InícioJogosPolémica: Neverness to Everness recriou cenários de animes famosos

Polémica: Neverness to Everness recriou cenários de animes famosos

Bocchi the Rock!, Slam Dunk, Doraemon: os easter eggs de NTE que os fãs estão a encontrar

Lançado a 29 de abril de 2026 em PC, PlayStation 5, iOS, Android e macOS, Neverness to Everness (NTE) é um RPG de mundo aberto desenvolvido pela Hotta Studio, subsidiária da Perfect World. O jogo passa-se na cidade fictícia de Hethereau, onde o jogador assume o papel de um caçador de anomalias sobrenaturais. Mas o que está a fazer correr a comunidade não são as mecânicas de combate nem o sistema gacha, é o mapa.

Desde o lançamento, os jogadores têm estado a vasculhar cada esquina de Hethereau e a descobrir algo que não estava nos comunicados oficiais, cenários quase idênticos aos de algumas das séries de anime mais populares dos últimos anos. Bocchi the Rock! e Girls Band Cry são as que mais se destacam, mas a lista não fica por aí.

Uma cidade construída a partir de referências

Quem conhece bem Bocchi the Rock! vai reconhecer a descida de escadas em Fiscus Avenue, no bairro de Illusion Town, no fundo, encontra uma live house que replica com grande detalhe a do anime, incluindo a disposição da entrada e o interior do espaço. Bocchi the Rock!, recorde-se, foi produzido pela CloverWorks e tem Shimokitazawa como cenário central, um bairro de Tóquio conhecido pela sua cena musical independente.

Girls Band Cry, a série original da Toei Animation passada em Kawasaki, também deixou a sua marca no mapa. Os fãs identificaram zonas que evocam claramente a estética urbana da série, incluindo a área que replica o famoso cruzamento de Shibuya, presente no bairro de New Herland District.

As referências vão muito além destes dois títulos. O mapa inclui também:

  • Uma travessia ferroviária que replica a de Slam Dunk perto de Kamakura-koko-mae
  • A escadaria vermelha de Your Name, recriada junto a Hankaku Street
  • O jardim de The Garden of Words, em Illusion Town
  • A loja de tofu de Initial D, com um carro estacionado ao lado que inclui lore interno sobre um piloto fantasma
  • A casa do Nobita e o terreno baldio de Doraemon, em Miguel District
  • A cena da máquina do tempo de Steins;Gate, no telhado de um edifício inspirado em Akihabara
  • Um mar vermelho que remete para Neon Genesis Evangelion
  • A Ayame Bridge, que à noite evoca a Fuyuki Bridge de Fate

O nível de detalhe em algumas recriações é suficientemente específico para afastar qualquer hipótese de coincidência. São decisões deliberadas de design, easter eggs escondidos à vista de toda a gente.

O turismo virtual como produto não declarado

Há um fenómeno bem estabelecido na cultura otaku japonesa chamado seichi junrei, a peregrinação a locais reais que serviram de inspiração a séries de anime. Shimokitazawa, por exemplo, recebeu nos últimos anos uma onda considerável de visitantes por causa de Bocchi the Rock!, e a própria linha de comboio Odakyu chegou a fazer uma colaboração temática com a série.

O que Neverness to Everness faz, ainda que sem o assumir, é transformar esse impulso numa funcionalidade do jogo. Explorar Hethereau torna-se, em parte, uma versão virtual dessas peregrinações, sem bilhete de avião, sem fila nos locais de interesse. E isso tem um apelo genuíno que os jogadores reconheceram rapidamente.

O problema é que nenhuma destas referências tem qualquer colaboração oficial com os detentores das propriedades intelectuais. A Hotta Studio não anunciou acordos de licenciamento com a CloverWorks, com a Toei Animation, nem com nenhum dos outros estúdios cujas obras parecem estar representadas no mapa.

Tributo, inspiração ou aproveitamento?

A questão divide a comunidade. Uma parte dos jogadores defende que se trata de homenagens feitas com conhecimento de causa, um reconhecimento da influência cultural destes títulos. Outros são mais críticos e apontam que recriar cenários reconhecíveis de franquias japonesas para atrair uma base de jogadores otaku, sem qualquer compensação às partes criativas, é uma forma de capitalizar sobre trabalho alheio.

Não é um debate novo. A indústria de jogos móveis chinesa tem histórico de situações semelhantes, e o Japão é notoriamente rigoroso na defesa dos seus direitos de propriedade intelectual. O que torna este caso diferente é a escala, não se trata de um elemento isolado, mas de um mundo inteiro construído, em parte, sobre referências não licenciadas a dezenas de obras.

Até ao momento, a Hotta Studio não fez qualquer declaração pública sobre as fontes de inspiração do mapa de Hethereau. Os fãs continuam a descobrir novos locais, a partilhar comparações lado a lado e a debater onde termina o tributo e começa o problema.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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