
Na primavera de 2026, o governo japonês anunciou os 3.875 recipientes da lista de condecorações, entre os quais dois nomes que marcaram décadas de cultura popular no Japão: Yoshiyuki Tomino, o criador de Mobile Suit Gundam, e Machiko Satonaka, uma das figuras mais influentes do mangá shōjo. Ambos recebem a Ordem do Sol Nascente, a mais antiga condecoração nacional do Japão, criada em 1875 por decreto do Imperador Meiji, e atribuída a quem tenha prestado serviços relevantes ao Estado em diversas áreas. A cerimónia de entrega está marcada para 12 de maio.
Tomino, 84 anos, uma vida a construir universos
Yoshiyuki Tomino, hoje com 84 anos, começou a carreira nos anos 60 na Mushi Production de Osamu Tezuka, onde trabalhou no primeiro anime televisivo de Mighty Atom, conhecido no ocidente como Astro Boy, emitido entre 1963 e 1966. Mas foi em 1979 que o seu nome ficou para sempre ligado à história da animação japonesa, ao criar e dirigir Mobile Suit Gundam, uma série que transformou o género mecha ao abandonar o modelo dos “super robots” fantásticos em favor de um conflito militar mais realista e humano.
Ao longo das décadas seguintes, Tomino assinou a realização de títulos como Space Runaway Ideon, Aura Battler Dunbine, Mobile Suit Zeta Gundam, Mobile Suit Gundam: Char’s Counterattack, Turn A Gundam e Gundam: Reconguista in G, entre muitos outros. A sua obra atravessa gerações e continua a influenciar criadores em todo o mundo.
Esta não é a primeira vez que o Estado japonês reconhece o seu contributo. Em 2019, a Agência para os Assuntos Culturais atribuiu-lhe o prémio do Comissário para os Assuntos Culturais. Em 2020, recebeu o prémio de destaque do Tokyo Anime Award Festival. Em 2021, foi distinguido como Pessoa de Mérito Cultural pelo governo japonês e nomeado embaixador da sua cidade natal, Odawara. Em fevereiro de 2022, recebeu o Prémio de Mérito de Cidadão de Odawara, e em novembro do mesmo ano o 71.º Prémio Cultural de Kanagawa. Em março de 2025, foi ainda admitido como membro da Academia de Arte do Japão.
Satonaka, 78 anos, mais de 500 obras e uma carreira que começou no liceu
Machiko Satonaka fez a sua estreia em 1964, ainda durante o ensino secundário, com o mangá Pia no Shouzou. Desde então construiu uma carreira com mais de 500 títulos, com especial destaque para histórias protagonizadas por heroínas fortes, entre os quais Lady Ann, Karyūdo no Seiza, Ashita Kagayaku, Tenjou no Niji, Yumeiro Kajitsu e Aries no Otome-tachi.
Para além da criação artística, Satonaka tem desempenhado um papel ativo na vida institucional do mangá,foi professora na Universidade de Artes de Osaka, diretora da Associação de Cartoonistas do Japão, diretora da fundação Manga Japan, presidente da Associação de Mangá Digital, e membro do Conselho de Promoção de Políticas Culturais e da Agência para os Assuntos Culturais, entre outros cargos. O seu trabalho valeu-lhe, ao longo dos anos, o Prémio Manga da Kodansha e o prémio de Obras ao Longo da Vida do Ministério da Cultura e da Ciência do Japão. Em 2023, tinha já sido distinguida como Pessoa de Mérito Cultural.
Uma condecoração com peso histórico
A Ordem do Sol Nascente é a terceira mais alta condecoração do governo japonês e geralmente a mais elevada atribuída em contextos civis. As ordens superiores, a do Crisântemo e a das Flores de Paulónia, estão reservadas, respetivamente, a chefes de Estado e à esfera política. Ser incluído na lista de primavera, ao lado de outras 3.874 pessoas, e receber especificamente a classe com Fita ao Pescoço é, portanto, uma distinção de peso real dentro do sistema de honras japonês.
Para Tomino e Satonaka, trata-se de mais um reconhecimento formal de carreiras que já tinham, há muito, consolidado o seu lugar na história da cultura japonesa.









