InícioJapãoCada vez menos estrangeiros querem ficar no Japão a longo prazo. Um...

Cada vez menos estrangeiros querem ficar no Japão a longo prazo. Um novo estudo explica porquê

Interesse em residência permanente no Japão cai entre trabalhadores estrangeiros

Shaking Tokyo movie screenshot Japão

Durante anos, o Japão foi visto como um destino atrativo para quem procurava trabalho fora do seu país de origem. Um novo inquérito sugere que esse fascínio está a esbater-se, pelo menos entre quem está agora a candidatar-se a empregos no arquipélago.

Os resultados do Estudo sobre as Atitudes de Emprego de Cidadãos Estrangeiros no Japão de 2026, conduzido anualmente pela empresa de recrutamento Mynavi Global, mostram uma queda acentuada na percentagem de trabalhadores estrangeiros que pretendem permanecer no país durante um longo período. Segundo o levantamento divulgado a 7 de julho, apenas 63,3% dos inquiridos afirmaram querer trabalhar no Japão por cinco anos ou mais, uma descida de 18,4 pontos percentuais face ao ano anterior.

O que dizem os números

Quando questionados sobre quanto tempo gostariam de trabalhar no Japão, os participantes responderam da seguinte forma:

  • Mais de cinco anos: a percentagem caiu de forma expressiva em relação ao ano passado
  • Entre dois e cinco anos: subiu de forma significativa
  • Vontade de regressar ao país de origem dentro de um ano: também aumentou, embora continue a ser a opção minoritária

Ou seja, não se trata de uma fuga em massa do Japão, mas antes de um número crescente de trabalhadores estrangeiros que já não veem o país como um destino para se fixarem indefinidamente.

O inquérito também apontou uma quebra no interesse pela residência permanente, segundo os dados apenas 39,2% dos inquiridos manifestaram vontade de obter esse estatuto, contra 47% no ano anterior. Ainda assim, uma parte considerável dos participantes disse querer permanecer no Japão durante vários anos antes de regressar a casa, o que sugere que o interesse pelo país não desapareceu, apenas se tornou mais condicionado no tempo.

O peso do iene fraco

Um dos fatores mais apontados para esta mudança é a desvalorização do iene. Enquanto a moeda fraca torna o Japão um destino barato para turistas estrangeiros, o mesmo cenário tem o efeito oposto para quem recebe salário em ienes, os bens de consumo e as despesas do dia a dia ficaram mais caros, sem que os salários tenham acompanhado esse ritmo.

Há ainda outro efeito menos evidente, quem trabalha no Japão a pensar em regressar um dia ao seu país vê as suas poupanças perderem valor quando convertidas para moedas mais fortes. Para quem não descarta viver noutro lugar no futuro, cada salário recebido em ienes representa, na prática, uma perda face a alternativas de trabalho noutros mercados.

A isto soma-se a concorrência crescente de países vizinhos, como a Coreia do Sul, que se têm tornado destinos cada vez mais competitivos para atrair mão de obra estrangeira, oferecendo condições salariais mais vantajosas.

Nem todos os estrangeiros pensam da mesma forma

Apesar dos números, há um aspeto importante que limita o alcance destas conclusões, a amostra do inquérito. A Mynavi Global recolheu 1.732 respostas, sobretudo através de utilizadores dos seus próprios serviços de procura de emprego, de escolas de língua japonesa parceiras e de comunidades online de estrangeiros à procura de trabalho no Japão.

Isto significa que a maioria dos participantes é composta por pessoas ainda no início da vida profissional no país, ou que estão insatisfeitas com o emprego atual. Cerca de 41,1% dos inquiridos são estudantes, e outros 41,1% trabalham ao abrigo do programa de Trabalhador com Competência Específica, uma categoria de visto que abrange áreas como enfermagem, limpeza, indústria, construção, restauração e agricultura, funções que, regra geral, não oferecem salários altos o suficiente para compensar a inflação e a desvalorização cambial.

Estrangeiros em posições profissionais mais qualificadas, nas áreas financeira, de gestão ou tecnológica, dificilmente terão sido representados em número significativo nesta amostra. Um inquérito que incluísse mais respostas deste perfil provavelmente revelaria uma maior percentagem de pessoas disposta a permanecer no Japão a longo prazo, já que residentes estrangeiros já estabelecidos, com carreira, casa e família no país, tendem a ter uma visão mais otimista sobre continuar a viver ali.

A maioria dos participantes é originária do sudeste asiático. As cinco nacionalidades mais representadas no inquérito foram:

  • Vietname: 36,1%
  • Myanmar: 22,2%
  • Nepal: 13,5%
  • Indonésia: 11,5%
  • China: 7,3%

Curiosamente, a queda no interesse em permanecer cinco ou mais anos não foi uniforme entre estas nacionalidades. Os inquiridos vietnamitas e indonésios mostraram-se bastante menos disponíveis para ficar a longo prazo, com quebras de 18,4 e 10,9 pontos percentuais, respetivamente, face ao ano anterior. Já entre os participantes de Myanmar, Nepal e China verificou-se o inverso, com ligeiras subidas de 6,4, 4,7 e 1,2 pontos percentuais na vontade de permanecer no país por mais de cinco anos.

Vale ainda a pena notar que, apesar de os resultados terem sido divulgados apenas em julho, o inquérito foi na realidade conduzido entre o final de janeiro e o início de fevereiro deste ano. Desde então, a fraqueza do iene e a subida dos preços ao consumidor não melhoraram e, entretanto, surgiram novas propostas do governo japonês que deverão tornar a vida como estrangeiro no Japão ainda mais cara, entre as quais um aumento acentuado das taxas associadas ao pedido de residência permanente e novos requisitos de proficiência na língua japonesa para quem pretende obter esse estatuto.

Isto não significa que o Japão esteja à beira de um êxodo de trabalhadores estrangeiros em idade ativa, nem que mudar-se para o país seja atualmente uma má ideia, sobretudo para quem tem contrato de expatriado com salário fixado noutra moeda que não o iene. Os dados sugerem, sim, um crescente pessimismo em relação ao panorama económico de quem inicia carreira no Japão com salário em ienes, especialmente havendo alternativas noutras partes do mundo.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

Artigos Relacionados

Subscreve
Notify of
guest

0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente
- Publicidade -

Notícias

Populares