
Há décadas que o anime viaja pelo mundo com uma contradição embutida, o que em Tóquio passa na televisão ao final da tarde pode ter classificação restrita a maiores de 17 anos nos Estados Unidos. O debate é antigo, mas voltou ao centro das atenções depois de um simpósio internacional realizado na cidade japonesa de Otaru, subordinado ao tema “Anime e Género”, onde investigadores estrangeiros foram diretos na crítica às produções nipónicas atuais.
O que disseram os académicos
A posição mais incisiva veio de Sharalyn Orbaugh, professora de Estudos Asiáticos e Estudos de Género da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, com quase cinquenta anos de investigação dedicados ao meio. Orbaugh apontou diretamente a franquias como Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba para ilustrar o fosso cultural que separa o Japão do Ocidente quando se trata de regular o que é considerado adequado para o público infantil. O argumento é revelador, a série passa em blocos televisivos de horário familiar no Japão, acessível a qualquer criança sem qualquer restrição; nos Estados Unidos e no Canadá, o mesmo conteúdo chega com classificações para maiores de idade.
Esse não é um caso isolado. O filme Demon Slayer: Mugen Train recebeu uma classificação PG12 no Japão, que recomenda acompanhamento parental para menores de 12 anos, mas não o exige. Nos Estados Unidos, a Motion Picture Association atribuiu-lhe classificação R, impedindo menores de 17 anos de o ver sem um adulto, com a justificação de “violência e imagens de sangue”. Um investigador japonês da área resume bem a questão: “Os japoneses estão bastante habituados a representações de sangue no anime”.
Orbaugh foi mais longe e afirmou que o anime atual inclui demasiadas obras violentas e perturbadoras, acrescentando que mesmo as personagens que representam minorias sexuais tendem a ser retratadas de forma que o público norte-americano percebe como agressiva.
As garotas mágicas e o que elas revelam sobre a sociedade japonesa
Numa linha bem diferente, a investigadora Akiko Sugawa-Shimada, da Universidade Nacional de Yokohama, cuja investigação incide sobre representações de género nos média japoneses, trouxe ao simpósio uma análise histórica do subgénero das garotas mágicas, o chamado mahō shōjo, e o que a sua evolução diz sobre as transformações da mulher na sociedade nipónica.
O ponto de partida foi Sally the Witch, a primeira série anime do género, estreada em 1966. Nessas primeiras obras, a magia funcionava como instrumento direto para que as protagonistas resolvessem problemas do quotidiano, muitas vezes causados por personagens masculinos. Décadas depois, à medida que as mulheres foram integrando o mercado de trabalho de forma mais expressiva, as narrativas acompanharam essa mudança, as heroínas modernas passaram a ter missões de escala global, e o trabalho em equipa e a responsabilidade social tornaram-se os pilares centrais das histórias.
É uma leitura do anime como espelho, não apenas entretenimento, mas registo cultural de um país a transformar-se.
O mesmo conteúdo, dois mundos diferentes
O que o simpósio de Otaru trouxe à superfície não é propriamente novo, mas continua a ser incómodo. Os estúdios japoneses de animação produzem para o seu mercado local, com os seus padrões culturais, as suas referências históricas e a sua relação específica com representações de violência e sexualidade. O público japonês cresceu com essas convenções; o público ocidental, não.
O resultado é uma assimetria que a globalização do anime tornou impossível de ignorar. O que em Akihabara é merchandising de uma série infantil pode ser, nos corredores de uma escola em Toronto ou em Lisboa, motivo de preocupação para um encarregado de educação que nunca ouviu falar dos géneros shonen ou seinen.
A questão que o debate académico coloca, e para a qual não há resposta simples, é quem deve ceder: se os estúdios japoneses, adaptando as suas classificações a um mercado que se tornou global, ou o Ocidente, revendo os seus próprios critérios sobre o que é ou não adequado mostrar a uma criança em forma de animação.









