Quem entra na Netflix à procura de anime encontra hoje um catálogo enorme, que vai de fenómenos recentes a clássicos absolutos. O problema de um catálogo tão vasto é que boa parte dele acaba invisível, séries genuinamente boas ficam para trás, empurradas por tudo o que chega depois, e nunca conseguem construir o público que mereciam. Estes cinco títulos são exemplos claros disso mesmo.
5Japan Sinks: 2020
Um terramoto descomunal, poucos meses depois dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020, dá início a uma corrida contra o tempo que atira o Japão inteiro para um colapso quase total. É este o ponto de partida de Japan Sinks: 2020, dirigido por Masaaki Yuasa, o mesmo nome por trás de Devilman Crybaby, um dos maiores sucessos de anime alguma vez produzidos pela Netflix.
Ao contrário do antecessor, que se tornou um fenómeno quase instantâneo, esta série de dez episódios acabou praticamente esquecida, apesar de partilhar a mesma ambição criativa. A história segue de perto dois irmãos que, junto da família e de estranhos tão excêntricos quanto empáticos, tentam encontrar algum tipo de segurança num mundo que deixou de fazer sentido. O elenco alargado e o cenário em expansão constante dão por vezes uma sensação de dispersão, mas essa dispersão acaba sempre por alimentar o caos coletivo que a série quer retratar.
Não é um anime fácil de digerir. As personagens são expostas a perdas sucessivas, e o desconforto é praticamente constante ao longo da temporada. Ainda assim, é precisamente por não facilitar nada ao espectador que a série consegue funcionar tão bem como retrato do colapso social, da mentalidade de manada e, sobretudo, da teimosia humana em continuar de pé mesmo quando tudo à volta desmorona.
4Spriggan
Indiana Jones a cruzar-se com Akira. É mais ou menos assim que se pode resumir Spriggan, uma produção da David Production lançada em 2022, que junta arqueologia, tecnologia perigosa e uma boa dose de acção old school ao longo de apenas seis episódios. A premissa: uma equipa de elite dedicada a localizar e proteger relíquias antigas antes que caiam em mãos erradas, entre elas um fragmento da própria Arca de Noé.
Cada um destes artefactos esconde um poder tecnológico que várias nações desonestas adorariam transformar em arma, e é essa ameaça constante que dá o ritmo à série. Com capítulos de cerca de 45 minutos, cada episódio funciona praticamente como um pequeno filme independente, algo que raramente se vê num formato tão curto. A organização ARCAM, com fins altruístas, recorre a exosqueléticos blindados e tecnologia futurista sempre que a situação exige respostas mais extremas.
Apesar de aprofundar bastante mais do que o próprio filme de 1998 em que se baseia, Spriggan nunca perde aquele charme nostálgico tão associado aos anos 90. É um dos títulos mais injustamente esquecidos da David Production, e a verdade é que a sua fraca visibilidade na Netflix torna cada vez mais improvável uma segunda temporada, apesar de ainda existir bastante material do mangá original por adaptar.
3Hi Score Girl
Nem todos os animes de crescimento conseguem captar tão bem o espírito de uma década inteira como Hi Score Girl faz com os anos 90 e a cultura dos salões de jogos arcade. Ao longo de duas temporadas, a série acompanha Haruo, um aluno do sexto ano cheio de energia mas sem foco nenhum para os estudos, que só parece verdadeiramente vivo quando está dentro do seu salão de jogos favorito.
É aí que conhece Akira, uma menina de família abastada e educação bastante tradicional, que o surpreende pela habilidade e paixão com que joga. Os dois vêm de mundos completamente diferentes, mas encontram uma ligação genuína através de algo tão simples como o gosto partilhado por videojogos. Essa amizade, e o romance que lentamente se desenha a partir dela, funciona tão bem que até quem nunca pegou num comando acaba a torcer sinceramente para que os dois assumam o que sentem.
Parte do encanto está em Akira, que, apesar de confiante, quase não fala ao longo da série, o que lhe dá um certo mistério e obriga Haruo a olhar mais para dentro de si próprio. É essa relação bastante realista, sem qualquer condescendência para com a cultura gamer, que se torna a verdadeira força motriz de Hi Score Girl, e talvez a razão pela qual continua a ser tão pouco falada apesar da qualidade.
2Thus Spoke Kishibe Rohan
A 18 de fevereiro de 2021, a Netflix estreou globalmente um spin-off de apenas quatro episódios do universo de JoJo’s Bizarre Adventure, numa altura em que a franquia ainda não tinha o público fiel que hoje tem na plataforma graças a Stone Ocean e Steel Ball Run. O resultado foi Thus Spoke Kishibe Rohan passar praticamente despercebido, apesar de ser uma das obras mais interessantes ligadas ao universo criado por Hirohiko Araki.
Ao contrário da série principal, construída à volta de combates hiperbólicos entre Stands poderosos, este spin-off abandona por completo a acção em favor de mistérios sobrenaturais e horror psicológico. O protagonista, Rohan Kishibe, já conhecido dos fãs como aliado de Josuke Higashikata em Diamond is Unbreakable, é agora mostrado como um mangaká de sucesso que percorre lendas urbanas e mistérios macabros à procura de inspiração para as próprias histórias.
Esse processo criativo expõe-no a obstáculos muito específicos, dando à série um tom entre o exagerado e o clássico, próximo de uma versão distorcida de Twilight Zone. A David Production garante, como seria de esperar, um visual extremamente estilizado para cada um dos casos de Rohan. Curiosamente, com uma personagem original deste spin-off a ter feito recentemente a sua estreia no mangá The JOJOLands, não é impossível que a Netflix acabe por revisitar este pequeno tesouro escondido do seu catálogo.
1BNA: Brand New Animal
O subgénero de animes ambientados em mundos de animais antropomórficos, usados como alegoria para discriminação e identidade, já deu origem a bastantes obras que facilmente se confundem entre si. BNA: Brand New Animal, do Studio Trigger, foge a essa regra, apesar de continuar longe do reconhecimento que merece.
A protagonista, Michiru, é uma adolescente humana que sofre uma transformação inesperada num tanuki, descobrindo assim ser, na verdade, um beastman. Rejeitada por uma sociedade que segrega humanos e beastmen, acaba por procurar refúgio na Anima-City, uma cidade pensada especificamente para acolher criaturas como ela. É lá que conhece Shirou, um detective beastman particularmente duro, que carrega um ressentimento profundo contra os humanos pela forma como isolaram a sua espécie ao longo dos anos.
À medida que Shirou a ajuda a perceber o que lhe aconteceu e como poderá recuperar a humanidade, a dupla acaba por desenterrar conspirações muito maiores e uma corrupção bem mais profunda do que qualquer um dos dois esperava. Por trás de uma estética fofa e colorida, BNA: Brand New Animal não hesita em abordar temas bastante mais adultos e complexos ao longo da sua duração, o que a torna uma das apostas mais subestimadas do Studio Trigger.









