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Crise no Estreito de Ormuz pode fazer disparar preços das casas no Japão até 30%

Crise no Estreito de Ormuz chega ao imobiliário japonês e pode custar até 30% mais numa casa nova

O conflito no Médio Oriente está a chegar ao dia a dia dos japoneses de uma forma que poucos antecipavam, pela porta de casa, ou, mais precisamente, pela impossibilidade de a construir. A escassez de nafta, um derivado do petróleo essencial para a indústria da construção, está a colocar em risco projetos em todo o país e a empurrar os preços da habitação para valores históricos.

A nafta é utilizada em dezenas de componentes de uma casa comum, impermeabilizantes, isolamentos, adesivos, tubagens, revestimentos de paredes e até tomadas elétricas. Quando a sua disponibilidade falha, praticamente nada numa obra avança normalmente. E é precisamente isso que está a acontecer agora no Japão.

O ponto de partida desta crise está a milhares de quilómetros de Tóquio. Desde o início de 2026, o conflito em torno do Estreito de Ormuz paralisou ou dificultou seriamente o tráfego marítimo numa das rotas mais críticas para o abastecimento energético da Ásia. O Golfo Pérsico era responsável, antes da guerra, por cerca de 23% da nafta transacionada globalmente por via marítima.

Para o Japão, um país que depende fortemente de importações desta matéria-prima, o impacto foi imediato. 42 embarcações ligadas ao Japão continuam retidas no Golfo Pérsico, incluindo petroleiros, navios-tanque químicos e transportadores de gás natural liquefeito. O presidente da Associação de Armadores do Japão, Yasuhiro Shinohara, deixou um aviso claro: “Desde o bloqueio efetivo de 28 de fevereiro, já passaram quase 50 dias. Os navios estavam programados para viagens de ida e volta entre o Japão e o Golfo Pérsico em cerca de 40 dias, pelo que é necessária uma ação urgente para garantir a sua libertação”.

Obras paradas, materiais em falta

No terreno, as consequências já se fazem sentir de forma concreta. Numa obra de renovação de fachadas, os trabalhos foram suspensos porque os materiais de vedação simplesmente não chegaram. Noutro caso, uma reparação urgente de telhado ficou parada por falta de mantas impermeabilizantes.

Os preços dos materiais de construção dependentes da nafta estão a subir de forma acentuada. As mantas impermeabilizantes para telhados deverão encarecer cerca de 50%, enquanto os isolamentos para pavimentos já foram marcados para aumentos de aproximadamente 40%. E os construtores continuam a receber notificações de novos aumentos e restrições de envio por parte dos fornecedores.

A pressão não se limita à construção nova. A empresa Asahi Kasei, que produz desde habitações prefabricadas da sua marca Hebel Haus até produtos de uso doméstico como o conhecido film aderente Saran Wrap, confirmou que os aumentos de preço em toda a sua gama se tornarão inevitáveis. O presidente Koshiro Kudo foi direto: “Há muitas áreas em que teremos de pedir repercussão de preços. Caso contrário, o próprio negócio deixará de ser viável”.

Mercado já sob pressão antes desta crise

O problema da nafta surge num momento em que o mercado imobiliário japonês já enfrentava dificuldades estruturais. Os apartamentos novos nas 23 circunscrições especiais de Tóquio atingiram em 2025 um preço médio recorde de 137,84 milhões de ienes, representando um aumento de 18,5% face ao ano anterior. Era o terceiro ano consecutivo acima dos 100 milhões de ienes.

Os custos de materiais de construção e mão de obra já eram em 2025 entre 25% e 29% superiores aos do início de 2021. A escassez de trabalhos novos nos centros urbanos era tal que o número de apartamentos novos à venda na Grande Tóquio caiu para o valor mais baixo desde 1973.

A este cenário junta-se agora a crise do petróleo, que, segundo os analistas, poderá manter os custos de importação elevados durante um período prolongado, mesmo que os bloqueios logísticos se venham a resolver.

O impacto além da construção

A escassez de produtos derivados da nafta não afeta apenas as obras. Os supermercados japoneses já foram notificados de aumentos nos preços de film aderente, tabuleiros e luvas de plástico. A Associação Japonesa de Empresas de Pintura chegou mesmo a solicitar ao governo medidas para garantir o abastecimento estável de tintas e diluentes, alertando para uma situação cada vez mais crítica.

O governo reconhece o problema, mas minimiza a sua gravidade, atribuindo as perturbações a congestionamentos na distribuição em vez de uma escassez efetiva de recursos. O ministro da economia, Ryosei Akazawa, afirmou que a coordenação entre fornecedores deverá aliviar os estrangulamentos a nível nacional. As associações do setor, porém, não partilham desse otimismo.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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