A Team Asano tem feito um trabalho interessante com o seu característico estilo HD-2D, transportando-nos para mundos e histórias que dá gosto de conhecer. A verdade é que o género de aventura, que tantos de nós aprenderam a apreciar desde a era dos 16 bits, tem vindo a encontrar uma nova vida dentro do universo dos RPGs. Na realidade, este estilo nunca desapareceu, e Tomoya Asano sabia-o melhor do que ninguém quando nos brindou com pérolas como Bravely Default, Octopath Traveler ou Triangle Strategy.
Depois de explorar os RPGs por turnos e de se aventurar pelo território da estratégia, era apenas uma questão de tempo até a equipa decidir navegar por outros mares. O que não esperávamos era que essa mudança acontecesse tão cedo. Desta vez, a astuta equipa da Square Enix surpreende-nos com The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, uma aventura moldada nos contornos de um RPG de ação que, de forma nostálgica e competente, presta homenagem a clássicos intemporais como The Legend of Zelda: A Link to the Past e à série Mana.

Nesta jornada seguimos as pisadas de Elliot, um experiente aventureiro que a pedido do Rei Hichard parte para investigar umas ruínas desconhecidas nos confins do continente. É durante esta expedição que descobre um misterioso portal capaz de o transportar para diferentes eras da história.
No entanto, esta extraordinária descoberta traz consigo uma terrível ameaça. O ambicioso ministro do reino, sedento de poder, aproveita a existência do portal e, numa das suas incursões ao passado, apodera-se de uma espada ancestral que lhe concede uma força avassaladora. A partir desse acontecimento, a missão de Elliot, acompanhado pela inseparável fada Faie, que faz inevitavelmente recordar Navi, passa por viajar entre as diferentes eras para travar os planos do vilão.
A narrativa assume sem medos as suas inspirações em alguns dos maiores clássicos do género. A mecânica das viagens temporais faz lembrar imediatamente Chrono Trigger, mas o jogo consegue construir uma identidade própria através da maneira como utiliza este conceito para desenvolver o mundo. O encanto reside sobretudo no mistério que envolve cada descoberta e nos locais inesperados para onde a trama nos leva.
Gostei particularmente do equilíbrio alcançado entre os momentos mais delicados e as ocasionais notas de humor. As personagens foram escritas com sensibilidade e cada uma das quatro eras apresenta um elenco único, com figuras memoráveis e histórias que despertam um interesse genuíno. Mais importante ainda, o jogo consegue criar uma forte sensação de continuidade entre as mudanças de tempo, permitindo-nos observar a evolução de determinadas famílias, povoações e tradições ao longo de um milénio de história.

O lore de Philabieldia é enriquecido de forma muito natural. O jogo vai-nos incentivando gradualmente a descobrir os seus segredos através da exploração, da leitura de documentos e das conversas com os habitantes.
Para apreciar a história na totalidade, vale a pena descobrir os vários finais que o jogo tem para oferecer.
As missões secundárias seguem a mesma linha e foram desenhadas com o propósito de fortalecer a narrativa. Embora o objetivo de cada missão seja direta, as pequenas histórias que contam carregam frequentemente uma carga emocional inesperada. A título de exemplo, uma das quests leva-nos a falar com a viúva de um aventureiro que perdeu a vida numa masmorra; a forma como partilha a sua dor e nos faz um último pedido transmite uma melancolia muito forte. Temos vários momentos semelhantes ao longo da aventura, pequenas crónicas humanas que ajudam a dar profundidade aos acontecimentos e às próprias personagens. Como incentivo adicional, a maioria oferece recompensas valiosas, tornando-se principalmente relevantes para a progressão do protagonista.
As inspirações em A Link to the Past tornam-se percetíveis assim que começamos a explorar o continente. Em vez de nos apresentar vários mundos geograficamente distintos, o jogo aposta no conceito de viagem no tempo. Há quatro épocas diferentes que partilham o mesmo mapa, mas cada uma delas reflete uma fase histórica diferente do reino, como a era da magia ou a da reconstrução. Ao longo da jornada, viajamos várias vezes entre estes quatro períodos, redescobrindo locais familiares transformados pelo passar dos séculos, distribuídos por biomas como florestas, pântanos, desertos e regiões cobertas de neve e gelo.
Cada época transborda de conteúdo e segredos. Temos ao nosso dispor Shrines, masmorras, ruínas antigas e cavernas que nos desviam para caminhos alternativos. A maioria destes locais entrega desafios interessantes, com mini-jogos e puzzles engenhosos que certamente farão lembrar as dungeons dos clássicos da era dos 16 bits. Falamos de mecanismos para ativar, plataformas móveis, salas que permanecem trancadas até derrotarmos todas as criaturas e da utilização das nossas habilidades para resolver os quebra-cabeças ambientais. A exploração revela-se incrivelmente recompensadora para quem gosta de explorar cada canto, sendo determinante para encontrar melhorias que aumentam a vida, novas armas para Elliot e magias para a Faie.

O arsenal que vamos adquirindo assume aqui um papel fundamental. Itens como as bombas ou o martelo são precisos para abrir passagens e chegar a locais que anteriormente eram inalcançáveis. Da mesma forma, os poderes de Faie como a sua magia de fogo podem acender tochas para iluminar o caminho e ativar mecanismos, enquanto a habilidade de warp permite teletransportar nos para plataformas distantes e ultrapassar determinados obstáculos.
Esta dinâmica é sustentada por um level design intemporal, estruturado de maneira a incentivar o constante backtracking. O jogo desperta a nossa curiosidade ao deixar visíveis baús ou caminhos que, numa primeira visita, parecem impossíveis de alcançar, levando-nos a regressar a zonas anteriores assim que desbloqueamos uma nova arma ou magia. O mais interessante é a eficácia desta fórmula. Ao longo das mais de 30 horas necessárias para completar a campanha, raramente senti que a repetição fosse um problema, muito por culpa da quantidade de conteúdo que há por descobrir e dos novos caminhos que vamos constantemente desbloqueando, garantindo que a exploração se mantenha fresca até ao final.
O maior senão desta estrutura acaba por ser a diversidade visual das masmorras. À medida que andamos pelas quatro eras, é inevitável sentir uma persistente sensação de déjà vu, como se estivéssemos constantemente a revisitar os mesmos locais mudando apenas de tonalidades. Ainda que haja pequenas alterações, com novos caminhos e obstáculos adaptados a cada período temporal, a comparação visual acaba por ser inevitavelmente constante. Ainda que, a nível pessoal, esse pormenor não me tenha incomodado, teria preferido que a equipa tivesse trabalhado melhor este aspeto, conferindo uma identidade mais distinta a cada masmorra, em vez de se apoiar tanto no reaproveitamento dos mesmos espaços e biomas.

Saltando para a ação, o sistema de combate de The Adventures of Elliot: The Millennium Tales é um dos pontos que me cativou imenso. Apesar da sua aparente simplicidade, enquadra-se inteiramente com os restantes elementos do jogo. Inicialmente, Elliot está equipado com uma espada, bombas para causar grandes danos e um arco para ataques à distância. Contudo, se dedicarmos algum tempo à exploração, rapidamente encontramos uma lança, um martelo e, mais tarde, uma corrente com uma foice, ideal para golpes a uma distância segura, embora seja mais lenta do que a espada. Elliot pode usar ainda um escudo que pode bloquear um número limitado de investidas ou aparar certos golpes se o usarmos no momento exato. No total, temos ao nosso dispor sete armas, cada uma com o seu ataque normal e uma versão carregada que vai evoluindo à medida que encontramos armas mais poderosas.
Ao equipar acessórios, Elliot pode desbloquear novas habilidades de exploração e melhorar os seus atributos.
O combate ganha uma nova dimensão estratégica quando começamos a ter acesso aos poderes elementais da nossa companheira. É extremamente gratificante desferir golpes físicos e, em simultâneo, invocar as magias de Faie. Por exemplo, a fada pode envolver-se em chamas e lançar uma enorme labareda contra os inimigos. Também podemos utilizar o warp para escapar de situações apertadas, garantindo-nos alguns segundos de invisibilidade.
Os Magicites surgem também como um recurso relevante para melhorar as capacidades das armas, funcionando incrivelmente bem porque abre as portas à personalização do nosso equipamento, permitindo adaptar o arsenal ao nosso estilo de jogo. Através destas pedras preciosas, podemos imbuir as armas com efeitos elementais como fogo ou eletricidade, aumentar a probabilidade de danos críticos ou até adicionar modificadores específicos, como a capacidade de disparar flechas duplas com o arco.

Mesmo sem apresentar mecânicas revolucionárias, o jogo dá-nos liberdade suficiente para criar combinações que injetam muita diversão e dinamismo nos combates. Ainda assim, esta vertente teria beneficiado ainda mais se os inimigos fossem variados e o desafio mais acentuado. À semelhança do que acontece com o ambiente das masmorras, os monstros repetem-se em demasia, diferenciando-se apenas pelas cores ou por pequenos elementos mágicos que carregam. Para além disso, não oferecem grande resistência, quando começamos a atacar consecutivamente, eles tendem a ficar parados, sem reação.
Esta falta de atenção nota-se diretamente na dificuldade em geral. Mesmo no modo Hard, a única diferença palpável é que os inimigos causam mais dano, não há qualquer melhoria no seu comportamento, ou movimentos de ataque.
The Adventures of Elliot: The Millennium Tales testa as nossas capacidades essencialmente nos confrontos contra os bosses. Cada um deles fazem jus às mecânicas da masmorra em que se inserem, revelando-se num desafio à altura. Munidos de habilidades poderosas e padrões bem mais complexos, estes confrontos levam o nosso arsenal e os poderes de Faie ao limite, pedindo uma enorme dose de reflexos e concentração para os conseguirmos derrotar. São, sem dúvida, os melhores momentos da ação.

Como não poderia deixar de ser, The Adventures of Elliot é um autêntico mimo visual. É perfeitamente notável que a Team Asano, em colaboração com a Claytechworks, está a apurar cada vez mais o estilo visual HD-2D. Na PlayStation 5, o jogo corre fluidamente a 60 FPS, casando na perfeição o desempenho com um grafismo encantador que nos transporta diretamente para a era de ouro da SNES. Embora que peca um pouco na diversidade como já mencionei anteriormente, é impossível não nos deixarmos vislumbrar pelo brio de cada cenário. As cores, a perspetiva, a profundidade entre elementos presente em pequenos pormenores e os efeitos dos ataques dão um carisma sem igual aos momentos tanto de ação como os de exploração, dotando este jogo de uma estética facilmente envolvente e inesquecível.
Quanto ao áudio, continua a notar-se a ausência de legendas em português, uma falha que infelizmente ainda se repete nestes lançamentos. Ainda assim, o elenco de vozes em japonês é simplesmente admirável, entregando prestações com alma que tornam os enredos e os diálogos muito mais credíveis. Para acompanhar, a banda sonora vai buscar clara inspiração às grandes composições de Octopath Traveler, apostando em temas fortes para quando andamos a explorar ou no calor do combate, sem esquecer aquelas melodias mais melancólicas que nos tocam diretamente no coração durante os momentos mais emotivos.
A banda sonora ficou a cargo de Tomohiro Nakamachi e Yuto Moritani.
Depois de nos terem brindado com Octopath Traveler e Triangle Strategy, a equipa traz-nos The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, juntando ao seu repertório mais um título soberbo e à altura das expectativas. A obra é uma bela carta de amor aos clássicos da era SNES, conseguindo resgatar aquela sensação de estarmos no papel de um herói que precisa salvar o mundo de um mal maior, envolto num revivalismo pixel, mas sem deixar de ser atual, com um grafismo único e bastante autoral. O combate vive da simplicidade, mas destaca-se pelo dinamismo e liberdade que nos dá para elaborar combinações assim que desbloqueamos as armas e os poderes de Faie. A isto junta-se um mapa repleto de conteúdo, com puzzles e desafios na dose certa que nos mantém sempre estimulados.
Sustentada por uma narrativa que facilmente nos deixa envolvidos, revelou-se uma extraordinária jornada de ação e aventura. Esta nova aventura tem tudo o que é preciso para apaixonar os jogadores da velha guarda, ao mesmo tempo que prova ter argumentos mais do que suficientes para conquistar uma nova geração de aventureiros.









