
Desde março que paira sobre o Nagoshi Studio uma nuvem de incerteza que nunca chegou a dissipar-se. Agora, uma investigação da Game*Spark aos perfis de LinkedIn de membros conhecidos do estúdio confirmou o que muitos já suspeitavam, pelo menos sete pessoas, incluindo profissionais em cargos de liderança, deixaram a empresa até ao final de maio de 2026.
O Nagoshi Studio foi fundado em janeiro de 2022 como subsidiária a 100% da NetEase Games, com Toshihiro Nagoshi, o criador da série Yakuza e antigo responsável criativo da Sega durante mais de três décadas, na presidência. O cofundador e diretor de jogos Daisuke Sato também deixou a Sega para integrar o projeto desde o início. O plano era ambicioso, desenvolver jogos de alto nível para consolas, com lançamento global.
O primeiro, e único, projeto anunciado foi Gang of Dragon, revelado nos The Game Awards 2025. Ambientado nos becos de Kabukicho, em Shinjuku, Tóquio, o jogo tem como protagonista o ator sul-coreano Ma Dong-seok, conhecido internacionalmente por Train to Busan, The Outlaws e Eternals da Marvel. A aposta era clara, um drama de ação adulto e cinematográfico, sem concessões.
Mas a realidade financeira acabou por bater à porta. A NetEase informou os funcionários a 6 de março de 2026 de que iria cortar o financiamento ao estúdio, após concluir que completar o Gang of Dragon exigiria mais 7 mil milhões de ienes (cerca de 44 milhões de dólares) além do que já tinha sido investido. A empresa tentou encontrar financiamento alternativo, sem sucesso. Na prática, o estúdio ficou sem projeto e sem apoio. A partir daí, o seu canal no YouTube foi apagado, levando consigo todo o material promocional do jogo, o site oficial ficou offline e a morada do escritório no bairro de Ebisu, em Tóquio, passou a aparecer como “encerrado permanentemente” no Google.
Os primeiros sinais públicos de debandada vieram de forma indireta. Daisuke Sato atualizou a sua biografia na plataforma X para “ex-Nagoshi Studio”, confirmando a saída sem nunca o ter anunciado diretamente. Pouco depois, o próprio Nagoshi apareceu numa edição especial da revista Famitsu, uma entrevista comemorativa dos 40 anos da publicação, sem qualquer referência ao estúdio, aparecendo simplesmente como criador de jogos sem afiliação.
A investigação da Game*Spark veio preencher alguns dos espaços em branco. Kazuki Hosokawa, que dirigia o departamento de design do estúdio, foi o mais explícito: anunciou publicamente a sua saída no LinkedIn, descrevendo os quatro anos e meio no estúdio como um período passado “rodeado de talento”. Outros preferiram simplesmente atualizar as suas afiliações. Naoki Someya, designer de ambientes sénior e subdiretor do departamento de design, está agora na Lightspeed Japan. O artista técnico Tomoharu Hosaka transferiu-se para a Capcom. Hiroya Wakui e Saizo Nagai, este último artista de personagens principal, juntaram-se à MIXI, criadora do Monster Strike, a partir de junho. Já Shuichi Takahashi e Toshihiro Ando não indicaram novas afiliações, mas referem o Nagoshi Studio como antigo empregador.
Até ao momento, nem o estúdio nem a NetEase fizeram qualquer declaração oficial sobre o futuro do Gang of Dragon ou do próprio estúdio. O silêncio persiste.
O que se passa com o Nagoshi Studio não é um caso isolado. Nos últimos anos, a NetEase encerrou ou cortou financiamento a mais de uma dúzia de estúdios internacionais, numa inversão da estratégia de expansão global que a empresa tinha adotado. Entre os afetados estão os norte-americanos Jar of Sparks e Worlds Untold, o estúdio japonês Ouka Studios, responsável pelo Visions of Mana, entretanto cancelado, e outros. O padrão é claro, a empresa reorientou-se para títulos domésticos de maior volume e menor risco.









