Tal como aconteceu com Octopath Traveler 0, que foi reconstruido a partir da história de Octopath Traveler: Champions of the Continent, a Square Enix voltou a olhar para um dos seus jogos mobile para lhe dar uma nova vida. Final Fantasy Resonance parte do primeiro arco narrativo de Final Fantasy Brave Exvius, indo além de uma mera conversão e recriando essa experiência como um RPG inteiramente novo, pensado para um jogador.
Com o encerramento do serviço de Final Fantasy Brave Exvius em 2024 no ocidente e mais tarde no Japão, esta decisão ganha particular importância, ao dar a mais jogadores a oportunidade de descobrir uma história que muitos nunca tiveram ocasião de conhecer.
Com lançamento agendado para 22 de outubro, nas consolas e PC, Final Fantasy Resonance foi desenvolvido pela Square Enix em colaboração com o estúdio Lancarse, contando também com o envolvimento da Team Asano. Depois de várias horas a desbravar o mundo de Lapis, não tenho dúvidas de que estamos na presença de um dos melhores RPG japoneses de 2026.

O destino dos cristais
A sua história leva-nos para o Reino de Grandshelt, conhecido como o Reino dos Cavaleiros, cujos habitantes vivem em paz graças ao poder dos cristais. É neste espaço que conhecemos Rain, comandante de um esquadrão de aeronaves, e Lasswell, o seu amigo de infância e segundo no comando. A pedido do rei, os dois partem para investigar o Santuário da Terra, depois de a barreira mágica que protege o cristal começar a enfraquecer.
No interior do santuário, deparam-se com Veritas of the Dark, um misterioso guerreiro líder dos Sworn Six of Paladia, contra quem pouco conseguem fazer. Derrotados, assistem à destruição do Cristal da Terra e regressam a Grandshelt, onde descobrem que o reino está sob ataque do mesmo inimigo. A partir daqui, começa uma jornada para enfrentar esta ameaça e evitar que os restantes cristais sejam destruídos.
Apesar de partir de uma premissa um tanto familiar, a história não se resume à proteção dos cristais. Pelo caminho, conhecemos novas personagens carismáticas que se juntam ao grupo e que acabam por ter um papel relevante nos acontecimentos. Rain, Lasswell e Fina destacam-se pelas suas personalidades fortes e pela forma como vamos descobrindo mais sobre cada um, tornando a viagem mais interessante à medida que avançamos.
Uma das características que mais me agradou foi como a narrativa consegue alternar entre momentos dramáticos e situações mais descontraídas. Há missões que nos deixam a pensar no destino das personagens, mas o jogo sabe quando “acalmar” o ambiente com momentos engraçados, sem comprometer a seriedade do que está a acontecer. Dei por mim emocionado com o enredo e sempre curioso com o que ia ocorrer de seguida.
A juntar a isso, temos missões secundárias que nos conseguem cativar. Em vez de se limitarem a tarefas que nos afastam temporariamente da campanha, apresentam micro narrativas que nos dão a conhecer melhor o mundo e as personagens que nele habitam. Nota-se o cuidado colocado na sua construção, com enredos que complementam e mostram que a escrita não ficou limitada somente aos acontecimentos principais.

Uma viagem memorável pelo mundo de Lapis
Às costas dos nossos Chocobos e através de outros meios de transporte, percorremos um mundo dividido por vários continentes, cada um com a sua própria personalidade. Grandshelt, por exemplo, apresenta uma estética mais medieval ligada ao cristal da terra, enquanto Olderion funciona como uma federação de cidades construídas sobre a água e pântanos, fortemente ligada ao cristal da água. Ao longo desta viagem, encontramos ruínas, cavernas, pequenas vilas, grandes cidades, e os Sanctum of Light que podemos entrar para explorar durante a nossa passagem por cada uma destas regiões.
Os Sanctum são particularmente importantes por estarem ligados às Visions, que nos permitem recrutar os heróis lendários conectados à franquia, como o Warrior of Light de Final Fantasy I, Cloud de Final Fantasy VII, Terra de Final Fantasy VI, Zidane de Final Fantasy IX entre muitos outros, para depois os equiparmos aos protagonistas. Antes de as recebermos, uma narradora apresenta-nos um resumo da história do jogo a que pertencem e coloca-nos algumas perguntas relacionadas com os seus acontecimentos. Esta apresentação dá-nos a oportunidade de recordar aventuras anteriores e conhecer melhor as personagens que vamos desbloqueando, tornando-se numa homenagem muito bem feita à história da série de renome.
A exploração segue uma estrutura bem linear, pelo que raramente ficamos sem saber para onde devemos seguir. Ainda assim, existem tesouros escondidos pelos cenários que podem ser encontrados se prestarmos atenção ao que nos rodeia. Já nas pequenas vilas e cidades encontramos as habituais lojas, onde dá para comprar armas, armaduras e outros itens, assim como as inns, onde descansamos para recuperar as forças sempre que precisamos.
A Square Enix reutiliza várias ideias dos primeiros Final Fantasy, tanto na direção artística como na estrutura da aventura. Em pleno 2026, esta escolha continua a soar bem para o tipo de experiência que o jogo pretende oferecer. E se pensarmos, nem sempre é necessário complicar aquilo que ainda hoje é funcional e intemporal.

Um combate rápido de aprender, mas com várias camadas
Como seria de esperar de um jogo com a aura de um clássico, o combate baseia-se num RPG por turnos, apresentando elementos únicos que trazem dinamismo e estratégia para as batalhas. À primeira vista, parece mais do mesmo, mas há mecânicas que temos de aprender a dominar para tirar o máximo partido das personagens e das suas habilidades.
A ordem dos turnos surge no canto superior esquerdo do ecrã, permitindo-nos acompanhar a sequência dos ataques e perceber quando chega a vez de cada personagem ou inimigo. Para além das habilidades individuais, podemos recorrer aos poderes das Visions equipadas e aos Limit Bursts de cada um que, quando carregados, desencadeiam ataques especiais acompanhados de fantásticas animações.
O grind não exigente neste título, mas continua a ser necessário, uma vez que cada área tem um nível recomendado. Combater para ganhar experiência permite-nos fortalecer as personagens e as Visions, aumentando as suas capacidades e desbloqueando novas habilidades para ambas.
Porém, a estratégia em combate torna-se importante quando percebemos que é preciso explorar as fraquezas dos adversários. Todos os inimigos têm uma barra amarela que vai diminuindo à medida que sofrem danos. Para a esgotar mais depressa, devemos tirar partido das suas fraquezas elementais, como o fogo, a água, a terra ou o gelo. Quando isso acontece, ficam vulneráveis e atordoados, sofrem mais dano e a personagem responsável pelo ataque recebe um turno extra. Escolher as habilidades certas no momento certo pode fazer toda a diferença durante os combates.
Temos ainda um atordoamento especial. O seu efeito estende-se a todo o grupo, concedendo turnos adicionais e permitindo desencadear o ataque especial de uma das Visions que temos equipadas. As opções variam consoante a escolha, desde invocar uma aura de cura que nos pode salvar quando estamos prestes a perder a vida de todos os aliados, até um golpe poderoso que tira a maior parte da vida do oponente.

Os Espers também retornaram. Ao longo da aventura, teremos de enfrentar entidades mágicas como Siren, Ramuh, Ifrit para as dominar, recorrendo às capacidades de Fina, a misteriosa jovem que se junta ao grupo no início do jogo. Os jogadores vão certamente apreciar a presença destes majestosos seres. Os confrontos com os Espers estão entre os momentos mais desafiadores, mas vale o esforço porque depois de os derrotarmos podemos contar com a sua ajuda em combate. Nem todos têm a mesma força, mas qualquer um pode ser útil durante os três turnos em que permanece ao nosso lado.
Há muito para ter em consideração durante as batalhas, decidir qual o inimigo a atacar, escolher os Visions que melhor se adaptam à especialidade de cada personagem, explorar as fraquezas e perceber quando devemos atacar ou defender. No início, pode parecer muita informação, mas estes sistemas acabam por se adaptar à medida que ganhamos experiência e percebemos como se complementam.
Mesmo os inimigos comuns obrigam-nos a ponderar cada movimento, enquanto os chefes exigem uma abordagem muito mais metódica. Cheguei a passar mais de 30 minutos em alguns confrontos, tendo de adaptar a estratégia e aproveitar todas as oportunidades para conseguir vencer. Houve lutas que me deram imenso trabalho, mas também foram essas que me fizeram sentir verdadeiramente envolvido com o melhor que o combate tem para oferecer.
Importa salientar que existe uma boa variedade de criaturas, acabando por impedir que os combates se tornem repetitivos e previsíveis. Só é uma pena haver demasiada reciclagem de animações no que toca a ataques.

Final Fantasy HD-2D tornou-se realidade
Ver a estética HD-2D criada pela Team Asano aplicada em Final Fantasy é um sonho tornado realidade para qualquer fã. Continuo completamente fascinado por esta direção artística que, tal como aconteceu em Octopath Traveler e The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, nos faz reviver a era de ouro dos JRPG dos anos 90, quando a Square Enix ainda se chamava SquareSoft, mas com uma roupagem moderna que tem sido aperfeiçoada de jogo para jogo. Em Final Fantasy Resonance, os modelos das personagens são mais perceptíveis e detalhados e percebe-se que houve melhorias na iluminação dos cenários e nas próprias texturas. Esta qualidade estende-se às animações das habilidades, com um pixel art espetacular que, a meu ver, transmite melhor a fantasia e a magia tão características deste género japonês do que as animações mais realistas dos ataques especiais das Visions.
Para além das composições do genial Nobuo Uematsu, a banda sonora conta também com o trabalho do coletivo japonês Elements Garden, formado por compositores e produtores musicais como Noriyasu Agematsu, Seima Kondō, Ryota Tomaru, Junpei Fujita e Hitoshi Fujima.
A acompanhar tudo isto, temos uma banda sonora fenomenal, que para além de entregar temas novos, desperta naturalmente a nostalgia através de temas marcantes da série que continuam bem vividos na nossa memória. Recomendo também o voice acting em japonês, que confere ainda mais personalidade às personagens e às cenas do jogo.
Nem tudo é perfeito, faltam as legendas em português. É uma ausência que continuo a não compreender num título desta dimensão.

Conclusão
A Square Enix acerta em cheio com Final Fantasy Resonance. Com uma narrativa emocionante e um sistema de combate simples de aprender, embora estratégico, este é um jogo que brilha sem dúvida pela sua qualidade. As Visions permitem-nos reencontrar heróis de outros Final Fantasy, despertando a nostalgia de voltar a estar na companhia de personagens tão acarinhadas, enquanto a banda sonora nos envolve com temas icónicos da série. No final, é a combinação destes elementos que faz de Final Fantasy Resonance um JRPG de grande destaque e uma aventura que não deve passar ao lado de quem aprecia este género.












