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10 personagens anime tão implacáveis como John Wick

Reformados no papel, letais na prática, o anime leva este arquétipo mais longe do que qualquer filme de ação ocidental

10
Sakamoto Days

Sakamoto Days anime part 2 visual

Taro Sakamoto era o melhor assassino do mundo. Não é uma hipérbole, era literalmente o nome que toda a gente no submundo temia. Depois apaixonou-se, engordou, abriu uma loja de conveniência num bairro tranquilo e tornou-se pai. A série estreou na Netflix a 11 de janeiro de 2025 e passou dez semanas consecutivas no top 10 global da plataforma, o que diz muito sobre o quanto esta premissa ressoa com o público atual.

O que Sakamoto Days faz de diferente é recusar o peso dramático que John Wick carrega constantemente. Sakamoto não é um homem torturado pela nostalgia do que foi, ele quer genuinamente a vida banal que construiu. A tragédia cómica é que os instintos nunca foram a lado nenhum. Enquanto empurra um carrinho de supermercado ou organiza prateleiras, o seu cérebro continua a calcular ameaças, distâncias e probabilidades de sobrevivência de forma completamente involuntária.

É precisamente essa involuntariedade que o aproxima de Wick. Nenhum dos dois escolhe a violência por prazer, são simplesmente demasiado bons nela para que o mundo os deixe em paz. A diferença de tom, com Sakamoto Days a misturar ação intensa com humor absurdo, não diminui a seriedade do que está por baixo, um homem que construiu tudo o que sempre quis e que tem de lutar constantemente para o manter.

9
Gungrave

Se há um anime que partilha o ADN emocional de John Wick de forma mais visceral, é Gungrave. A série produzida pelo estúdio Madhouse constrói a sua identidade inteira à volta de uma pergunta simples e devastadora, o que sobra de um homem quando lhe tiram tudo aquilo pelo qual vivia?

Beyond the Grave foi durante anos o executor de topo do sindicato Millennion. Leal, eficiente, temido. A traição que o destrói não é apenas uma virada narrativa, é o eixo em torno do qual toda a série gira. O que regressa depois não é um homem cheio de raiva à procura de vingança. É algo mais silencioso e por isso mais perturbador, um propósito esvaziado que continua a funcionar por inércia, armado com duas pistolas e um caixão transformado em arsenal.

Gungrave recusa-se a romantizar o que Beyond the Grave faz. A violência não é elegante nem catártica, é o único vocabulário que lhe resta. É essa frieza enlutada, completamente desprovida de adrenalina ou glória, que o coloca tão próximo de Wick. Ambos são personagens que operam além do ponto em que a violência significa alguma coisa para eles.

8
Cowboy Bebop

Cowboy Bebop movie

Spike Spiegel é talvez o exemplo mais elegante desta lista, precisamente porque Cowboy Bebop nunca se define como um anime de assassinos reformados. A série de Shinichiro Watanabe é muitas outras coisas ao mesmo tempo, jazz, ficção científica, comédia, filosofia existencial, e Spike existe algures no centro de tudo isso como um homem que faz de conta que o seu passado já não existe.

Ele fingiu a própria morte para sair do sindicato Red Dragon. O problema é que fingir não é o mesmo que acabar, e a série inteira é sobre o lento colapso dessa ficção. O seu estilo de combate, fluido, improvisado, economicamente brutal, não é uma técnica que alguém aprende num dojo. É a expressão física de anos passados no ambiente mais darwiniano possível, gravada no corpo de uma forma que a vontade não consegue apagar.

A ligação a John Wick torna-se mais explícita no final da série, quando Spike regressa ao sindicato sabendo muito bem o que provavelmente o espera. Não é desespero nem heroísmo, é a aceitação fatalista de alguém que percebeu que não há, de facto, uma saída limpa. Wick chega à mesma conclusão pelo mesmo caminho longo.

7
The Fable

The Fable manga vol 1 cover

The Fable parte de uma premissa que John Wick nunca chega a experimentar, e se o melhor assassino do mundo fosse obrigado a ser uma pessoa normal? Não temporariamente, não como cobertura para uma missão, genuinamente normal, durante um ano inteiro, sem matar absolutamente ninguém.

O que a série revela nesse exercício é algo que a maioria dos filmes de ação evita confrontar, a violência não é apenas uma competência que alguém usa quando necessário. Para certas pessoas, é uma forma de perceber o mundo. Fable vai às compras e calcula automaticamente linhas de fuga. Senta-se num café e avalia cada pessoa à sua volta como uma ameaça potencial ou não. Assiste a televisão e o seu cérebro continua a trabalhar em registos que a maioria das pessoas nem sabe que existem.

Não há aqui a urgência dramática de alguém a ser perseguido ou de uma família em perigo. A tensão vem de um lugar mais subtil, a quase-impossibilidade de um homem assim coexistir com o mundo ordinário sem se tornar acidentalmente uma arma. É o retrato psicológico mais rigoroso deste arquétipo em formato anime.

6
Ninja Kamui

Ninja Kamui

Ninja Kamui não tem paciência para mitologia elaborada. Não há hierarquias secretas com regras milenares, não há moedas de ouro com significado simbólico, não há subculturas criminosas com os seus próprios códigos de etiqueta. Há um homem que tentou sair, construiu uma família, e viu isso ser destruído de forma brutal e irreversível.

Joe Higan é a versão mais despida e direta deste arquétipo. O que o torna interessante não é a espetacularidade das suas capacidades de combate, é o facto de essas capacidades nunca terem realmente adormecido. Ele viveu anos como pessoa comum, mas os instintos estavam apenas em suspensão, à espera. Quando a situação exige, regressam com uma naturalidade que é simultaneamente impressionante e perturbante.

A forma como Higan seleciona e utiliza as armas tem a mesma qualidade que define Wick em combate, não há preferências estéticas nem hábitos, há apenas a ferramenta certa para cada problema específico, escolhida com a frieza de um cirurgião.

5
Fate/Zero

Fate/Zero (2012)

Kiritsugu Emiya não é o combatente mais poderoso na Grande Guerra do Santo Graal. Está rodeado de Servants com capacidades sobre-humanas e de magos com séculos de tradição por detrás deles. A sua vantagem é outra, é o mais disposto a fazer o que for necessário, independentemente de elegância, honra ou convenção.

Leva uma espingarda para um duelo de magia. Usa explosivos quando os outros usam feitiços. Elimina alvos à distância quando poderia enfrentá-los diretamente. Não é cobardia, é pragmatismo radical, a convicção de que o fim justifica qualquer meio e que qualquer ferramenta é válida se resultar. Wick opera com a mesma lógica, o jiu-jitsu, as pistolas, os lápis, o que estiver disponível, o que funcionar.

Mas o que aproxima verdadeiramente os dois personagens não é a táctica. É o custo. Kiritsugu carrega uma culpa enorme por danos colaterais causados em nome de objetivos em que começou a acreditar cada vez menos. Fate/Zero não o absolve nem o condena, usa-o como instrumento para fazer uma pergunta que fica sem resposta satisfatória, a que preço se torna insuportável fazer o bem?

4
Black Cat

Train Heartnet era o Número XIII da organização Chronos, um título que, nesse universo, funciona como sinónimo de sentença de morte para quem o enfrentar. A sua saída para uma vida de caçador de recompensas é deliberadamente incompleta, já não mata por contrato, mas a fronteira entre o que era e o que tenta ser continua difusa.

O que Black Cat capta bem é a permanência da reputação. Train pode mudar de vida, pode recusar determinados trabalhos, pode estabelecer os seus próprios limites morais, mas o mundo continua a vê-lo como o que foi. O revólver Hades, forjado de meteorito, raramente sai do alcance da sua mão. Não porque ele precise de o usar, mas porque é uma parte de si que não consegue, ou talvez não queira verdadeiramente, abandonar.

A série tem um registo mais leve do que a maioria dos títulos desta lista, com momentos de comédia e uma dinâmica de equipa mais descontraída. Mas a relação de Train com a sua identidade como assassino, o que aceita dessa herança, o que rejeita, o que simplesmente não consegue largar, está tratada com suficiente seriedade para que o paralelo com Wick se mantenha honesto.

3
Lycoris Recoil

Lycoris Recoil visual

Chisato Nishikigi distingue-se de quase todos os outros nomes desta lista porque a sua saída não foi uma fuga, foi uma escolha ética deliberada. Ela era o topo do programa de assassinas de elite da organização DA. Saiu porque não estava disposta a continuar a matar em nome de uma instituição cujos métodos não conseguia aceitar. Abriu um café. Trocou as munições letais por projéteis não letais. Tentou construir algo que fizesse sentido para ela.

A técnica permanece intacta. Os reflexos são os mesmos. A competência não desapareceu, apenas a disposição de a usar da forma como lhe foi ensinado. É uma distinção importante, e Lycoris Recoil tem o cuidado de a manter. Chisato não é uma versão diminuída do que foi, é a mesma coisa com uma bússola moral diferente, o que a torna, paradoxalmente, mais assustadora para quem a conhece.

O paralelo com Wick é mais subtil aqui do que noutros títulos, mas está presente na forma como outros profissionais a tratam. Assassinos treinados reconhecem-na como uma categoria à parte. A domesticidade não a torna menos perigosa aos olhos de quem sabe o que ela é, torna-a mais imprevisível, porque já não obedece às mesmas regras do jogo.

2
91 Days

91 Days

Angelo Lagusa não escolheu reformar-se. Sobreviveu. Depois de assistir ao assassinato dos pais e do irmão pelas mãos da família Vanetti, passou anos escondido sob uma identidade falsa, construindo pacientemente a oportunidade de regressar. Quando regressa, não é com armas na mão e raiva declarada, é infiltrado, metódico e disposto a esperar tanto tempo quanto for necessário.

O que 91 Days faz de forma particularmente eficaz é subverter a escala temporal habitual deste arquétipo. Onde Wick opera em explosões de ação concentradas, Angelo trabalha em semanas e meses. A violência, quando acontece, é precisa e deliberada, nunca excessiva. Cada movimento é calculado com a frieza de alguém que passou anos a pensar em nada mais do que nisto.

A série está ambientada nos anos 1920, numa América de proibição e crime organizado, e usa esse contexto histórico para sublinhar o isolamento de Angelo. Não há aliados de confiança, não há estruturas de suporte, não há ninguém com interesse genuíno no seu sucesso. É um homem sozinho a desmontar um império que deveria ser intocável, pela força de uma determinação que não encontra outro objeto onde pousar.

1
Phantom: Requiem for the Phantom

Phantom: Requiem for the Phantom

Reiji Azuma não escolheu nada. Foi raptado, submetido a condicionamento e reconstruido do zero como Zwei, o assassino mais eficiente do sindicato Inferno. A sua história não começa com uma saída voluntária como a de Wick ou de Sakamoto. Começa com a remoção de tudo o que era, incluindo as memórias que o definiam como pessoa.

Cada vez que tenta recuperar qualquer coisa que se pareça com uma identidade própria, o sindicato puxa-o de volta. Phantom não trata esses regressos como momentos de glória ou de redenção, são exaustivos, inevitáveis, e a série recusa-se a conceder alívio fácil, nem ao personagem nem ao espectador. É uma das leituras mais sombrias deste arquétipo em formato anime.

O que aproxima Reiji de Wick é a frieza com que opera. Não há satisfação no que faz, não há identidade construída em torno da competência. Há apenas a competência em si, porque é tudo o que o condicionamento lhe deixou. É o retrato mais perturbante de todos, não um homem que tenta escapar ao que foi, mas um homem que tenta descobrir se alguma vez houve outra coisa para além disso.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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