InícioAnime10 animes que ousaram ser completamente diferentes

10 animes que ousaram ser completamente diferentes

A maior parte das séries de anime que fazem sucesso segue uma fórmula relativamente segura. Depois há aquelas que escolhem o caminho oposto. Em vez de se acomodarem ao que já foi testado, apostam em narrativas de escala descomunal, em formatos pouco convencionais, ou até criam géneros inteiramente novos dentro da animação japonesa.

10
Lord of Mysteries

Lord of the Mysteries - PV screenshot

Com apenas uma temporada e três episódios especiais no currículo, Lord of Mysteries pode parecer, à primeira vista, uma aposta modesta dentro do panorama do donghua. A realidade, no entanto, é bem diferente assim que se olha para a origem da obra e para os planos traçados para o seu futuro.

Tudo começou como um romance chinês de sucesso estrondoso, com 1432 capítulos publicados ao longo de vários anos, um verdadeiro épico de fantasia sombria, com uma escala e uma complexidade que raramente se veem neste tipo de literatura online. Misturar steampunk vitoriano, mistério, horror cósmico e fantasia de progressão numa única história já seria, por si só, um desafio considerável. Adaptar tudo isto para animação, sem sacrificar o que torna a obra tão especial, é uma tarefa de outra ordem de grandeza.

É por isso que o plano anunciado pelo estúdio B.CMay Pictures impressiona tanto: seis temporadas, três episódios especiais e um filme, distribuídos ao longo de uma década inteira. Poucas produções assumem um compromisso tão longo com uma única obra, e ainda menos o fazem com uma história desta complexidade. Se o projecto se mantiver fiel ao que já foi mostrado até agora, Lord of Mysteries pode vir a tornar-se numa referência incontornável na forma como se adapta literatura web para anime.

9
JoJo’s Bizarre Adventure

JoJo's Bizarre Adventure part 7 vol 1 cover (2)

Poucas franquias shonen conseguem manter-se relevantes durante quase quatro décadas, mas JoJo’s Bizarre Adventure é uma delas, e o segredo está, em grande parte, na forma pouco convencional como a obra foi concebida. Hirohiko Araki podia ter optado por uma narrativa contínua, com o mesmo protagonista do início ao fim, tal como acontece na esmagadora maioria dos mangá deste género. Escolheu, em vez disso, um caminho muito mais arriscado.

Cada parte de JoJo’s Bizarre Adventure introduz um novo protagonista, uma nova época e, muitas vezes, uma localização completamente diferente. Esta estrutura geracional obriga a série a reinventar-se constantemente: novos poderes, novos vilões, novas regras narrativas. Em vez de repetir a mesma fórmula ao longo de dezenas de volumes, Araki usa cada nova parte como oportunidade para experimentar.

Essa liberdade também permitiu decisões verdadeiramente arrojadas, como reescrever por completo o sistema de poderes da série, a transição dos hamon para os stands é disso o exemplo mais óbvio, ou reiniciar praticamente todo o universo da obra numa das partes mais recentes. Poucas franquias de longa duração se permitem este tipo de reinvenção sem perder a identidade que as tornou populares, e é isso que faz de JoJo’s Bizarre Adventure um caso tão particular dentro do shonen.

8
FLCL

FLCL anime visual

Há séries que demonstram ambição pela escala e pela duração. FLCL faz exactamente o oposto, consegue condensar mais ideias, mais caos visual e mais experimentação em apenas seis episódios do que a maioria das produções conseguiria em várias temporadas. É uma obra deliberadamente excessiva, pensada para desorientar quem a assiste, e é precisamente essa desorientação que faz parte da experiência.

Produzida pela Gainax e Production I.G entre 2000 e 2001, a série recusa qualquer tipo de convenção narrativa. A história salta entre cenários surreais sem grande preocupação com lógica linear, a animação muda de estilo praticamente de cena para cena, e o tom alterna entre o cómico, o frenético e o inesperadamente melancólico. Para quem vê pela primeira vez, pode parecer puro caos gratuito.

Só que, por trás de todo esse frenesim visual, existe uma história de crescimento genuinamente sensível, sobre um rapaz de doze anos a tentar perceber o que significa tornar-se adulto. É esse contraste, entre a superfície caótica e o núcleo emocional sincero que transformou FLCL num clássico de culto. A série não tenta organizar o caos que cria, limita-se a abraçá-lo por completo, confiando que o espectador vai encontrar sentido nele à sua maneira.

7
Dragon Ball

capa Dragon Ball Vol. 7 (3 em 1) Devir (1)

É fácil esquecer que Dragon Ball começou como algo bem mais modesto do que aquilo em que se tornou. A obra original de Akira Toriyama era, essencialmente, uma jornada de herói inspirada no folclore chinês, com um tom leve e aventuras episódicas. Pelos padrões actuais, dificilmente seria descrita como ambiciosa.

O que torna Dragon Ball verdadeiramente notável não é o ponto de partida, mas a forma como evoluiu. Toriyama nunca planeou a série com grande antecedência, foi construindo a história semana após semana, à medida que ia sendo publicada na Shonen Jump. Essa abordagem despreocupada, que muitos criticariam por falta de planeamento, foi precisamente o que lhe deu liberdade para alargar o âmbito da narrativa de formas que um plano rígido jamais permitiria.

O resultado é uma obra que cresce e se transforma tal como as suas próprias personagens: de uma comédia de aventuras para um dos pilares fundadores do género battle shonen, com transformações, arcos de poder e uma mitologia que se expandiu muito para lá do que Toriyama alguma vez imaginou no início. E, apesar de toda essa expansão, Dragon Ball nunca perdeu aquilo que o tornou popular em primeiro lugar, prova de que ambição não tem de significar abandonar as origens.

6
Fate

Imagem promocional e teaser do 3º filme de Fate/stay night: Heaven’s Feel

Em 2004, a então pequena produtora japonesa Type-Moon lançou Fate/stay night, uma visual novel que rapidamente conquistou fãs pelo seu conceito original: sete magos e sete espíritos heróicos a competir por um objecto capaz de realizar qualquer desejo. O sucesso deste primeiro jogo foi o ponto de partida para uma das franquias multimédia mais ambiciosas do panorama japonês.

Hoje, Fate estende-se muito para lá daquele jogo inicial. Existem visual novels, light novels, mangá, e um número considerável de adaptações anime, cada uma explorando ângulos diferentes do mesmo conceito central, as chamadas Grail Wars. É precisamente essa expansão descontrolada que torna a franquia tão intimidante para quem quer começar do zero.

Não existe uma ordem de visionamento oficial, as diferentes histórias entrelaçam-se de formas nem sempre óbvias, e o lore acumulado ao longo de mais de vinte anos é vastíssimo. Ainda assim, é precisamente essa complexidade que fideliza tantos fãs a longo prazo, percorrer Fate na íntegra é como desvendar um puzzle gigantesco, e mesmo quem prefere começar pelos títulos mais acessíveis acaba, mais cedo ou mais tarde, a querer explorar o resto do universo.

5
Redline

Redline 10th aniversary

Nem toda a ambição em anime se mede pelo sucesso comercial. Redline é talvez o melhor exemplo disso, um filme que fracassou nas bilheteiras japonesas, mas que hoje é celebrado como um clássico de culto incontornável entre quem valoriza a animação tradicional feita inteiramente à mão.

Produzido pelo estúdio Madhouse, Redline levou sete anos a concluir, um período de produção invulgarmente longo, mesmo para os padrões da indústria. O resultado são mais de 100 mil frames desenhados manualmente, um esforço técnico que já era raro em 2009, ano do seu lançamento, numa altura em que a animação digital começava a dominar por completo o mercado.

Essa escolha por manter o processo tradicional, num momento em que a maioria dos estúdios já apostava em ferramentas digitais para acelerar a produção, é o que torna Redline tão especial. Cada corrida, cada explosão, cada expressão facial das personagens carrega o peso visível de um trabalho manual meticuloso. Foi, sem dúvida, um projecto arriscado do ponto de vista financeiro, mas o fervor visual que resultou dele continua a conquistar novos fãs, mais de uma década depois da sua estreia.

4
Space Battleship Yamato

2º filme de Space Battleship Yamato 2205 imagem promocional

Antes de Space Battleship Yamato chegar aos ecrãs em 1974, a ideia generalizada era a de que o anime servia sobretudo públicos jovens, com histórias simples e episódicas. Leiji Matsumoto decidiu desafiar essa noção com uma space opera de tom sério, ambientada num futuro pós-apocalíptico, onde a Terra depende de uma única nave para sobreviver.

A série não foi um sucesso imediato, longe disso. Mas o risco que assumiu, ao tratar temas como guerra, sacrifício e sobrevivência com uma seriedade pouco habitual para a época, acabou por pavimentar o caminho para toda uma geração de anime posterior que também quis ser levada a sério enquanto forma de contar histórias complexas.

Com o tempo, Space Battleship Yamato tornou-se ainda na base daquilo a que os fãs chamam o Leijiverse, um vasto conjunto de obras de ficção científica interligadas, criadas pelo mesmo autor ao longo de décadas. Poucos criadores conseguem construir um universo tão coeso e duradouro a partir de uma única série original, e menos ainda a partir de uma série que, inicialmente, quase passou despercebida.

3
Mobile Suit Gundam

Mobile Suit Gundam Narrative vol 1 cover (1)

Em 1979, Mobile Suit Gundam introduziu ao público japonês algo que ninguém tinha realmente feito antes, mecha tratados como máquinas de guerra realistas, sujeitas a limitações técnicas e consequências reais, em vez de simples robôs heróicos indestrutíveis. Nascia assim o subgénero conhecido como real robot, que Gundam continua a dominar até hoje.

O caminho até ao sucesso, no entanto, não foi nada linear. A série original enfrentou audiências fracas e esteve perto de ser cancelada precocemente, um destino que hoje parece impensável, dado o estatuto cultural que Gundam viria a alcançar. Foi apenas graças ao sucesso inesperado dos modelos de plástico Gunpla, lançados pouco depois, que a franquia conseguiu recuperar terreno e consolidar-se.

A partir daí, em vez de se limitar a explorar uma única linha temporal, Gundam optou por se expandir em múltiplas direcções: universos alternativos, novas gerações de pilotos, diferentes conflitos políticos e sociais explorados através da guerra mecha. O resultado, quase meio século depois, é uma das franquias mais extensas do anime, com dezenas de séries, filmes e especiais, todos a partilhar a mesma ambição inicial de tratar a guerra robótica com seriedade e consequência.

2
One Piece

Monkey D. Luffy partiu pela primeira vez rumo à Grand Line nas páginas da Shonen Jump em 1997. Quase três décadas depois, a sua tripulação ainda não encontrou o tesouro que dá nome à obra, e, ainda assim, continua a arrastar consigo milhões de fãs em todo o mundo, ansiosos por descobrir como tudo termina.

A longevidade de One Piece não é, por si só, o que o torna ambicioso, há outros mangá e anime igualmente longos que nunca alcançaram o mesmo estatuto. O que distingue verdadeiramente a obra de Eiichiro Oda é a escala e a coerência da sua construção de mundo, centenas de personagens, dezenas de arcos de história interligados por detalhes plantados décadas antes de serem explicados, e uma mitologia que se expande continuamente sem nunca perder o fio condutor.

É essa combinação pouco comum entre humor leve, aventura despretensiosa e uma arquitectura narrativa meticulosamente planeada que faz de One Piece um dos maiores exemplos de ambição a longo prazo dentro do shonen. Poucas séries conseguem manter o interesse do público durante quase trinta anos sem repetir a fórmula, e ainda menos conseguem fazê-lo enquanto constroem, silenciosamente, um dos maiores quebra-cabeças narrativos da cultura pop japonesa.

1
Legend of the Galactic Heroes

Legend of the Galactic Heroes manga vol 1 cover (1)

Se há um anime que consegue fazer a ficção científica parecer o relato de acontecimentos históricos reais, é Legend of the Galactic Heroes. Produzida pela Kitty Films e lançada em episódios entre 1988 e 1997, esta space opera reúne 110 episódios que acompanham, ao longo de quase uma década de produção, um conflito interestelar entre um império autoritário e uma aliança democrática.

O que distingue a série da maioria das ficções bélicas espaciais é a recusa em simplificar. Em vez de apresentar heróis claramente do lado certo e vilões inequivocamente maus, Legend of the Galactic Heroes mergulha na psicologia dos seus dois protagonistas principais, nas ideologias contraditórias das facções que representam e nas estratégias militares que determinam o destino de milhões de vidas.

É uma série paciente, quase documental na forma como trata o seu material, e que nunca tenta empurrar o espectador para uma conclusão fácil sobre qual dos dois sistemas políticos é superior. Apesar da sua escala imensa, e talvez precisamente por causa dela, Legend of the Galactic Heroes consegue dar espaço suficiente a cada personagem, cada facção e cada dilema moral para se desenvolverem por completo, algo raríssimo mesmo entre produções de longa duração.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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