
Uma esquadra de polícia no Texas acabou de ser extinta depois de uma investigação estatal ter concluído que não trazia qualquer benefício à comunidade que devia proteger. Tudo começou com a detenção de uma mulher que se limitou a alertar os vizinhos para um problema na água da localidade.
A história tem como protagonista Jennifer Combs, moradora de Trinidad, uma pequena cidade de cerca de 800 habitantes no condado de Henderson, a pouco mais de cem quilómetros de Dallas. Em maio, Combs publicou no Facebook, através de uma conta chamada Southern Belle Watch, que tinha recebido relatos de residentes hospitalizados devido a bactérias presentes nas canalizações de água da cidade. O texto pedia ainda a quem estivesse a sentir água descolorada, com sedimentos, cheiros estranhos ou problemas de saúde relacionados que partilhasse a sua experiência, para que a informação pudesse ser reportada às autoridades estatais.
A resposta da polícia local não foi propriamente proporcional. Combs acabou detida a 8 de maio sob acusação de crime de falso alarme, tendo passado a noite na cadeia. Segundo a polícia de Trinidad, a publicação tinha gerado “medo, pânico ou uma resposta de emergência desnecessária na comunidade“.
O problema é que a própria autarquia já tinha reconhecido o risco semanas antes. A 21 de abril, ou seja, quase três semanas antes da publicação de Combs, a cidade tinha emitido um aviso oficial a pedir aos residentes que fervessem a água antes de a consumir, precisamente para “evitar bactérias nocivas”. O então chefe da polícia, Charles Gregory, insistiu que o caso contra Combs era “simples e direto” e garantiu numa reunião da câmara municipal que não tinha “nada a esconder” sobre as detenções.
E não ficou por aqui. Um apoiante de Combs, identificado como Winston Noles, foi também detido, desta vez por conduta desordeira, depois de exibir um cartaz com insultos dirigidos à polícia junto à câmara municipal. As acusações contra ambos acabariam por ser retiradas, já depois de o caso ter ganho atenção nacional nos Estados Unidos. Gregory demitiu-se do cargo a 19 de junho.
O que a investigação estatal encontrou
O caso levou a Comissão do Texas para as Forças da Ordem, conhecida pela sigla TCOLE, a abrir uma investigação à esquadra de Trinidad. Depois de uma inspeção realizada a 5 de agosto, a agência enviou uma carta ao presidente da câmara, Dennis Haws, a 9 de setembro, na qual concluiu que o departamento “não cumpriu os padrões mínimos” exigidos e estava “incapaz de apresentar provas de que a agência presta um benefício público à comunidade”.
Os investigadores identificaram ainda várias falhas graves, incluindo a inexistência de políticas obrigatórias por lei no Texas, como as relativas ao uso da força, perseguições automóveis, conduta profissional e resposta a situações de atirador ativo. A esquadra também não tinha coletes à prova de bala suficientes nem um espaço adequado para armazenar provas.
Com base nestas conclusões, a licença da esquadra para operar como força policial própria foi revogada. A pequena força, composta por cinco agentes a tempo inteiro e alguns elementos a tempo parcial, encerrou portas esta sexta-feira, com o gabinete do xerife do condado de Henderson a assumir a partir de agora todas as chamadas de emergência e o policiamento da zona.
Depois de conhecida a decisão da TCOLE, Combs voltou a publicar no Facebook: “Durante meses, os cidadãos que questionaram este departamento foram ignorados, atacados e, no meu caso, presos. Agora, a agência estatal responsável por regular as forças policiais do Texas confirmou que este departamento não conseguia demonstrar conformidade nem com os padrões mínimos. Nunca fomos o problema. Estávamos a expô-lo“.
Já o presidente da câmara de Trinidad reagiu com resignação à notícia: “Tem havido muita negligência ao longo dos anos. Estamos a avançar numa direção positiva. Temos de ultrapassar tudo isto”.
Este não é o único caso recente nos Estados Unidos em que uma publicação nas redes sociais acaba por pôr em causa uma esquadra inteira. Ainda este ano, uma cidade na Geórgia viu-se obrigada a reintegrar todo o seu corpo policial depois de o presidente da câmara ter despedido os agentes na sequência de uma disputa pessoal que envolvia a sua mulher, também ela relacionada com publicações no Facebook.









