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Criador de Mobile Suit Gundam diz que o anime perdeu a magia por culpa da tecnologia digital

Yoshiyuki Tomino critica falta de sentido de maravilha no anime atual

Yoshiyuki Tomino, o diretor responsável por criar Mobile Suit Gundam, deixou críticas duras ao estado atual da criação de anime e cinema numa entrevista recente concedida à agência japonesa Kyodo News. As declarações surgem poucos meses depois de Tomino ter recebido, em abril, a Ordem do Sol Nascente com Raios de Ouro e Faixa ao Pescoço, uma das mais prestigiadas distinções atribuídas pelo governo japonês, entregue a criadores com contributos particularmente notáveis para o país.

Para Tomino, um dos principais problemas do cinema e do anime atual está na ausência daquilo a que chama sentido de maravilha, um conceito que, segundo o diretor, orientava o trabalho de muitos aspirantes a diretores no passado. O criador explica que, tradicionalmente, depois de cinco ou seis planos regulares, surgia um plano que convidava o espetador a seguir as personagens com o olhar, seguido de um enquadramento que revelava um cenário de fundo muito amplo. Era precisamente esse processo de procurar as personagens dentro de um cenário imenso que, segundo Tomino, gerava a sensação de maravilha na audiência.

Com a tecnologia digital agora tão disseminada, o diretor questiona se esse sentimento ainda existe nas produções atuais. Segundo Tomino, a possibilidade de recriar praticamente qualquer imagem através de computador retirou grande parte da capacidade de surpreender o público. Na sua visão, os efeitos gerados por computador tornaram-se uma ferramenta demasiado conveniente, que permite copiar e mover elementos livremente, mas que também levou muitas produções a exibir esses efeitos apenas porque deram trabalho a criar. Nas suas próprias palavras: “esquecemo-nos dos princípios de direção e narrativa que dão às obras o seu sentido de maravilha”.

Tomino não poupou críticas à resolução cada vez mais elevada das produções atuais. O realizador confessa incomodar-se com a forma como os planos de grande proximidade se tornaram tão detalhados que chegam a mostrar os poros da pele dos atores, um pormenor que, na sua opinião, nem sempre deveria estar visível. Para Tomino, os realizadores tornaram-se demasiado dependentes das capacidades técnicas das câmaras, o que resulta em obras que parecem ter sido feitas pelo caminho mais fácil.

O que pensa sobre a inteligência artificial generativa

Questionado especificamente sobre a inteligência artificial generativa, Tomino reconheceu que a tecnologia está a tornar-se cada vez mais acessível, mas alertou que muitos profissionais já não conseguem avaliar se determinado recurso técnico se adequa realmente a uma cena dramática. Segundo o próprio: “sinto que o olhar do diretor simplesmente não está a ser exercitado atualmente”. O criador acrescenta que, no caso dos grandes planos, a tecnologia permite obter enquadramentos tão convenientes e eficazes que basta um ator razoável para sustentar toda a cena, o que considera preocupante para a qualidade dramática final das obras.

Tomino também lamenta a existência de produções que se esquecem de acompanhar corretamente a construção da própria narrativa, defendendo que continua a ser necessário um esforço consciente para retratar o processo dramático em si, e não apenas o resultado visual.

Apesar das críticas ao panorama atual, Tomino garante estar longe de deixar a direção. O criador de Gundam revelou estar atualmente a trabalhar num novo projeto próprio, mantendo-se bastante reservado quanto aos detalhes. Ainda assim, mostrou-se confiante de que, caso lhe seja permitido concretizá-lo, o resultado final será uma obra-prima.

Nascido em 1941 na cidade de Odawara, Tomino iniciou a carreira na Mushi Production, onde trabalhou na criação do anime Astro Boy antes de se tornar criador independente. Ao longo de décadas, assinou obras como Space Runaway Ideon, Aura Battler Dunbine e diversas entradas da franquia Gundam, incluindo Zeta Gundam, Char’s Counterattack e Turn A Gundam, consolidando-se como uma das figuras mais influentes na história da indústria anime.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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