Em março de 2026, Tatsuki Fujimoto publicou o capítulo 232 de Chainsaw Man e fechou a porta. Sem anúncios antecipados, sem grande despedida, exatamente como a série viveu. Se ainda não sabes o que fazer com esse vazio, aqui ficam 10 sugestões.
10Fire Punch
Se ainda não leste Fire Punch, esta é a primeira paragem obrigatória. Antes de Chainsaw Man existir, Fujimoto publicou esta série entre 2016 e 2018, e é, em muitos aspetos, uma obra ainda mais extrema. A história passa-se num mundo destruído por um inverno permanente, onde a humanidade sobrevive em condições miseráveis e os poucos que têm poderes são tratados como ferramentas ou como deuses, conforme a conveniência.
O protagonista, Agni, tem a capacidade de regenerar qualquer ferimento, o que parece uma bênção até alguém lhe atear fogo com chamas que nunca se apagam. A partir daí, Fire Punch torna-se uma viagem por entre identidade, trauma, vingança e a construção artificial de figuras heroicas. O tom é mais morbido do que qualquer coisa em Chainsaw Man, e a série não tem medo de ir a lugares que a maioria dos autores evitaria.
O que torna Fire Punch especialmente interessante para quem vem de Chainsaw Man é a forma como Fujimoto já estava a trabalhar os mesmos temas que mais tarde aperfeiçoaria, a alienação do protagonista, a exploração do conceito de herói e a narrativa que muda de direção quando menos se espera. É uma obra imperfeita, sem dúvida, mas imperfeita da forma mais fascinante possível.
9Ranger Reject
Este é o título mais surpreendente da lista. Negi Haruba é conhecido principalmente por The Quintessential Quintuplets, uma comédia romântica sem grandes pretensões. Go, Go, Loser Ranger! (Sentai Daishikkaku), parece à partida uma paródia dos Super Sentai, o género de tokusatsu que inspirou séries como os Power Rangers. Mas a série vai muito além disso.
A premissa inverte completamente os papéis esperados, os Rangers Divinos, os “heróis” da história, são na verdade uma força opressora e hipócrita que mantém o seu poder à custa de um ciclo de violência encenada. O protagonista é um dos monstros descartáveis que eles derrotam semana após semana, e que, a determinado momento, decide que chegou ao limite. É uma série sobre sistemas de poder, sobre a ficção que os sustenta e sobre o que acontece quando alguém de baixo decide olhar para cima e recusar-se a continuar a jogar.
O início é lento e pode exigir alguma paciência, mas a partir do segundo arco a série encontra o seu ritmo e torna-se genuinamente viciante. Para fãs de Chainsaw Man que gostaram da forma como a série desconstruía a ideia de herói, especialmente na Parte 2, Go, Go, Loser Ranger! é uma leitura muito satisfatória.
8Tower Dungeon
Fujimoto recomendou publicamente Tsutomu Nihei em várias ocasiões, e não é difícil perceber porquê. Nihei é o autor de Blame! e Knights of Sidonia, dois clássicos da ficção científica sombria em formato mangá, e Tower Dungeon representa a sua primeira incursão na fantasia tradicional, o que por si só já é razão suficiente para prestar atenção.
A premissa é propositadamente simples, um necromante matou o rei e encerrou a princesa numa torre labiríntica repleta de monstros e armadilhas. Um grupo de soldados, entre os quais um jovem camponês chamado Yuuva, é enviado para a resgatar. O que parece uma história de fantasia direta rapidamente se revela algo de muito mais complexo, com uma arquitectura de mundo que se constrói de forma gradual e uma arte que distorce o espaço e a perspetiva de formas quase alucinatórias.
Tower Dungeon não é uma série que prende pela velocidade da narrativa, prende pela textura. Cada painel parece conter mais informação do que é possível absorver numa primeira leitura, e a escuridão subjacente à história acumula-se de forma quase impercetível. Para leitores com paciência para deixar um mundo ganhar forma devagar, é uma das obras mais recompensadoras dos últimos anos.
7Centuria
Centuria é talvez a série mais jovem desta lista, com apenas dois anos de serialização no Shonen Jump+, mas já demonstrou ser algo fora do comum. A história começa num navio de escravos que sofre um naufrágio catastrófico, durante o qual o protagonista Julian recebe poderes sobrenaturais de uma entidade monstruosa e fica com a responsabilidade de proteger o bebé órfão de um dos outros cativos. A partir daí, a série não poupa ninguém.
Tohru Kuramori foi assistente de Fujimoto durante o processo de criação de Goodbye Eri, e essa proximidade nota-se, tanto na forma como a câmara “olha” para as personagens como na maneira brutal com que a história trata as suas consequências. Mas Centuria não é uma cópia de ninguém. A influência de Berserk é igualmente visível na forma como aborda o sofrimento, a lealdade e a resiliência em condições extremas, e Kuramori já está a desenvolver uma voz própria que promete muito para os anos seguintes.
Para quem procura uma série no seu início que ainda pode acompanhar capítulo a capítulo, com a excitação de não saber para onde vai, Centuria é a melhor aposta do momento.
6The Bugle Call: Song of War
Há séries que crescem devagar dentro da comunidade, sem grandes explosões de popularidade, simplesmente porque são demasiado boas para passar despercebidas durante muito tempo. The Bugle Call: Song of War é uma delas. Publicada no Shonen Jump+, a série tem vindo a acumular uma base de leitores fiel que a coloca consistentemente entre as mais recomendadas em fóruns especializados.
O protagonista, Luca, é um órfão com a capacidade de manifestar som como luz, um poder que, em vez de o aproximar do sonho de ser músico em paz, o arrasta para conflitos militares de enorme escala. A série usa esse paradoxo como motor narrativo, um rapaz que quer criar beleza é forçado a usá-la para coordenar destruição. O worldbuilding é rigoroso e detalhado, o combate tem uma lógica estratégica que raramente se vê neste género, e o desenvolvimento das personagens atinge picos de intensidade emocional que chegam a surpreender.
É o tipo de mangá que começa bem e melhora a cada arco, o sinal mais fiável de que vale a pena investir.
5Berserk
Chegamos ao nome incontornável. Berserk é a sombra que paira sobre toda a fantasia sombria japonesa, e Chainsaw Man não é exceção. Fujimoto nunca escondeu a admiração pela obra de Kentaro Miura, e ela é visível em múltiplos aspetos da série, na forma como trata os seus antagonistas, na construção do desespero e na recusa em tratar o sofrimento das personagens como mero espetáculo.
A história de Guts, um guerreiro marcado desde o nascimento, sobrevivente de uma traição que destruiu tudo o que conhecia, perseguido por demónios enquanto tenta encontrar algum sentido no mundo, é uma das narrativas mais ricas e ambiciosas alguma vez contadas em mangá. A arte de Miura é de uma densidade e de um detalhe que ainda hoje não tem paralelo, e os momentos de maior impacto emocional da série são difíceis de igualar em qualquer meio.
Há um contexto importante a ter em conta, Kentaro Miura faleceu em maio de 2021, deixando a série inacabada. O seu amigo próximo Kouji Mori retomou a publicação em 2022, com a arte a cargo do Studio Gaga, o estúdio de assistentes que trabalhou com Miura durante décadas. O capítulo mais recente, o 383, foi publicado em setembro de 2025, e Mori confirmou que a série vai continuar em 2026. A continuação é diferente, inevitavelmente, mas tem sido recebida com respeito pela comunidade e mantém-se fiel à visão original do autor. Para quem ainda não leu Berserk, há dezenas de volumes impecáveis à espera.
4After God
After God é uma daquelas séries que é difícil de descrever sem tornar o conceito demasiado simples. No Japão distópico que serve de cenário, criaturas de dimensões colossais conhecidas como Deuses desceram à Terra e tornaram regiões inteiras inabitáveis, a simples proximidade com elas é fatal. A sociedade reorganizou-se à volta dessa ameaça constante, e é nesse contexto que Waka, uma jovem com poderes inexplicáveis, começa a trabalhar com um investigador da Instituição Anti-Deus para enfrentar essas entidades diretamente.
O que distingue After God das outras séries de ação com monstros colossais é o ritmo. A série não perde tempo a instalar o mundo, atira o leitor para dentro dele e vai revelando as suas regras enquanto a ação avança. Visualmente, tem uma inventividade que faz lembrar o melhor da ficção científica sombria japonesa, e a imprevisibilidade dos acontecimentos é do tipo que faz abrir o capítulo seguinte imediatamente depois de terminar o anterior. Quem ficou viciado no caos controlado de Chainsaw Man vai sentir-se em casa.
3Dai Dark
Q Hayashida tem uma das vozes mais únicas do mangá contemporâneo. Em Dorohedoro, a sua obra mais conhecida, criou um universo caótico, violento e estranhamente reconfortável, onde o horror convive com o humor e a brutalidade coexiste com momentos de ternura genuína. Dai Dark aplica a mesma fórmula a um cenário completamente diferente, o espaço sideral.
O protagonista, Zaha Sanko, é um adolescente alienígena cujos ossos são alegadamente milagrosos, o que o torna o alvo mais procurado de todo o cosmos. Assassinos, cultistas e entidades diversas perseguem-no em cada capítulo, e a série abraça essa premissa com uma energia que nunca parece forçada. Há algo muito familiar para os fãs de Chainsaw Man nesta combinação, o protagonista constantemente em perigo, o humor que surge nos momentos mais inapropriados e a capacidade de tornar personagens secundárias memoráveis em poucos capítulos.
Para quem o que mais gostou em Chainsaw Man foi precisamente esse equilíbrio improvável entre o absurdo e o emocional, Dai Dark é leitura obrigatória. E se ainda não leste Dorohedoro, aproveita para ler os dois.
2Goodnight Punpun
Esta é a entrada mais difícil da lista, e provavelmente a mais importante. Goodnight Punpun (Boa Noite, Punpun) não tem monstros, não tem poderes, não tem confrontos sobrenaturais. É a história de Punpun Onodera, um rapaz comum representado graficamente como um pássaro estilizado, desde o ensino básico até ao início da vida adulta. Inio Asano usa esse distanciamento visual para fazer exatamente o oposto do que se esperaria, tornar tudo mais próximo, mais real, mais difícil de ignorar.
O que Asano faz com as suas personagens é cruel da forma mais honesta possível. Os adultos falham os filhos, os jovens repetem os erros que viram em casa, os relacionamentos destroem-se de formas que qualquer leitor vai reconhecer com desconforto. Não é um mangá para ler quando já estás em baixo, mas é um dos mais importantes que o meio produziu nas últimas duas décadas.
Para os fãs de Chainsaw Man que sempre afirmaram que o verdadeiro valor da série estava na escrita das personagens e não na ação, Goodnight Punpun vai confirmar essa intuição de uma forma que nunca esquecerão. É o tipo de obra que muda ligeiramente a forma como se vê o mundo depois de a terminar.
1Choujin X
Sui Ishida já tinha ganho o respeito da comunidade com Tokyo Ghoul, uma série que, apesar das suas inconsistências, tinha momentos de escrita e design visuais que poucos autores conseguem alcançar. Em Choujin X, parece estar a trabalhar com mais liberdade e com uma maturidade que a série anterior não tinha de forma consistente.
O conceito base é o seguinte, certas pessoas, os Choujin, manifestam poderes sobrenaturais que refletem e amplificam o seu estado emocional e psicológico. O processo não é gratuito nem limpo, e a série dedica tanto tempo a explorar o que esses poderes fazem às pessoas como os combates em si. O universo é propositadamente caótico e cheio de ideias que surgem antes de serem completamente desenvolvidas, uma escolha arriscada que, na maior parte das vezes, funciona.
O que torna Choujin X especialmente recomendável para fãs de Chainsaw Man é a escrita dos protagonistas e das suas relações. Ishida tem uma capacidade rara de fazer personagens que crescem de formas inesperadas, que falham de formas reconhecíveis e que surpreendem mesmo quando o leitor julgava já as conhecer bem. Se Chainsaw Man era sobre o que significa querer algo num mundo que não te deve nada, Choujin X está a explorar um território muito semelhante, e ainda não terminou.









