio e de outros crimes associados ao ataque.
O caso remonta a 11 de março de 2025, quando Sato, então com 22 anos, caminhava pela zona de Takadanobaba, no bairro tóquiota de Shinjuku, enquanto transmitia ao vivo na aplicação japonesa WhoWatch. Mais de seis mil pessoas assistiam à transmissão no momento em que Takano a abordou e começou a esfaqueá-la, pouco antes das 10h locais.
O tribunal considerou Takano culpado de assassinar Sato depois de a esfaquear repetidamente na face e no peito. Segundo a acusação, foram, ao todo, pelo menos 55 golpes de faca, atingindo zonas como o rosto, o pescoço e o peito, ao longo de um ataque que durou cerca de um minuto e que os procuradores classificaram como extremamente violento, uma vez que Takano terá continuado a esfaquear mesmo depois de Sato lhe implorar que parasse.
O tribunal considerou ainda que a força usada nos golpes desferidos no pescoço demonstrava uma intenção clara de matar. O juiz responsável pelo caso, Shunichi Ido, sublinhou que Takano agravou ainda mais a violação da dignidade da vítima ao pegar no telemóvel dela, que continuava a transmitir em direto, e ao aproximar a câmara do rosto de Sato, perguntando:
“Ela está morta?”
O motivo por trás do crime está relacionado com dinheiro. Takano conheceu Sato através das suas transmissões a partir de dezembro de 2021 e terá gasto cerca de 2,4 milhões de ienes (perto de 14 800 dólares) em presentes virtuais através da aplicação e em consumos num bar onde a jovem trabalhava como anfitriã. A isso somam-se mais 2,5 milhões de ienes (cerca de 16 mil dólares) que, segundo o próprio, lhe terá emprestado a pedido dela. Takano chegou mesmo a processá-la civilmente e a obter uma decisão judicial que obrigava Sato a devolver-lhe o dinheiro, mas esta alegou não ter possibilidades financeiras para o fazer.
Durante o julgamento Takano admitiu os factos de que era acusado. A defesa pediu uma pena de nove anos, argumentando que o ataque surgiu no seguimento do litígio relacionado com o dinheiro emprestado e que o arguido atravessava, na altura, uma situação financeira difícil, chegando a considerar tirar a própria vida. Os advogados de Takano alegaram também que este teria apenas a intenção de desfigurar o rosto da vítima, e não de a matar, e invocaram o facto de estar no espectro do autismo, com controlo de impulsos reduzido, como fator atenuante.
O juiz Ido reconheceu que essa condição pode ter contribuído indiretamente para o comportamento do arguido, mas rejeitou o argumento da defesa, afirmando:
“As ações podem descontrolar-se mesmo sem essa condição”.
Já a acusação tinha pedido uma pena de 20 anos, acabando o tribunal por fixar a condenação nos 16 anos.
Depois do ataque Takano terá ainda filmado o rosto ensanguentado de Sato e feito comentários sobre se esta estaria morta, um comportamento que o tribunal descreveu como uma continuação da violação da sua dignidade. A câmara do telemóvel de Sato, que continuava ativa, captou parte do caos que se seguiu ao ataque, incluindo sirenes de emergência já depois de a imagem ter escurecido. A jovem chegou a ser transportada para o hospital, mas acabou por não resistir aos ferimentos.
Este não é o único caso recente que junta transmissões em direto, dinheiro e violência extrema. Nos últimos meses, têm sido noticiados vários episódios semelhantes envolvendo criadores de conteúdo:
- Uma streamer sul-coreana foi encontrada morta em 2025, tendo um espectador sido detido pelo homicídio depois de lhe ter doado dezenas de milhares de dólares.
- Ainda este mês de julho, um youtuber especializado em bolsa de valores terá sido esfaqueado por um espectador que alegadamente perdeu dinheiro ao seguir os seus conselhos de investimento.
- Em França, o Ministério Público pediu penas de prisão para streamers acusados de submeter Jean Pormanove a maus-tratos antes da sua morte, um caso que também envolveu responsáveis da plataforma Kick, alvo de um pedido de mandado de detenção no âmbito da investigação francesa.








