Na manhã de 19 de maio, moradores da cidade de Hamamatsu, na prefeitura de Shizuoka, foram acordados por um som invulgar, o rasgar de metal. Quando as autoridades chegaram ao local, as placas de cobre dos telhados de pelo menos quatro santuários shinto tinham desaparecido. Entre os locais afetados estava o Hatsuoi Shrine, cujo edifício principal perdeu toda a secção frontal do telhado, e um armazém classificado como bem cultural da cidade.
O sacerdote-chefe do Hatsuoi Shrine, Hideo Suzuki, descreveu o que encontrou: “Este é o edifício principal do santuário. A secção frontal inteira foi levada. Algumas partes ficaram, mas provavelmente interromperam o furto a meio. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer num local tão aberto e visível”.
A cerca de 300 metros dali, o Hamana Sosha Shinmeigu Shrine sofreu danos semelhantes. O seu sacerdote shinto também chamado Hideo Suzuki não escondeu o choque: “Estou para lá da raiva, estou simplesmente sem palavras. É verdadeiramente um sacrilégio”.
Os suspeitos aproveitaram as primeiras horas da madrugada para arrancar as chapas de cobre à força. As autoridades acreditam que os vários incidentes estão ligados entre si e investigam se fazem parte de uma operação coordenada.
O contexto económico ajuda a perceber o que está em causa. O preço do cobre atingiu máximos históricos nos últimos meses, em janeiro de 2026, ultrapassou os 14.500 dólares por tonelada na London Metal Exchange, e ainda hoje se mantém próximo dos 6,30 dólares por libra. Num ano em que o metal subiu mais de 30% face ao período homólogo, arrancar o telhado de um santuário pode render uma soma considerável no mercado de sucata.
A Agência Internacional de Energia atribui esta escalada a vários fatores em simultâneo, perturbações no fornecimento em minas importantes, acumulação de stocks nos Estados Unidos por incerteza tarifária, e uma procura estrutural crescente ligada à transição energética e à expansão de infraestruturas de inteligência artificial.
Santuários vulneráveis por tradição e por arquitetura
Os santuários e templos japoneses são alvos particularmente apetecíveis para este tipo de crime por razões que vão além do simples acesso. A arquitetura tradicional japonesa faz uso extensivo de cobre, em coberturas, caleiras, encaixes decorativos e elementos ornamentais. Muitos destes edifícios têm séculos de existência, encontram-se em zonas rurais ou montanhosas, e funcionam com vigilância mínima.
Há também um fator cultural, a maioria dos santuários shinto mantém os seus recintos abertos ao público a qualquer hora, por uma questão de tradição e confiança. Essa abertura, que é parte da identidade destas instituições, torna-as especialmente expostas.
Depois dos furtos, foram colocadas lonas azuis sobre os telhados danificados para proteger as estruturas de madeira da chuva, uma solução temporária que, em alguns casos, se prolonga por meses enquanto os santuários tentam reunir fundos para os reparos. Substituir uma cobertura de cobre tradicional num edifício histórico pode custar vários milhões de ienes e exige artesãos especializados, cada vez mais difíceis de encontrar.
Este não é um fenómeno novo nem isolado. Uma vaga de furtos de cobre em santuários e templos começou a ganhar expressão por volta de 2022 e 2023, com as polícias de várias prefeituras a alertar para a existência de grupos organizados que visam especificamente propriedades culturais. Em alguns casos, secções inteiras de telhados foram removidas numa única noite.
As autoridades têm tentado responder com patrulhas reforçadas, monitorização mais rigorosa dos sucateiros e expansão dos sistemas de videovigilância. Mas os furtos continuam a ocorrer de forma intermitente, em particular quando os preços do cobre sobem de forma abrupta, que é precisamente o que tem acontecido.








