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Como a Crunchyroll passou de site de pirataria a gigante do streaming de anime

A maior plataforma de anime do mundo começou como site pirata e foi exatamente isso que a tornou imbatível

Crunchyroll new visual 2024 (1)

Há uma ironia que não escapa a quem acompanhou a indústria anime nos últimos vinte anos, a plataforma que hoje processa ativamente sites de pirataria para proteger o seu mercado foi, ela própria, um site de pirataria. E segundo um veterano da indústria, foi precisamente isso que lhe deu a vantagem que a conduziu ao topo.

Jerome Mazandarani, que foi diretor-geral da Manga Entertainment no Reino Unido e trabalhou mais de 18 anos no setor de distribuição e licenciamento de anime na Europa, revelou a sua perspectiva num episódio recente do podcast The Anime Business.

A vantagem que ninguém mais tinha

A Crunchyroll foi fundada em 2006 por estudantes da Universidade da Califórnia em Berkeley como um site de partilha de conteúdos. Durante anos operou como plataforma de streaming não autorizada, oferecendo episódios de anime gratuitamente, muitas vezes poucos dias após a transmissão televisiva no Japão. Do ponto de vista das empresas que licenciavam e vendiam anime legalmente, era uma concorrência impossível de combater, não porque fossem menos competentes, mas porque partiam de posições estruturalmente diferentes.

“Eles tinham cultivado esta audiência massiva, mas não tiveram de pagar pelo marketing, e não tiveram de pagar pelas licenças e pela aquisição de licenças”, disse Mazandarani. “E por isso, quando decidiram tornar-se legais, tinham atingido uma massa crítica de tamanho de audiência, mas não tinham tido de seguir nenhuma das regras que o resto de nós tinha de seguir”.

Quando a Crunchyroll decidiu virar para o modelo legítimo e recebeu investimento do Chernin Group e da Otter Media, já tinha algo que nenhum concorrente podia comprar, uma base de utilizadores enorme, fidelizada e habituada à plataforma. As empresas tradicionais de distribuição física e digital não tinham acesso a essa escala, mesmo que cumprissem todas as regras do sector.

Crunchyroll logo screenshot website

O fim do mercado físico

Para a Manga Entertainment, a chegada da Crunchyroll enquanto operador licenciado foi o início do fim. Nos anos anteriores, a empresa tinha construído um negócio sólido à volta da venda de media físico, as boxes de DVD e Blu-ray com versões dobradas e legendadas eram caras para produzir, mas geravam boas margens. Um conjunto de 12 episódios de Naruto custava cerca de £29,99 no retalho britânico, frequentemente descontado para £20, um preço que o público-alvo, adolescentes e jovens, considerava elevado.

A concorrência de um site gratuito com os mesmos episódios disponíveis online dias após a transmissão japonesa foi devastadora. E quando a Crunchyroll assegurou o grande acordo de licenciamento de Naruto com a TV Tokyo e a Shueisha, a contagem decrescente tornou-se inevitável. “A partir do momento em que se tornaram legais e fizeram o seu acordo, o grande acordo de licença para Naruto com a TV Tokyo e a Shueisha, estávamos todos a contar os dias até não termos mais negócio”, recorda Mazandarani.

A compra pela Sony e o desfecho poético

Em 2019, a Manga Entertainment acabaria por vender as suas operações no Reino Unido e Irlanda à Funimation Global Group, que operava como o braço principal da Sony para distribuição de anime a nível internacional. Num detalhe que Mazandarani não hesitou em classificar como poético, soube-se pouco depois que a própria Sony estava em negociações para comprar a Crunchyroll.

A Sony concluiu a aquisição da Crunchyroll à AT&T e WarnerMedia a 9 de agosto de 2021, por 1,175 mil milhões de dólares. Nos anos seguintes, a Funimation foi gradualmente integrada na plataforma e a marca foi descontinuada em 2022.

“Pensei apenas, ‘É poético, não é?’ É como se não conseguires vencê-los, junta-te a eles. A Crunchyroll ganhou a guerra, realmente. Tornaram-se a forma como o anime ia crescer e tornar-se o meio de comunicação mainstream, graças a eles e à Netflix”.

O que se perdeu pelo caminho

Mazandarani não se limita a descrever a ascensão da Crunchyroll como um triunfo linear. Na mesma conversa, aponta o que se perdeu com a consolidação do mercado numa única plataforma global, a presença local, a voz regional e o tipo de comunidade que se construía em torno dos distribuidores independentes.

“Parte do prazer de ser fã de anime não é apenas o conteúdo, é a comunidade”, afirmou, sublinhando que os fãs estão agora a perder a possibilidade de interagir com fornecedores e distribuidores locais nas convenções de cultura pop e nas redes sociais.

O próprio Mazandarani escreve regularmente sobre a indústria no Substack, onde tem analisado com detalhe a posição dominante que a Sony foi construindo no ecossistema global do anime, da produção à distribuição, passando pelos direitos de publicação.

Quanto à ironia original, a Crunchyroll, que cresceu à custa de conteúdo não autorizado, persegue hoje ativamente os sites de pirataria para proteger a sua quota de mercado.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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