
Depois de confirmados os cortes que atingem a Xbox este ano, há um documento que se tornou o centro das atenções de toda a indústria, o memorando interno enviado por Asha Sharma aos funcionários da divisão. Mais do que os números, são as próprias palavras da CEO que revelam o estado real em que a Xbox se encontra e a forma como pretende reconstruir a empresa a partir daqui.
“O nosso negócio hoje não é saudável”
Logo nas primeiras linhas, Sharma opta por não suavizar a mensagem. A CEO escreve diretamente que “o nosso negócio hoje não é saudável”, uma frase que resume o tom de todo o memorando e que raramente se vê da parte de um líder de uma empresa desta dimensão.
Sharma detalha esta afirmação com números concretos, a Xbox está a operar com margens três a dez vezes inferiores às de negócios de plataformas e de publicação comparáveis. Segundo a CEO, a empresa entrou nesta geração de consolas com uma base instalada mais pequena do que a concorrência e uma estrutura de custos mais pesada, e a aposta feita para inverter essa desvantagem, o Game Pass, a estratégia multiplataforma e um portefólio de conteúdos mais alargado, não cresceu ao ritmo que a empresa esperava.
Sharma foi ainda mais longe ao explicar que a Xbox chegou a perder 64 cêntimos por cada dólar investido nalguns dos seus negócios, um dado que a própria descreve como parte do problema que levou a esta reestruturação.
“Sei que isto é doloroso”
Ao dirigir-se diretamente às pessoas afetadas, Sharma assume um tom mais pessoal. No memorando, a CEO escreve que sabe que a decisão é dolorosa e reconhece que estas mudanças atingem diretamente pessoas que dedicaram a sua criatividade a construir a Xbox, muitas delas chegadas através de aquisições de estúdios, outras recrutadas diretamente ou que procuraram a empresa por gostarem da indústria e da marca. Sharma deixa claro que as decisões tomadas não refletem o talento ou a dedicação dessas pessoas.
É também neste tom que a CEO reconhece as limitações do próprio processo, admitindo que uma reestruturação distribuída ao longo de um ano cria dificuldades adicionais para quem trabalha na empresa, mas que não seria possível concretizar todas as mudanças necessárias num único dia.
As três frentes da reestruturação, nas palavras da própria CEO
Sharma organiza o memorando em torno de três eixos que, segundo ela, vão redefinir a Xbox: o portefólio de conteúdos, a plataforma e a forma como a própria empresa opera internamente.
Sobre o portefólio, a CEO explica que a Xbox expandiu de forma agressiva o número de estúdios sob a sua alçada desde 2018, numa altura em que o número de jogos lançados todos os meses em toda a indústria já ultrapassa a soma da última década. Segundo Sharma, a empresa passou a competir não só com as maiores editoras, mas também com pequenos estúdios independentes, e nem sempre foi a casa certa para todos os tipos de estúdio que adquiriu.
Já sobre a plataforma, Sharma não esconde a autocrítica. Escreve que, nalgumas áreas da empresa, o trabalho chega a passar por 14 camadas de gestão diferentes, e que as equipas de plataforma cresceram 40% desde o início desta geração de consolas, mesmo com a base de jogadores e o tempo de jogo a diminuir. Para a CEO, essa complexidade tornou-se um obstáculo direto à capacidade da Xbox de responder aos jogadores.
Por fim, sobre a forma como a empresa opera, Sharma aponta para a fragmentação entre equipas, estúdios e áreas funcionais, que, segundo ela, tornou mais difícil trabalhar em torno de um objetivo comum e tomar decisões consistentes.
Uma nova estrutura de liderança anunciada por Sharma
No mesmo memorando, Sharma anuncia a criação de um novo cargo dentro da Xbox, o de Chief Operating Officer, com responsabilidade total sobre conteúdos, hardware, plataforma e serviços. A escolhida para a função é Helen Chiang, que Sharma descreve como tendo ajudado a construir, ao longo de quase duas décadas na empresa, alguns dos negócios mais importantes da Xbox, desde a Xbox Live até à liderança da Mojang e da franquia Minecraft.
A CEO agradece ainda, no mesmo documento, a Dave McCarthy, que se reforma depois de 17 anos ligado à Xbox, destacando o papel do executivo na construção da plataforma que, segundo Sharma, milhões de jogadores usam todos os dias.
O tom final do memorando
Depois de um documento marcado por autocrítica direta e por reconhecimento explícito de erros, Sharma termina numa nota que procura ser de confiança no futuro. Escreve que estas mudanças “são sobre um futuro maior para a Xbox, não mais pequeno”, e que este ano a empresa vai investir na Xbox tanto como sempre investiu, ainda que com mais foco, mais disciplina e mais clareza.
A CEO reforça ainda a ambição de fazer da Xbox uma das poucas empresas capazes de entreter mais de mil milhões de pessoas todos os dias, dando a qualquer pessoa a oportunidade de criar e de se ligar aos outros através da plataforma.
A frase que fecha o memorando resume bem o tom que Sharma quis dar a este momento: “A história está cheia de empresas que confundem longevidade com inevitabilidade. Nós não seremos uma delas”.








