
A Sendai Editora, editora portuguesa especializada em mangá alternativo e underground, vai publicar em 2026 o mangá Midori: a menina das camélias de Suehiro Maruo. Trata-se de uma das obras mais emblemáticas, e controversas, de toda a história do mangá, e a sua chegada ao mercado português representa um momento significativo para os leitores nacionais que há anos acompanham o trabalho desta editora.
O título original, Shōjo Tsubaki (少女椿, literalmente “a rapariga da camélia”), foi serializado na revista underground Garo entre agosto de 1983 e julho de 1984, sendo depois compilado em volume único pela editora Seirindō. Em inglês circulou com os títulos Mr. Arashi’s Amazing Freak Show e Camelia Girl; em Portugal será publicado como Midori: a menina das camélias.
Midori: a menina das camélias já está em pré-venda no website da editora e os primeiros 100 a comprar terão direito a um brinde.
A história segue Midori, uma menina de doze anos que, depois de ficar órfã, acaba a trabalhar num circo de aberrações gerido pelo sinistro Arashi. Submetida a humilhações e abusos constantes por parte dos membros da trupe, a sua vida transforma-se ligeiramente quando um anão ilusionista se afeiçoa a ela e toma-a sob a sua proteção, embora o alívio que ele representa seja, por si só, profundamente ambíguo. A narrativa decorre num Japão do início do século XX e está profundamente enraizada na estética ero-guro, o género japonês que cruza o erótico com o grotesco, e que Maruo domina como poucos.
Suehiro Maruo nasceu a 28 de janeiro de 1956 em Nagasaki e fez a sua estreia oficial como autor de mangá em novembro de 1980. A sua primeira tentativa de publicação, enviada para a Weekly Shōnen Jump ainda em jovem, foi rejeitada por ser considerada demasiado gráfica para o formato da revista, o que, retrospetivamente, diz muito sobre o tipo de trabalho que Maruo produz.
Ao longo da sua carreira, tornou-se um colaborador assíduo da revista Garo, o principal espaço japonês para mangá experimental e underground. O seu estilo é inconfundível, inspirado na estética do Japão da era Taisho e Showa, com influências do kamishibai (a arte de contar histórias através de imagens desenhadas à mão) e uma crueza visual que não concede ao leitor qualquer distância confortável do que está a ser retratado.
Para além de mangaká, Maruo é também ilustrador e pintor, tendo criado capas de discos, cartazes de concertos e ilustrações para publicações variadas.
O peso da adaptação anime
Boa parte da notoriedade internacional de Shōjo Tsubaki deve-se a uma adaptação anime que permanece até hoje uma das produções independentes mais radicais da história da animação japonesa. O filme, dirigido por Hiroshi Harada, foi lançado a 2 de maio de 1992 e é conhecido pela brutalidade do seu conteúdo e pelas sessões elaboradas com que era exibido, incluindo efeitos de fumo e outros elementos cénicos que intensificavam a experiência do público.
Harada financiou o projeto com as suas próprias poupanças e trabalhou nele durante cinco anos, desenhando à mão cerca de cinco mil layouts. Emulou deliberadamente a técnica do kamishibai, uma forma de narrativa visual criada por monges budistas japoneses que esteve na base do desenvolvimento do próprio mangá. A produção foi um esforço quase solitário, e a sua distribuição permaneceu restrita durante décadas.
Em 2016 chegou ainda uma adaptação em live-action, Midori: The Camellia Girl, realizada por Torico e lançada a 21 de maio de 2016, que incorpora segmentos de animação e expande a história com elementos do kamishibai original no qual o mangá também se inspirou.
A Sendai Editora lançou o seu primeiro título, Panorama do Inferno, em junho de 2021 em Portugal. Desde então tem construído um catálogo orientado para o mangá de autor, underground e alternativo, com obras como Helter Skelter, a série Emanon, Tóquio Zombie e Clube de Ocultismo e as Bonecas da Morte.







