O género survival horror atravessa, inegavelmente, uma segunda era de ouro. Depois de anos de certa estagnação, assistimos a um renascimento impulsionado por recriações incríveis de clássicos que definiram gerações. Enquanto nomes como Resident Evil e Silent Hill ocupam habitualmente as luzes da ribalta, existe uma outra linhagem de terror, mais silenciosa, mais espiritual e profundamente enraizada no folclore nipónico.

Conhecida na Europa como Project Zero e no Japão como Fatal Frame, a franquia da Koei Tecmo foi sempre o “segredo mais bem guardado” dos entusiastas do terror. Com a sua atmosfera asfixiante e o uso peculiar da Camera Obscura, a série oferece sempre uma experiência de medo psicológico que poucos conseguiram replicar.

Depois do lançamento dos remasters de Project Zero: Maiden of Black Water (2021) e Project Zero: Mask of the Lunar Eclipse (2023), chega no dia 12 de março Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake, uma nova versão que refina as mecânicas e a apresentação visual do título considerado o pináculo narrativa da série.

O primeiro encontro das irmãs com a aldeia

A história mergulha-nos na jornada de Mio e Mayu, duas irmãs gémeas que, após se perderem numa floresta, acabam por descobrir Minakami, uma aldeia que foi esquecida com o tempo. O local está sob uma maldição, fruto de um ritual que colapsou tragicamente e que as irmãs parecem agora destinadas a repetirem. Ao perceberem que a vila é um purgatório de almas, Mio (a protagonista que controlamos) encontra a Camera Obscura, a sua única defesa para enfrentar presenças fantasmagóricas enquanto tenta desvendar os segredos sombrios que assolam esta vila.

Para os veteranos da série, é gratificante ver que o remake preserva a essência do título original, mantendo o tom melancólico e o horror folclórico que tanto definiram a identidade da franquia. No entanto, uma novidade desta versão é a introdução de novas áreas e novas histórias secundárias que expandem consideravelmente o lore. Os novos fragmentos narrativos permitem-nos compreender melhor o quotidiano e o destino fatal dos habitantes de Minakami, dando um rosto e uma história às famílias que ali sucumbiram.

O enredo inspira-se visivelmente nos clássicos do J-Horror (como Ju-On) e nas lendas urbanas japonesas, onde rituais obscuros e vinganças além da vida ditam o ritmo do medo. No centro de tudo está a relação simbiótica entre as irmãs. O instinto protetor de Mio é palpável, moldado pelo trauma do acidente na infância, recordado logo na abertura do jogo, quando Mayu caiu de um penhasco, ficando com uma perna permanentemente lesionada.

Esta vulnerabilidade é levada a um novo patamar através da mecânica “Dar a mão a Mayu”. Mais do que um simples recurso de jogabilidade para recuperar vida e a barra Willpower, este gesto acrescenta uma camada emocional profunda. Sentimos fisicamente a dependência e a ligação entre as duas, tornando a imersão narrativa muito mais visceral e urgente.

Os fantasmas têm vários pontos a vermelho para atingir e assim causar mais dano

A jogabilidade de Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake preserva a alma do original, mas adiciona novidades que modernizam e tornam o ciclo de jogo mais envolvente. Ao contrário de outros survival horror, onde o confronto direto é resolvido normalmente com armas de fogo, esta série diferencia-se pelo uso exclusivo da Camera Obscura, a mística ferramenta fotográfica que continua a ser o nossa única arma contra o reino espiritual. Nesta versão o combate mantém-se fiel à premissa de que a eficácia de um exorcismo depende da nossa precisão: para causar o dano máximo, é importante enquadrar e focar os espíritos no momento exato, o que cria picos de tensão enquanto as entidades se aproximam da nossa direção com intenção de nos magoar. Este desafio é agora intensificado pela adição de um estado de fúria nos inimigos, uma mecânica vista em Mask Of The Lunar Eclipse que torna as aparições muito mais imprevisíveis e agressivas.

Durante o jogo temos acesso a um sistema de amuletos que concedem diferentes bónus ligados à Camera Obscura. Ao expandirmos a bolsa de amuletos, podemos equipar mais efeitos, criando pequenas variações de estratégia durante a exploração e o combate.

Para revitalizar a fórmula clássica deste jogo, o remake integrou um sistema de progressão mais profundo através da árvore de habilidades dedicada à câmara. É neste espaço que desbloqueamos funções como o Focus e o Zoom, ferramentas fundamentais para manter uma distância de segurança enquanto garantimos que o alvo permanece no centro da lente. No entanto, a novidade mais impactante reside no acrescento na troca de filtros e da barra Willpower. Os filtros funcionam como modos de disparo distintos que permitem adaptar a nossa abordagem a diferentes ameaças; enquanto o filtro Standard se revela competente em distâncias curtas e a atordoar os oponentes, o filtro Radiant por exemplo permite desferir disparos mais fortes à distância. Contudo, a utilização destas capacidades especiais não é ilimitada, sendo gerida pela barra Willpower, o que obriga a uma gestão minuciosa dos recursos em vez de uma dependência cega nos ataques mais poderosos.

A própria evolução da Camera Obscura estende-se organicamente para além dos confrontos, assumindo-se como uma mecânica-chave para a exploração da Aldeia Minakami. A câmara é agora mais versátil na resolução de puzzles, sendo utilizada para dissipar selos espirituais em portas trancadas por forças de outro mundo ou até para revelar memórias residuais que flutuam pelos cenários. Investigar cada recanto do mapa continua a ser um dos aspetos mais agradáveis da experiência, recompensando-nos com diversos tipos de Filme, que funcionam como a nossa munição, itens de cura, bem como documentos deixados para trás que aprofundam o trágico destino das famílias que ali viveram. Esta cooperação entre o combate tático e a descoberta da narrativa através da lente traz uma personalização sem precedentes à série, tornando o ato de explorar algo simultaneamente aterrorizante e mecanicamente recompensador.

Normalmente, a única luz que envolve o ambiente é a nossa lanterna, a das velas ou a da lua

O que também mudou, e que fica imediatamente evidente neste remake, é a própria forma como o observamos. Se o jogo original se apoiava em ângulos de câmara fixos e nos arcaicos “controlos de tanque” da era da PlayStation 2, esta versão abraça a modernidade com uma perspetiva de terceira pessoa sobre o ombro. Esta transição, acompanhada por uma interface melhorada e pela inclusão de um minimapa, altera radicalmente o ritmo da jornada. É inegável que os planos fixos de outrora permitiam enquadramentos cinematográficos que manipulavam o suspense de forma exemplar. No entanto, a liberdade de movimento atual e a fluidez dos novos controlos compensam essa perda com uma imersão muito mais direta. Interagir com os cenários sombrios da Aldeia Minakami tornou-se um processo mais instintivo e compensador, onde a evolução gráfica e a agilidade da câmara trabalham em conjunto para que o horror se sinta mais próximo.

A evolução visual é outra mudança deste remake. O salto gráfico é notório, mas o que me impressionou foi a forma como a equipa da Team Ninja conseguiu preservar a atmosfera e estética de horror do original. A Aldeia foi reconstruida ao detalhe, as texturas das madeiras velhas e o jogo de luzes e sombras criam uma atmosfera que se sente mais sombria e mais assolada pelo tempo. O realismo estende-se aos modelos das personagens, que apresentam agora uma expressividade muito mais humana, tornando a angústia de Mio e Mayu mais percetível.

Os jogadores podem experimentar o jogo através de uma demo que está disponível em todas as plataformas.

Já o som transforma por completo a nossa passagem por este local assombrado. A paisagem sonora foi trabalhada para que o silêncio nunca seja absoluto, ouvimos o ranger das tábuas sob os nossos passos, o estalar das estruturas das casas abandonadas e, claro, os inquietantes grunhidos e sussurros dos espíritos que nos rodeiam.

No entanto, nem tudo nesta jornada é fluido. No que toca ao desempenho na PlayStation 5 o jogo corre a 30 fps. O problema é que os fps tendem a oscilar e a demonstrar instabilidade durante os combates, onde a precisão da câmara é vital. Somando-se a esta questão técnica, surge uma decisão da Koei Tecmo que é difícil de compreender, o jogo chega sem legendas em português, uma omissão que se torna ainda mais estranha quando olhamos para o histórico recente da editora, títulos como Nioh 3 contaram com localização para português do Brasil.

Uma das personagens misteriosas do jogo

Por fim, é gratificante ver esta franquia alcançar finalmente uma nova vaga de jogadores. Fatal Frame sempre foi uma série de nicho, mas a sua atmosfera e as suas mecânicas singulares provam que merece toda a atenção dos entusiastas do terror. Este remake é uma revitalização feita com apreço e qualidade, que devolve à jornada aterrorizante de Mio e Mayu o impacto e a relevância que o tempo não conseguiu apagar.

Embora existam arestas por limar em Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake, o balanço final é positivo. Com este alicerce sólido agora estabelecido, o próximo passo lógico e aquele que também aguardo com maior expectativa, é o anúncio de um novo capítulo.

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