海外の反応を見ると、非難の声はほとんどなく、日本独自のHentai文化の一つとして理解されてるような…https://t.co/UWdn3wjRDF pic.twitter.com/zlhtzlgLSZ
— xavixavi (@xavixavi592705) April 26, 2026
Num país onde a cultura idol é levada com uma seriedade quase religiosa, o caso de Hari Matsumoto conseguiu mesmo assim surpreender. A cantora de Wakayama, na ilha de Honshu, começou a oferecer aos fãs a possibilidade de cheirar as suas axilas nos encontros após os espetáculos, trocando os habituais apertos de mão ou abraços por algo que rapidamente deu a volta ao mundo e gerou reações divididas.
Num dos vídeos que circulam online, um fã de meia-idade imita um cão, ergue os punhos e aproxima-se das axilas da artista com a sua permissão. No final, ela senta-o e abraça-o com suavidade. As imagens correram rapidamente pelas redes sociais e trouxeram consigo uma discussão que vai muito além do gosto pessoal.
Quem são as idols underground no Japão
Matsumoto enquadra-se numa categoria específica da cultura idol japonesa, as chamadas “underground idols”, artistas que atuam em salas pequenas, teatros independentes, centros comerciais ou livehouses, e que raramente aparecem nos meios de comunicação tradicionais. A sua notoriedade não vem de contratos com grandes agências nem de campanhas publicitárias, mas do contacto direto e frequente com os fãs.
Ao contrário das idols de topo, que aparecem em televisão, revistas e publicidade, o modelo de negócio destas artistas assenta quase inteiramente na proximidade. É precisamente essa proximidade que cria um mercado para interações que, noutros contextos, seriam impensáveis.
Matsumoto nunca explicou publicamente por que razão introduziu este “serviço”. Observadores e críticos da indústria apontam para o óbvio, numa cena com milhares de artistas a competir pela atenção de um número limitado de fãs devotos, distinguir-se tornou-se uma necessidade de sobrevivência.
Contratos de lealdade e declarações de amor
A reação de alguns fãs ao caso não foi menos surpreendente do que o próprio serviço. Um utilizador partilhou online uma fotografia de Matsumoto com a legenda: “Gosto muito do teu cheiro. A razão pela qual nasci foi para conhecer a Hari. Amo-te”.
Outros foram ainda mais longe e propuseram à artista o que descrevem como “contratos de felicidade para toda a vida”, comprometendo-se a entregar-lhe todos os seus rendimentos e a não estabelecer relações com outras mulheres como sinal de lealdade.
A dimensão deste tipo de dedicação não é necessariamente nova na cultura idol japonesa, mas o contexto em que surge, negociada abertamente numa interação pós-espetáculo que já é ela própria polémica, deu-lhe uma visibilidade diferente.
A reação online foi maioritariamente negativa. Um utilizador descreveu o serviço como “nojento”, acrescentando: “É melhor pensar nisto como entretenimento adulto de baixo custo do que como idols”. Outro comentário foi mais ponderado na forma, mas igualmente crítico no conteúdo: “Sinto tristeza pela Matsumoto. A indústria underground de idols tolera frequentemente, de forma deliberada ou inconsciente, tipos de comportamento que seriam inaceitáveis noutras profissões, como expor a vida privada ou vender odores corporais”.
O que está por detrás desta indústria
O caso de Matsumoto não acontece no vazio. A indústria underground de idols no Japão tem condições de trabalho que raramente são escrutinadas com a atenção que merecem. Um inquérito da empresa japonesa Tsugisute a 102 idols revelou que mais de metade enfrentou problemas de saúde mental durante a carreira. Nesse mesmo estudo, 48% reportaram situações de assédio moral e 12% de assédio sexual.
Os salários contam outra parte da história, enquanto um trabalhador médio japonês aufere cerca de 300 mil ienes por mês (aproximadamente 1.900 dólares), uma underground idol fica tipicamente abaixo dos 120 mil ienes. Algumas agências nem sequer garantem um salário base, atrasam pagamentos ou dispensam artistas por razões arbitrárias.
A isto acrescenta-se uma regra não escrita, mas amplamente imposta, que obriga muitas idols a manter uma imagem de solteira disponível, porque a proximidade emocional com os fãs é considerada parte integrante do produto que vendem. A combinação de pressão financeira, isolamento relacional e dependência de interações com fãs cria um ambiente em que comportamentos como o de Matsumoto se tornam, se não compreensíveis, pelo menos explicáveis.
O documentário Youth of Japanese Underground Idols estima que cerca de 80% das idols no Japão operam nesta esfera underground, o que significa que as condições descritas não são uma exceção, mas a norma para a grande maioria das artistas do setor.
Esta cultura começa agora a expandir-se para além das fronteiras japonesas, com cenas semelhantes a ganhar forma em Xangai e em Hong Kong, à medida que as economias de live-streaming e de fandom intensivo crescem na Ásia.









