Cowboy Bebop. Neon Genesis Evangelion. Steins;Gate. São nomes que qualquer fã de anime conhece de cor, e com razão, são obras que definiram um género e que continuam a ser referência décadas depois. Mas existe um outro lado desta história, feito de séries que chegaram na altura errada, que nunca tiveram a distribuição certa ou que simplesmente ficaram esmagadas pela quantidade de lançamentos da época.
10Planetes
Há uma certa coragem em fazer ficção científica sobre pessoas comuns. Não sobre heróis galácticos, não sobre pilotos de mecha com destinos épicos, mas sobre trabalhadores. Planetes, estreado em 2003 e produzido pelo estúdio Sunrise a partir do mangá de Makoto Yukimura (o mesmo autor de Vinland Saga), faz exatamente isso, acompanha uma equipa de lixeiros espaciais encarregada de recolher detritos em órbita terrestre no ano de 2075. Hachimaki quer ter a sua própria nave. A colega Ai Tanabe quer encontrar sentido naquilo que faz. O chefe finge que não se importa com nada mas importa-se com tudo.
O que podia ser uma premissa menor torna-se, ao longo dos 26 episódios, uma das explorações mais honestas alguma vez feitas sobre ambição, classe social e o que significa querer mais do que aquilo que a vida nos reservou. A série tem o rigor técnico de ficção científica dura, os detalhes sobre detritos orbitais, pressurização e operações espaciais são tratados com seriedade genuína, mas é nos momentos humanos que Planetes realmente brilha. O espaço, aqui, não é palco de aventura. É o lugar onde as pessoas tentam perceber quem são.
986: Eighty-Six
Quando 86: Eighty-Six estreou em abril de 2021, a conversa à volta da série durou pouco mais do que a sua primeira temporada. É uma pena, porque é um dos anime anti-guerra mais perturbadores dos últimos anos. Produzido pelo estúdio A-1 Pictures a partir da light novel de Asato Asato, a história passa-se num futuro onde a República de San Magnolia afirma não ter baixas humanas na sua guerra contra os drones autónomos da Legião. A verdade é mais sombria, os seus soldados existem, apenas não são reconhecidos como pessoas. São os Eighty-Sixers, jovens de uma minoria étnica perseguida, obrigados a pilotar máquinas de combate sem qualquer direito legal ou moral.
O que distingue 86: Eighty-Six de outros anime de guerra não é a escala dos combates, é a recusa em oferecer respostas fáceis. A série mostra com detalhe clínico como a desumanização funciona quando é institucionalizada, como os próprios oprimidos acabam por interiorizar os valores do sistema que os esmaga, e como a empatia individual é completamente insuficiente face a uma estrutura criada para perpetuar a injustiça. Cinco anos depois da estreia, o tema continua a bater certo de uma forma que desconforta.
8Infinite Ryvius
A melhor forma de descrever Infinite Ryvius é imaginar O Senhor das Moscas numa nave de guerra do século XXIII, mas com uma atenção às personagens que essa comparação não consegue capturar. Produzida pela Sunrise no final dos anos 1990, a série ficou completamente engolida pela densidade de lançamentos espaciais da época. A premissa é simples e brutal, um ato de sabotagem deixa 486 estudantes adolescentes isolados numa nave de guerra, sem adultos, classificados como terroristas pelo próprio governo.
O que se segue não é uma história de sobrevivência no sentido convencional. É uma análise precisa e às vezes difícil de ver sobre como as estruturas sociais colapsam quando a autoridade desaparece, como o poder corrói mesmo as pessoas bem intencionadas, e como a adolescência, já por si um estado de vulnerabilidade extrema, se torna algo completamente diferente quando as regras deixam de existir. Infinite Ryvius faz coisas criativas com o formato mecha, mas o coração da série está noutro lado, na psicologia dos seus personagens e no retrato absolutamente implacável do que acontece quando os humanos são deixados sozinhos com demasiado poder e demasiado medo.
7Baoh
Antes de criar JoJo’s Bizarre Adventure, Hirohiko Araki criou Baoh, um mangá de apenas dois volumes publicado nos anos 1980 que em 1989 recebeu um OVA de cerca de 50 minutos produzida pelo Studio Pierrot. A história segue um adolescente transformado em bioarma por uma organização secreta que foge com uma menina com poderes psíquicos, perseguido por assassinos e criaturas cada vez mais estranhas.
É caótico, é excessivo, e é absolutamente singular. Quem conhece JoJo vai reconhecer imediatamente o ADN criativo de Araki, os designs de criaturas que parecem saídas de pesadelos com regras próprias, a escalada constante de poder, a sensação de que a qualquer momento tudo pode mudar de forma completamente inesperada. O OVA não tem tempo para ser mais do que um fragmento, não há resolução, não há arco completo, mas funciona como uma janela para a cabeça de um dos autores mais singulares do mangá, numa fase em que ainda estava a descobrir o que conseguia fazer. Para quem quer perceber de onde JoJo veio, Baoh é praticamente obrigatório.
6Inuyashiki
O estúdio MAPPA adaptou em 2017 esta obra de Hiroya Oku, o criador de Gantz, em apenas 11 episódios. É pouco tempo para o que a série tenta fazer, mas o resultado é de uma eficácia perturbadora. A premissa parte de um momento de ficção científica pura, dois seres humanos são transformados em ciborgues por um fenómeno extraterrestre. Ichiro Inuyashiki é um homem de meia-idade ignorado pela própria família, invisível para o mundo. Shishigami Hiro é um adolescente perturbado com uma capacidade assustadora para desligar a empatia.
Um usa os seus novos poderes para salvar vidas. O outro para destruir. O que torna Inuyashiki genuinamente perturbador não é a violência, há muita, e é retratada sem filtro, mas a forma como a série se recusa a romantizar qualquer das perspetivas. Não há lição moral fácil, não há redenção garantida. Há dois seres com o mesmo poder e escolhas completamente opostas, e a série chega a um confronto final de proporções apocalípticas com a frieza de quem sabe exatamente o que está a fazer.
5They Were Eleven
Lançado em 1986 e baseado no mangá de Moto Hagio, uma das figuras mais importantes do shōjo e de todo o mangá moderno, They Were Eleven é um exercício de suspense quase perfeito. Dez cadetes espaciais são enviados para uma missão de sobrevivência a bordo de uma nave abandonada. Quando chegam, são onze. Alguém infiltrou-se no grupo, mas ninguém sabe quem.
O que se segue é uma construção lenta e meticulosa de paranoia coletiva. À medida que os recursos diminuem e o tempo passa, as suspeitas tornam-se acusações, as alianças desfazem-se e a pressão revela quem cada personagem realmente é por baixo da compostura. A ficção científica é apenas o cenário, o verdadeiro tema é a desconfiança e a forma como ela contamina qualquer grupo quando as condições são suficientemente extremas. É uma série que antecipa The Thing de John Carpenter, e que, décadas depois, continua a funcionar com uma precisão que poucos anime de qualquer época conseguem igualar.
4Key the Metal Idol
Produzida pelo Studio Pierrot em meados dos anos 1990, Key the Metal Idol é uma série difícil de classificar, e isso é, em grande medida, o que a torna especial. Key é uma menina-robô cujo criador, antes de morrer, lhe deixa uma última mensagem, se conseguir a amizade genuína de 30.000 pessoas, tornar-se-á humana. A solução que encontra é tornar-se uma estrela pop.
A premissa podia facilmente descambar para algo de mau gosto, mas a série resiste a essa tentação. Começa de forma tranquila, quase discreta, e vai acumulando camadas de estranheza, de urgência e de melancolia à medida que os episódios avançam. Há algo de Ghost in the Shell na forma como a série trata as questões de identidade e consciência, mas com um registo emocional completamente diferente, mais vulnerável, mais contido. Os dois episódios finais têm 90 minutos cada e funcionam como uma explosão controlada de tudo o que foi sendo construído. É uma obra que exige paciência, mas que recompensa quem a der.
3Kaiba
Em 2008, Masaaki Yuasa, que anos mais tarde criaria Ping Pong the Animation e Devilman Crybaby, dirigiu Kaiba pelo estúdio Madhouse, uma série de 12 episódios que ganhou o prémio de excelência no Japan Media Arts Festival desse ano e que, ainda assim, permanece quase completamente desconhecida fora de círculos de culto. A premissa é ao mesmo tempo simples e vertiginosa, num futuro distante, as memórias das pessoas podem ser armazenadas em chips que sobrevivem ao corpo. Quem controla as memórias controla a identidade. E quem controla a identidade controla tudo.
O protagonista acorda sem qualquer recordação de quem é, com apenas uma fotografia de uma jovem que não reconhece. A série é a história da viagem que se segue. O que podia ser um thriller de ficção científica convencional transforma-se numa obra surreal e profundamente melancólica sobre exploração, desigualdade e o que nos constitui como pessoas. A animação tem uma estética colorida e quase infantil, personagens com formas arredondadas, mundos que parecem saídos de um sonho, que contrasta de forma devastadora com o que a série tem para dizer. É essa dissonância que a torna inconfundível.
2Last Exile
Produzida pela Gonzo e estreada em 2003, Last Exile é um dos exemplos mais bem conseguidos de steampunk no anime, e ao mesmo tempo um dos mais esquecidos. Numa versão alternativa do mundo que evoca a Europa do século XIX, dois jovens mensageiros são encarregados de transportar uma menina cuja existência pode alterar o rumo de uma guerra que já dura há demasiado tempo. A série troca as naves espaciais por aeronaves e os futurismos tecnológicos por uma estética retrô de engrenagens, vapor e uniformes militares que ainda hoje se mantém visualmente distinta.
Há uma elegância na construção do mundo de Last Exile que poucas séries conseguem, a sensação de que existe história por baixo de cada detalhe, de que o conflito central tem raízes que vão mais fundo do que o que é mostrado. A série teve uma continuação e um filme compilatório, mas o original permanece injustamente esquecido para além de um círculo de fãs devotos que continuam a perguntar quando é que alguém vai perceber o que têm nas mãos.
1Space Brothers
Há uma questão simples que qualquer fã de anime devia conseguir responder, quais são as séries que, durante 99 episódios consecutivos, não perdem qualidade? A lista é curta. Space Brothers está nela. Produzida pela A-1 Pictures e exibida entre abril de 2012 e março de 2014, a série é baseada no mangá de Chūya Koyama publicado na Morning da Kodansha desde 2007, uma obra que encerrou o seu percurso no início de 2026 com mais de 34 milhões de cópias em circulação e prémios do calibre do Shogakukan Manga Award e do Kodansha Manga Award.
A premissa é direta, dois irmãos prometem em criança tornar-se astronautas. Hibito cumpriu. Mutta, o mais velho, está a tentar recuperar o atraso depois de perder o emprego. Mas reduzir Space Brothers a uma história de superação é fazer-lhe uma injustiça. A série é, acima de tudo, um retrato rigoroso e emocionalmente honesto do que é perseguir um objetivo impossível na vida adulta, os testes extenuantes, os fracassos repetidos, a burocracia, as dúvidas, as amizades que se formam sob pressão e as relações que não sobrevivem a ela. Há humor genuíno, momentos de ternura que chegam sem aviso, e um respeito pela ciência e pelos processos reais da astronáutica que é raro em qualquer ficção. É o tipo de anime que não faz barulho, e que por isso mesmo tende a ser ignorado por quem procura apenas o próximo grande espetáculo.









